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Obra expande caráter 'laboratorial'
de Brecht
Sérgio de Carvalho, Folha de
São Paulo,06 de abril de 2002.
É costume se referir ao texto
"O Declínio do Egoísta Johann Fatzer"
pelo seu nome de sugestão científica, o "Fragmento
Fatzer". De fato existe algo de radicalmente experimental
nessa peça, da qual Brecht só publicou um núcleo,
constituído de três partes e um coro, em 1931.
Nunca completado, o "Fragmento Fatzer" se tornou
uma espécie de referência necessária quando
o dramaturgo Heiner Müller apontou ali um sentido modelar,
não só para sua obra pessoal, como para toda
a dramaturgia política do século 20.
A nova edição do material, organizada por Müller
e traduzida por Christine Röhrig, reúne dezenas
de esboços dessa obra-projeto, amplificando seu sentido
"laboratorial", já apontado por Brecht em
seu "Diário de Trabalho", em fevereiro de
1939: "De início se poderia estudar os fragmentos
'Fatzer' e 'A Padaria'. Tecnicamente esses dois fragmentos
são os mais elevados modelos".
Escrito entre 27 e 29, época das peças didáticas,
talvez os exercícios mais vanguardistas do teatro moderno,
"Fragmentos Fatzer" reúne uma pesquisa dos
ritmos da crise da ordem burguesa e a procura de novas relações
estéticas com o espectador.
A incompletude não permite afirmar se Brecht pensou
"Fatzer" como uma peça didática. Mas
temas recorrentes dessa fase, como o da "demolição
do heroísmo", atravessam o conjunto dos fragmentos.
A questão da "despersonalização
como escola de revolução" aparece na história
desses quatro soldados que fogem da guerra, escondem-se num
porão e permanecem juntos enquanto um deles tenta conseguir
comida para o grupo. No núcleo da peça, o passeio
desse egoísta Johann Fatzer em busca de carne e seu
fracasso ao se envolver numa briga com os açougueiros.
É espancado diante dos olhos dos amigos desertores,
que fingem não conhecê-lo.
A organização de Heiner Müller destaca
uma complexa dialética entre o individualismo de Fatzer
e o projeto coletivista de Koch. Fatzer é movido por
uma "vontade que só dá para o crime",
de tendências anarquistas. Repudia aqueles que pretendem
que "todos sejam iguais".
No lado de Koch, a busca da disciplina partidária,
da decisão a favor do terror. Fatzer é um ponto
geométrico, os outros, uma linha. Nenhum deles pode
ter três dimensões enquanto determinados pela
fome, enquanto o teto foge sobre suas cabeças, enquanto
exilados da força da massa. Como resposta ao embrutecimento,
vemos a tentativa vã de constituir um tipo de soviete,
em que "a falta de união conduz o sistema ao voto
da maioria".
Com "Fatzer" temos estilhaços de uma belíssimo
e perturbador poema feito de história. Uma época
é lançada no papel, e sua materialidade transborda.
São expostos pedaços dos corpos destruídos
na Primeira Guerra Mundial. Distinguimos os rumores da tentativa
revolucionária abortada na Alemanha pela cisão
dos socialistas e pelo assassinato de Rosa Luxemburgo e Liebknecht.
Ouvimos algo das mentiras da social-democracia e também
uma crítica àquilo que se mostrou depois como
erro histórico, a divisão permanente do movimento
trabalhista internacional em favor de um modelo de partido
de vanguarda leninista, feito de "revolucionários
profissionais".
Os grandes temas do século 20, a guerra e o desemprego,
entram em cena na ótica nítida de que esse estado
de coisas só prejudica os que estão embaixo.
"Com nosso braço, nossa pessoa é combatida",
diz um verso de uma peça cuja ambiguidade não
esconde a certeza de que a modificação social
impõe a questão: "Com quem se agrupar?".
Em "Fatzer" formulam-se diferentes soluções
para o problema de como organizar a cena numa perspectiva
antiburguesa. Na representação, ativa ou passiva,
do proletariado, surgem no palco os coros do "homem-massa",
cuja mecanicidade imposta pelo medo se reverte na força
cênica da esperança. Mas surgem também
os "tipos" populares mais vivos, de interesses desalienantes,
numa posição crítica entre o indivíduo
e o grupo.
É pelos "tipos femininos" da peça
que podemos contemplar à distância o comportamento
de seus "heróis". É como se, nos tempos
de guerra, só as mulheres estivessem vivas, pois nas
fronteiras existem homens enterrados, que não se distinguem
do chão. Quando a sra. Kaumann, a mulher por quem o
marido não tem mais desejo, é prostituída
pelos quatro desertores e se torna objeto de uma discussão
sobre a natureza da propriedade, se individual ou coletiva,
são os protagonistas do debate que se transformam em
objeto de nosso julgamento. Pela situação delas
se aponta a consciência coletiva do sofrimento.
Nos fragmentos também utópicos de "Fatzer",
lê-se que a palavra proletariado já significou
um dia a esperança de que a vida pode viver. É
na busca da transformação do Estado em algo
conforme às necessidades da vida que um dos coros finais
avalia a relação entre Fatzer e seus amigos:
"Ao seduzi-los para aniquilá-los, ele os aniquila.
Certo seria nunca perder a conexão com o amanhã".
Para além da fantasmagoria da peça, a vida depende
de uma luta histórica.
Sérgio de Carvalho
é diretor da Companhia do Latão, professor do
departamento de artes cênicas da Unicamp e co-autor
da peça "Auto dos Bons Tratos".
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A atualidade de Brecht
por Sérgio de Carvalho
Talvez um bom modo de se localizar
as idéias mais vivas de Brecht hoje seja procurando
entre as que mais aversão despertam. Os inimigos e
detratores de Brecht nos dão bom testemunho da vitalidade
de sua obra. Para um autor que trabalhava com matéria
negativa, que fazia bom teatro com o pior da sociedade, a
análise das rejeições que ele suscita
pode conter algo de interessante.
Sua defesa da razão, por exemplo. O incômodo
provocado por um projeto artístico de inteligibilidade
- como se a arte não fosse também reino do conhecimento
(para além da intuição) e de planos (para
além dos sonhos) - talvez nos dê pistas para
compreender os motivos pelos quais o Brecht mais encenado
no Brasil é o da primeira fase, o jovem niilista febril
das peças Baal e Tambores da Noite. Ou ainda nos dê
pistas para compreender por quê sempre que se discute
o racionalismo dialético de sua obra é preciso
aliviar a tensão do ouvinte com a adversativa : "Ah,
mas ele jamais desassociou razão de prazer".
O prazer do entendimento era, para ele, um ramo do "prazer
da produtividade". Muito desse efeito agradável
ele conseguia no jogo de desvendamento das construções
da cena teatral. Hoje em dia, esta característica lúdica
da teatralidade exposta anda sendo muito evocada para aliviar
o peso de outra de suas idéias : a de que a arte tem
como referente o mundo atual.
O interesse objetual do teatro brechtiano passava não
só por definir o outro do teatro - o mundo - mas por
se definir em relação ao outro, assinalando
as diferenças existentes. Por meio desta "cultura
da separação" é que ele procurava
compreender os acontecimentos que se produzem entre os homens.
Quando revelava os mecanismos da cena teatral isso não
aparecia como metalinguagem narcísica (tão comum
entre os jovens e velhos cultores do próprio rabo do
teatro atual), mas para apresentar, de forma contraditória,
os movimentos dos homens em sociedade. Quando ele mostrava
o "teatro em sua realidade de teatro" isso surgia
como uma radicalização poética do próprio
realismo. Em épocas como a nossa, de "vale o que
vier", as poéticas do objeto causam incômodo,
ao se apegarem, "sabe-se lá por quê, a coisas
de tão baixa transcendência" como a historicidade
das ações humanas. Bom sinal.
A maior dentre as rejeições a Brecht é,
contudo, de ordem política. Com a proximidade das comemorações
de seu centenário de nascimento, em fevereiro do ano
que vem, a questão da "atualidade" de sua
obra volta com grande força. E essa questão
só se apresenta em sua complexidade quando descartadas
tanto a posição conservadora (segundo a qual
a atualidade de Brecht é indiscutível), como
a posição difamatória, para quem a pergunta
sobre a atualidade embute um desejo covarde de que todo o
pensamento de esquerda desapareça do mapa e pare de
resistir ao arruinamento geral da consciência, processo
que alguns preferem chamar de plenificação do
"mundo moderno".
Em julho deste ano, dois dos maiores críticos literários
deste país - Roberto Schwarz e José Antonio
Pasta Jr. - não por acaso dois brechtianos no melhor
sentido do termo, realizaram conferências sobre o tema
da "atualidade de Brecht" no Teatro de Arena Eugênio
Kusnet, em evento organizado pela Companhia do Latão.
Quem teve a sorte de assistir àquelas exposições
pôde perceber a amplitude do tema. Porque discutir Brecht
hoje, como fez Roberto Schwarz, implica uma "verificação
geral do estado do mundo", implica perceber as transfomações
históricas que fizeram com que o principal alvo da
crítica brechtiana - a sociedade capitalista tradicional
- se modificasse a ponto de hoje o capital ter se tornado
um "fator loucamente dinâmico da sociedade",
em relação à qual é preciso reposicionar
o tema marxista da desnaturalização, base da
técnica do "distanciamento" brechtiano.
Se hoje o capitalismo deixou de se fundar no idealismo burguês,
para se tornar, ele próprio, materialista - ao assumir
sem pudor que o móvel primeiro das relações
é econômico - a sua alternativa, por outro lado,
já não está tão ao alcance da
mão. A grande pergunta sobre a atualidade de Brecht
é também uma pergunta - como observou Roberto
Schwarz - sobre qual o ponto de vista a adotar para o distanciamento,
na medida em que as coordenadas de classe que permitiam o
agrupamento já não são as mesmas.
O que se pode dizer, diante disso tudo, é que a atualização
de Brecht pressupõe uma ampla pesquisa da sociedade
contemporânea. De que outros autores deste século
se poderia dizer o mesmo ?
Pode-se dizer também - como fez José Antonio
Pasta Jr. - que essa pergunta não se enuncia somente
de fora da obra de Brecht, mas sobretudo de seu próprio
interior. Porque em Brecht o distanciamento não é
só uma técnica pela qual a cena se torna "estranha"
para efeito de riso, crítica ou apenas de melhor contemplação.
Em Brecht o distanciamento alcança o conjunto da obra.
É um mecanismo de integridade pelo qual toda a obra
se mantém em movimento intencional ao se pôr
em questão, ao se mostrar como, simultaneamente, próxima
e distante. Discutir a atualidade da obra brechtiana é,
assim, uma exigência crítica dela mesma.
Pode-se dizer tudo desse alemão - e é bom que
seus detratores continuem seu servicinho sujo, de modo a que
nos dêem boas indicações de seus campos
de interesse - mas não há como recusar atenção
ao poeta que queria "tornar agradável a maneira
dialética de observar os acontecimentos". Porque
ninguém gostava tanto de uma boa contradição
como ele.
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APONTAMENTOS SOBRE FATZER
por Sérgio de Carvalho
É costume se referir
ao texto "O declínio do egoísta Johann
Fatzer", pelo seu nome de sugestão científica,
o "Fragmento Fatzer". De fato existe algo de radicalmente
experimental nesta peça da qual Brecht só publicou
um núcleo constituído de três partes e
um coro, em 1931. Nunca completado, o "Fragmento Fatzer"
se tornou uma espécie de referência necessária
quando o dramaturgo Heiner Müller apontou ali um sentido
modelar, não só para sua obra pessoal, como
para toda dramaturgia política do Século Vinte.
A nova edição do material, organizada por Müller
e traduzida por Christine Röhrig, reúne dezenas
de esboços desta obra-projeto, amplificando seu sentido
"laboratorial", já apontado por Brecht em
seu Diário de Trabalho, em fevereiro de 1939: "De
início se poderia estudar os fragmentos Fatzer e A
Padaria. Tecnicamente esses dois fragmentos são os
mais elevados modelos."
Escrito entre 27 e 29, época das peças didáticas,
talvez os exercícios mais vanguardistas do teatro moderno,
"Fatzer" reúne uma pesquisa dos ritmos da
crise da ordem burguesa e a procura de novas relações
estéticas com o espectador.
A incompletude não permite afirmar se Brecht pensou
"Fatzer" como uma peça didática, mas
os temas recorrentes nessa fase, como a "demolição
do heroísmo", atravessam o conjunto dos fragmentos.
A questão da "despersonalização
como escola de revolução" aparece na história
desses quatro soldados que fogem da guerra, escondem-se num
porão, e permanecem juntos enquanto um deles tenta
conseguir comida para o grupo. No núcleo da peça,
o passeio deste egoísta Johann Fatzer em busca de carne,
e seu fracasso ao se envolver numa briga com os açougueiros.
É espancado diante dos olhos dos amigos desertores,
que fingem não conhecê-lo.
A organização de Heiner Müller destaca
uma complexa dialética entre o individualismo de Fatzer
e o projeto coletivista de Koch. Fatzer é movido por
uma "vontade que só dá para o crime",
de tendências anarquistas. Repudia a aqueles que pretendem
que "todos sejam iguais". No lado de Koch, a busca
da disciplina partidária, da decisão a favor
do terror. Fatzer é um ponto geométrico, os
outros uma linha. Nenhum deles pode ter três dimensões
enquanto determinados pela fome, enquanto o teto foge sobre
suas cabeças, enquanto exilados da força da
massa. Como resposta ao embrutecimento, vemos a tentativa
vã de se constituir um tipo de soviete, em que "a
falta de união conduz o sistema ao voto da maioria".
Com "Fatzer" temos estilhaços de um belíssimo
e perturbador poema feito de história. Uma época
é lançada no papel, e sua materialidade transborda.
São expostos pedaços dos corpos destruídos
na Primeira Guerra Mundial. Distinguimos os rumores da tentativa
revolucionária abortada na Alemanha pela cisão
dos socialistas e pelo assassinato de Rosa Luxemburgo e Liebknecht.
Ouvimos algo das mentiras da social-democracia, e também
uma crítica àquilo que se mostrou depois como
erro histórico, a divisão permanente do movimento
trabalhista internacional em favor de um modelo de partido
de vanguarda leninista, feito de "revolucionários
profissionais".
Os grandes temas do Século Vinte, a guerra e o desemprego
entram em cena na ótica nítida de que esse estado
de coisas só prejudica os que estão embaixo.
"Com o nosso braço, nossa pessoa é combatida",
diz um verso de uma peça cuja ambigüidade não
esconde a certeza de que a modificação social
impõe a questão: "com quem se agrupar?"
Em "Fatzer" se formulam diferentes soluções
para o problema de como organizar a cena numa perspectiva
anti-burguesa. Na representação, ativa ou passiva,
do proletariado, surgem no palco os coros do "homem-massa",
cuja mecanicidade imposta pelo medo se reverte na força
cênica da esperança. Mas surgem também
os "tipos" populares mais vivos, de interesses desalienantes,
numa posição crítica entre o indivíduo
e o grupo.
Pelos "tipos" femininos da peça podemos contemplar
à distância o comportamento de seus "heróis".
É como se nos tempos de guerra, só as mulheres
estivessem vivas, pois nas fronteiras existem homens enterrados,
que não se distinguem do chão. Quando a Sra.
Kauman, a mulher por quem o marido não tem mais desejo,
é prostituída pelos quatro desertores, e se
torna objeto de uma discussão sobre a natureza da propriedade,
se individual ou coletiva, são os protagonistas do
debate que se transformam em objeto de nosso julgamento. Por
meio da situação delas se aponta a consciência
coletiva do sofrimento.
Nos fragmentos também utópicos de "Fatzer"
lê-se que a palavra proletariado já significou
um dia a esperança de que a vida pode viver. É
na busca da transformação do Estado em algo
conforme às necessidades da vida, que um dos coros
finais avalia a relação entre Fatzer e seus
amigos: "ao seduzi-los para aniquilá-los, ele
os aniquila - certo seria nunca perder a CONEXÃO COM
O AMANHÃ." Para além da fantasmagoria da
peça, a vida depende de uma luta histórica.
Sérgio de Carvalho é
dramaturgo e diretor da Companhia do Latão, professor
do Depto. de Artes Cênicas da Unicamp, e co-autor da
peça "Auto dos Bons Tratos".
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Berliner mostra a SP o
Hitler "popstar"
Por Nelson de Sá, Folha
de São Paulo, Ilustrada,10 de outubro de 1997.
O ator Martin Wuttke e o assistente de direção
Stephan Suschke falam à Folha dos novos rumos da companhia
de Brecht; hoje é o último dia do espetáculo
na cidade
Localizado a poucas quadras do que foi o
muro de Berlim, na Alemanha, o Berliner Ensemble, criado por
Bertolt Brecht em 49, foi a maior referência do teatro
político na segunda metade do século.
A queda do muro em 89 abriu uma crise de referências
no próprio grupo, bem como no mundo. A morte de Heiner
Müller em 95, remanescente do início brechtiano,
fechou de vez o ciclo.
O ator Martin Wuttke, 34, e o diretor-geral Stephan Suschke,
39, lideram hoje a companhia. Em entrevista, falam dos possíveis
novos caminhos para o teatro político e da montagem
de "A Resistível Ascensão de Arturo Ui",
que estreou dois anos atrás e é o maior sucesso
da companhia nos anos 90.
Escrita por Brecht (1898-1956) e dirigida por Müller
(1929-95), com Wuttke como protagonista e Suschke como assistente
de direção, "Arturo Ui" é uma
parábola da ascensão de Hitler, relacionado
a um gângster de Chicago.
A peça faz hoje às 20h, no teatro Sesc Anchieta,
a segunda e última apresentação em São
Paulo. É a primeira vez que o Berliner Ensemble se
apresenta no Brasil.
*
Folha - Vocês nasceram
na ex-Alemanha Oriental? E vocês se diriam socialistas,
ou verdes?
Martin Wuttke
- Eu sou alemão-ocidental e nunca fui membro de um
partido, nem serei. E dar a voz significa perder a voz. Como
na Alemanha o voto não é obrigatório,
eu não dou meu voto. (É um trocadilho de Wuttke:
"voz" e "voto", em alemão, são
expressos com o mesmo termo.)
Stephan Suschke - Eu também nunca fiz parte de partido,
nem pretendo. Evidentemente, trabalhando anos no Berliner,
eu me autodescreveria como tendo uma consciência de
esquerda. Mas a história dos últimos 50 anos
mostrou que as boas intenções, quando instrumentalizadas
por partido, acabam sufocadas, morrem.
Folha - "Arturo
Ui" é a peça de maior sucesso do Berliner
Ensemble depois da queda do muro. Ela reflete de alguma forma
as exigências da Alemanha reunificada?
Suschke - Talvez
o contrário, talvez seja um sucesso porque não
responde à situação atual.
Wuttke - O que a peça descreve não tem ligação
direta com os problemas da Alemanha reunificada. Mas há
dois aspectos da encenação que dizem respeito
à atualidade. Um é o efeito "popstar"
na política, que é mostrado permanentemente,
e o outro é que ela corresponde à sensação
generalizada, em toda parte, de que há uma relação
entre política e criminalidade.
Folha - A peça
apontaria assim a atualidade de Brecht?
Suschke - Na
Europa, até alguns anos atrás, poderia se pôr
em dúvida a atualidade de Brecht. Mas mesmo na Alemanha,
nos últimos tempos, as peças estão ganhando
atualidade, relevância bem maior. A sociedade se move
em ondas, em movimentos circulares, e as peças voltam
a ganhar atualidade na mesma medida em que a sociedade evolui.
E hoje os efeitos das montagens na Alemanha são de
uma espécie diferente. Alguns são políticos,
mas outros são efeitos que antes nem seriam imagináveis.
Folha - Vocês
já disseram que o Berliner precisa de uma redefinição
política, do que seria o teatro político depois
da queda do muro. Já têm hipóteses de
trabalho?
Wuttke - É
difícil dizer se eu já tenho uma redefinição
do teatro político. Basicamente, a questão é
se o teatro ainda pode assumir uma função, digamos,
revolucionária, ou se hoje o teatro tem que, forçosamente,
assumir um papel dentro do Estado, e portanto de sustentáculo
do Estado. Por exemplo, se o teatro tem o poder de se transformar
em advogado de determinadas pessoas privadas de sua liberdade,
ou se tem que renunciar a isso e assumir os próprios
privilégios, como o de poder viajar às custas
do Estado.
Folha - Um exemplo
oposto?
Wuttke - Uma
das tarefas políticas a que o teatro poderia se dedicar,
se ele se considerasse teatro político, seria encontrar
algo assim como o tão falado terceiro caminho. Depois
da queda do muro, tudo o que antes era rotulado de esquerda
entrou em descrédito na nova Alemanha unificada. Na
verdade, a queda do muro significou o triunfo de um poder.
O capitalismo venceu o socialismo, e com isso muitas das conquistas
do socialismo se perderam, tanto na área política
como na intelectual. E muitas forças intelectuais da
ex-Alemanha Ocidental também perderam o ímpeto.
Uma tarefa política possível, para um conjunto
como o Berliner Ensemble, seria descrever essa situação
política da Alemanha a partir de uma nova perspectiva.
Encontrar um novo ponto de vista político para descrever
a situação presente.
Folha - Suschke
diz que o efeito de distanciamento pode ser resumido dizendo
que os personagens bons, para serem interessantes, devem ter
aspectos positivos. Quais são os aspectos positivos
que você trabalhou no Arturo Ui?
Wuttke - Aspectos
positivos? (risos) É fácil. Arturo Ui é
um personagem fascinante. E o que eu busco mostrar nas apresentações
é que nós podemos e queremos segui-lo, porque
exerce um forte fascínio. É um bom "entertainer".
Suschke - É a grande diferença entre a política
e a Igreja Católica. (risos) Na Igreja, você
não precisa ser um bom "entertainer" para
ser líder. (risos) Na política é preciso
ser um bom "entertainer".
Wuttke - Na Igreja Católica, a encenação
já é muito forte. Os atores não precisam
ser tão bons.
Suschke - Por isso é uma especial alegria chegar ao
Brasil imediatamente depois do papa. (risos)
Folha - A cena
em que um ator ensina Arturo Ui a se comportar foi inspirada
num ator de Munique que ensinou Hitler. O que exatamente ele
ensinou a Hitler?
Wuttke - Não
há detalhes a respeito. O que existe são as
fotos de Hitler, em que assume diferentes poses. Mas não
se sabe como foi este, digamos, curso. O que a gente vê,
ao longo dos cinejornais nos quais ele aparece, é que
tinha uma linguagem corporal, com movimentos estilizados que
se repetiam, e que eu assumo na atuação. Para
mim foi importante verificar que o modo de Hitler se apresentar
diante do público era além de natural. Ele praticamente
não tinha uma forma natural de agir. Tudo o que vemos
dele é algo que criou para si mesmo. E ele se ocupava
permanentemente em verificar as impressões que causava
nos outros, com seu jeito de falar, sua atitude corporal.
Por exemplo, ao vestir um fraque, ao se movimentar em meio
a empresários.
Suschke - Ele tinha um conceito
de marketing de sua própria figura semelhante ao dos
"popstars". Podemos dizer que ele foi o primeiro
"popstar" do mundo.
Folha - Como
um ator tão artificial, ou tão antinaturalista,
conseguia tamanha identificação?
Wuttke
- Por que um personagem como Michael Jackson tem o efeito
que tem sobre o público, sendo que toda a sua movimentação,
sua aparência, é artificial? As pessoas realmente
choram, ficam comovidas. É justamente por causa da
sua artificialidade. Numa cerimônia de casamento numa
igreja, o que emociona as pessoas que assistem é a
formalização. É a antinaturalidade que
causa o efeito mais profundo sobre o público.
Suschke - É justamente o caráter estranho que
esses personagens têm que lhes dá uma espécie
de divindade. Hitler, a partir do momento em que ingressou
na política, se auto-elaborou como personagem. Ele
escreveu a sua autobiografia mudando detalhes do seu passado,
inclusive, depois, mandando matar pessoas que pudessem dar
testemunho contrário ao que tinha escrito. Ele foi
o artífice de sua própria figura. Aliás,
ele pretendeu ser um artista. Pena que não conseguiu
o ingresso na academia de artes de Viena. Ele amava Wagner,
e amava o conceito da obra de arte integral. E pode-se dizer
até que ele via a si mesmo como uma obra de arte integral.
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Das vantagens de usar
Brecht
Por Sérgio de Carvalho,
UOL, Trópico, 27 de fevereiro de 2004
Não é só
através do tema que "Dogville", filme do
diretor Lars von Triers se aproxima da obra de Bertolt Brecht.
De fato a canção "Jenny e os Piratas",
parte da Òpera de Três Vinténs inspira
o argumento do filme, cedendo-lhe a imagem de uma moça
explorada e a de uma vingança de aniquilação,
em que toda a cidade deve ser morta. Mas o parentesco de assunto
é distante, comparável ao da releitura feita
por Chico Buarque em sua "Geni e o Zepellin". São
casos em que o assunto brechtiano serve a outros propósitos.
Em "Dogville", ao contrário do que se tem
dito, o que está em jogo não é uma imagem
dos Estados Unidos da América, e sim a representação
americana do mundo, ao menos como consagrada por Hollywood,
e que corresponde a uma reelaboração dos padrões
do drama burguês europeu do século 19, em sua
hipertrofia do individualismo moralizante.
Para que não haja dúvidas sobre o núcleo
do debate, somos introduzidos no filme pela personagem Tom,
um jovem idealista com pretensões filosóficas
que organiza na paróquia de sua pequena cidade uma
série de reuniões sobre "reforço
moral". Quando aparece no seu caminho uma fugitiva à
procura de ajuda, chamada Graça, ele encontra a "ilustração"
adequada para seu discurso. Na tensão crescente entre
a representação moralizadora desejada por ele
e a realidade vivida, as nove partes de "Dogville"
mostram a evolução da exploração
consentida de Graça, num processo em que ela tenta
levar adiante o plano de integração social de
Tom até o limite da dor: oferece sua ajuda aos habitantes,
torna-se geradora de coisas supérfluas, passa a ser
disputada como mão-de-obra barata, até que sua
vida se torna tão cara que lhe resta entregar o corpo
como última moeda de troca. Seu vínculo idealista
com Tom a mantém presa às relações
perversas, fetichizadas por ela própria nas sete estatuetas
(correspondentes às sete casas da cidade) que coleciona,
que mais tarde serão destruídas junto com sua
liberdade física.
A pergunta crítica de Dogville aparece no penúltimo
ato: "Não vale a pena comprometer somente um dos
seus ideais, só um pouco, para aliviar a minha dor?"
Seu sentido - que depende de quem a pronuncia, em que momento
- volta a ressoar no massacre final, em a violência
repugnante das mortes põe em dúvida qualquer
possível prazer com a vingança.
Mais do que pelo assunto, "Dogville" se apropria
da técnica de "distanciamento" do Teatro
Épico pelo modo de narrar, ao nos estimular a sair
da ficção do filme, e completar suas indicações
com a realidade, procedimento que se vê no perturbador
corte para as fotografias dos créditos, em que a miséria
sem paternalismo das fotos de Jacob Holdt é contraposta
à música de ritmo alegre de David Bowie.
Brecht também se interessava pelo imaginário
norte-americano, pelos gângsters de Chicago e pelas
lutas de boxe, porque reconhecia ali um limiar simbólico
em que a ética e a estética capitalistas conjugam
o novo e o arcaico. Essa paisagem moderna de truculência
e vitalidade surgia despedaçada em sua poética
para que sua conformação ideológica ficasse
visível. Foi por isso que fez de seu teatro uma espécie
de armadilha moral, de tribunal impossível, que desconcertava
a expectativa de identificação ou de repúdio
ao caráter das personagens, de comoção
com as paixões dos protagonistas. Sua estratégia
era sugerir perguntas morais impossíveis de serem respondidas
sem uma maior reflexão sócio-política.
Criava no espectador o sentimento da ausência, de que
faltava alguma coisa ao qual estava habituado. E o que faltava
era a praticabilidade de certos ideais burgueses.
A qualidade cinematográfica de Dogville deve muito
ao fato de que o paradoxo moral gerado no plano da fábula
- através de uma redução ao absurdo da
lógica da situação - aparece como problema
estético na encenação cinematográfica.
De certo modo, o "sistema" de Tom é um análogo
do sistema de filmagem exibido por Triers dentro do filme.
Aquilo que aparece, como assunto, na imagem do "cego
que não quer ver" e decide permanecer de cortinas
fechadas idealizando uma luz imaginária, encontra correspondência
formal na tensão entre o naturalismo das atuações
e da câmera (que procuram uma dramaticidade convencional)
e o anti-naturalismo do cenário pintado no chão,
reforçado pela narração e construção
poética das falas. A incompatibilidade de registros,
vai e vém entre um idealismo dramático e o materialidade
dos espaços torna a cena descontínua, quebrada
e permite que os extremos sejam tocados: no máximo
da vitimização pelo estupro, a câmera
se distancia e revela a artificialidade da composição
dos atores diante do espaço, suspendendo a comoção.
Triers nos leva a suspeitar de vários aspectos do filme,
incluindo a utilização de uma estrela consagrada.
Estabelece-se um jogo cênico auto-crítico, com
regras mais ou menos expostas, aparentado àquele que
Paulo Emílio percebeu no filme "A "A Chinesa",
de Godard, quando escreveu que "o moderno espetáculo
teatral nos obriga cada vez mais a refletir sobre sua natureza,
pois deliberadamente se desagrega diante de nossos olhos.
O teatro não pretende mais enganar ninguém.
É através do desengano que procura nos atingir."
A técnica épica da incompletude fundamental
- que nada tem a ver com precariedade artística, mas
sim com capacidade de mobilizar a atuação crítica
do público - ainda é um osso duro de roer para
a crítica conservadora, que sempre reage aos gritos
reclamando a "complexidade" das personagens, ou
acusando a natureza esquemática da montagem. Como pensador
dialético, Brecht dizia que uma obra de arte dura o
tempo em que exige trabalho, existe enquanto está para
ruir, enquanto requer a co-fabulação do espectador.
Dogville deve ser comemorado como uma retomada da experimentação
formal, como abertura do olhar cinematográfico ao que
está fora do campo visível, como utilização
do conceito de ensaio no seu sentido amplo de reflexão
coletiva. Talvez explicativo demais em algumas de suas intenções,
talvez íntimo demais dos valores que nega, supera qualquer
defeito ao estimular o espectador a uma atitude produtiva.
Numa época em que o maior protagonista do cinema comercial
é o virtuosismo técnico do orçamento,
Dogville se serve da tecnologia para pôr o ato de produzir
em primeiro plano, à frente dos meios de produção.
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Sérgio foi uma
das atrações do Curto Circuito de Idéias
Por Rose Silveira, caderno
D, Jornal Diário do Pará, 17 de junho de 2004.
O dramaturgo Sérgio de Carvalho, diretor da Companhia
do Latão (SP), uma das mais importantes do País,
esteve em Belém, ministrando a oficina 'Dramaturgia
Épica' para escritores e dramaturgos, e participando
do projeto Curto Circuito de Idéias. Ele fala do modelo
de dramaturgia de Brecht e dos novos trabalhos da Companhia
do Latão
O que o modelo de dramaturgia de
Brecht tem a oferecer como reflexão à contemporaneidade
e, claro, à dramaturgia de hoje?
Em primeiro lugar, a possibilidade
de continuar a pensar na função da arte. E que
essa função pode ser, inclusive, colaborar com
a ativação revolucionária num tempo em
que isso não está no horizonte próximo
e em que o capitalismo assume caras novas e terríveis.
Brecht continua sendo um grande modelo para arte que tenta
se opor ao imaginário dominante e que procura combater
o totalitarismo da forma-mercadoria.
O que significou o advento do teatro
épico de Brecht para a dramaturgia do século
20?
Brecht desenvolveu seu conceito de
teatro épico no final da década de 1920 a partir
de um movimento histórico iniciado décadas antes,
o Naturalismo. O escritor Émile Zola já exigia
da arte do teatro a mesma complexidade do romance, a liberdade
de ir e vir no tempo, de transitar entre o particular e o
geral. A chamada 'fatia de vida' já lançava
suspeita sobre os heróis positivos. O que Brecht fez
foi propor uma negação mais radical da forma
dramática, opondo-se à sua ideologia individualista:
para ele, o palco não deveria só mostrar a vida
no mundo capitalista, mas narrá-la como transformável.
Isto só é possível se a cena assume que
toda representação contém um ponto de
vista sobre a realidade. Só é possível
se houver uma desmontagem da heroificação e
do moralismo, das ideologias impostas a quem não tem
condições práticas de exercê-las,
de tudo aquilo que se identifica com a visão de mundo
das classes dominantes.
Quais são os principais elementos
do teatro épico?
Talvez o principal aspecto da forma
épica seja a historicização dos acontecimentos.
Nada pode ser visto como natural, irremediável. Não
se procura mostrar a vida como é, mas como não
deveria ter se tornado. Não se busca causar compaixão
pelos oprimidos ou ódio aos opressores, mas lançar
espanto crítico sobre o processo da exploração,
sobre o motivo de certos acontecimentos. O realismo épico
trabalha com a suspeita, com a dúvida científica,
com a desconfiança em relação a um mundo
que não é o melhor dos possíveis. Seu
método clássico, extraído do materialismo
dialético, é o jogo das contradições.
O público é quem realiza o sentido da cena ao
pensar sobre os subterrâneos dos fatos observados, ao
estabelecer o vínculo interrogativo entre uma história
que se mostra incompleta e suas causas sociais e econômicas.
Na sua opinião, o teatro
didático de Brecht alcançou seu ideal, ao combater
o teatro ilusionista e levar o público a uma reflexão
política, de provocar uma transformação
na sociedade?
O chamado teatro didático corresponde
a uma das tentativas mais experimentais de Brecht, na Alemanha
do final dos anos 20, quando escreveu peças de aprendizado
para operários e artistas amadores. Importava mais
o estudo de quem ensaia a peça do que a apresentação
ao público. São textos radicais como forma estética:
neles se concretiza o próprio tema, a coletivização
do trabalho social. Nas peças didáticas existe
um anti-ilusionismo levado às últimas conseqüências.
São jogos artísticos propostos por alguém
que chegava ao ponto de desconfiar das próprias ideologias
de transformação da realidade quando distanciadas
de práticas coletivas. Brecht sabia que a boa reflexão
anticapitalista exige um enorme senso de realidade, aquilo
que chamou de sexto sentido para a história.
Como tem sido apresentar o espetáculo
'A comédia do trabalho', de Brecht, em um Brasil de
20,6% de índice de desemprego?
Os atores da Companhia do Latão
dizem que A Comédia do Trabalho é uma tragédia
disfarçada de farsa. O tema da peça é
a notável capacidade do capitalismo atual de desorganizar
e fragmentar a contestação, ao impor aos trabalhadores
a maldição: 'No mundo da mercadoria, a pior
coisa é não ser mercadoria'. Não fazemos
denúncia sobre o que todos já sabem, mas tentamos
provocar um espanto realista através do absurdo, fazendo
um curto-circuito com os termos da frase: este mundo para
quem sente é uma tragédia, para quem pensa é
uma comédia.
Comente sobre 'Brigadas do Teatro
Dialético', que foi recentemente aprovado pela Secretaria
Municipal de Cultura de São Paulo. É um novo
processo de criação da companhia?
A Companhia do Latão foi um
dos grupos vencedores do edital de Fomento ao Teatro para
a cidade de São Paulo deste ano com um projeto que
prevê o estudo de Machado de Assis, o lançamento
de um livro com as peças do grupo e uma série
de oficinas artísticas junto a movimentos como o MST,
a CUT e a UNE. A intenção do trabalho com Machado
de Assis é compreender seu método narrativo,
sua ironia e violência, sua capacidade de mostrar que
os problemas brasileiros decorrem dos mundiais. Vamos tentar
fazer um espetáculo em que o público desconfie
da narração. Os espectadores não estão
acostumados a desconfiar do que vêem.
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Langhoff defende o teatro do escândalo
Por Sérgio de Carvalho,
Folha de São Paulo, Ilustrada, 20 de outubro de 1997.
Não fosse a estranha beleza
do espetáculo "Île du Salut", o diretor
teatral Matthias Langhoff passaria quase despercebido no "Rio
Cena Contemporânea".
Langhoff é um dos mais importantes diretores teatrais
da atualidade. Dentre aqueles que iniciaram seu trabalho a
partir do contato com a obra do dramaturgo alemão Bertolt
Brecht (1898-1956) é, quem sabe, o melhor.
Com 56 anos, nascido em Zurique (Suíça) e há
dois anos naturalizado francês, parece realizar sua
obra teatral de acordo com aquela idéia brechtiana
de que devemos olhar o estrangeiro como se fosse conhecido
e o homem conhecido como se fosse estrangeiro.
Não é à toa seu interesse atual pelo
escritor Franz Kafka. "Île du Salut" é
uma adaptação livre do conto "Na Colônia
Penal", de um autor tcheco que escrevia em alemão.
No centro do palco, em meio à luminosa cenografia de
uma ilha tropical, a máquina da morte. Tudo é
estranho e habitual, violento e grotesco.
Dos encenadores políticos deste final de século,
Langhoff é o de maior impacto crítico e visual.
Seu olhar é sempre concreto. É um materialista
radical. Nesta entrevista exclusiva à Folha, ele defende
um teatro de escândalo e critica o atual Berliner Ensemble,
grupo fundado por Brecht, no qual realizou sua formação.
*
Folha - Você é um
diretor polêmico na França. Seus últimos
espetáculos _como "Filoctetes" (94) e "Ricardo
3º" (95)_ despertaram indignação pelo
fato de utilizarem atores que não falavam bem o francês.
Isso é deliberado?
Matthias Langhoff
- O idioma francês é muito bonito, melódico,
mas tende a ser prolixo e abstrato. Eu acredito que os estrangeiros
que utilizam o francês tornam a língua muito
mais cheia de vida, mais real, mais concreta. O pensamento
estrangeiro é muito mais concreto.
Folha -
Além disso, você confronta um padrão da
cultura teatral francesa, o bem falar.
Langhoff -
E eu trabalho no sentido de fazer parar esse bem falar. Na
França, quando você é ator, você
tem de perder todo o seu sotaque natural. É absolutamente
proibido alguém falar de modo natural. E a variedade
de sotaques no país é muito mais rica do que
a dessa língua literária. Mas essa não
é a principal resistência ao meu teatro.
Folha
- E qual é?
Langhoff
- É quanto ao fato de ele ser mais político
e ter menos teoria e menos construções abstratas
do que o normal da tradição francesa. Tudo isso
gera confronto com o público.
Folha
- Mas esse confronto não é uma matéria-prima
do seu trabalho?
Langhoff -
Com certeza. Eu falo de um teatro com a função
de organizar o escândalo público, no sentido
de um verdadeiro pensamento de resistência contra os
hábitos existentes. O teatro me parece ser o lugar
para organizar este escândalo.
Folha -
Brecht voltou a Berlim depois do exílio, em 1949. Ele
veio para uma montagem num teatro dirigido, curiosamente,
pelo seu pai, o ator Wolfgang Langhoff. Você, apesar
da pouca idade, tem lembranças desse período?
Langhoff -
Eu me lembro muito bem. Talvez bem até demais. Foi
a minha escola de vida mais forte. Tudo o que eu penso hoje
está ligado a esse momento, depois da guerra. Digo
isso sem nostalgia.
Tive que aprender sobre as relações entre as
pessoas numa cidade destruída, numa atmosfera de enorme
violência. Sempre ligado à necessidade de construir
verdadeiramente um mundo novo. Com todas as contradições.
Folha -
E quanto aos artistas da época?
Langhoff -
Tenho lembranças bem precisas de gente como Brecht,
Eisler. Gente que voltava para vir se fechar numa grandiosa
utopia. Trabalhavam como loucos. Todas as noites estavam juntos
discutindo como construir uma outra Alemanha.
Folha -
Você, após ter deixado o Berliner Ensemble, na
década de 60, só voltou em 92 para a "intendência
coletiva" do grupo. Por que esse colegiado _com Heiner
Müller, Peter Zadek e outros_ não deu certo?
Langhoff -
Para mim, não foi suportável encontrar o sistema
teatral depois da reunificação. Pensei que Berlim
fosse voltar a ser uma vila multicultural, mas era ilusão.
A primeira reação depois da queda do muro foi:
"nós somos alemães apenas entre nós".
Fiquei triste de deixar Heiner Müller, meu amigo, mas
eu já era estrangeiro demais. Não podia ficar
ali.
Folha
- Você chegou ao Brasil uma semana depois da passagem
do Berliner Ensemble. O que pensa do trabalho atual do grupo?
Langhoff -
Eu poderia dizer, com todo o respeito, que o Berliner está
totalmente acabado. As pessoas que trabalham lá querem
apenas fazer negócios no mundo do teatro.
Fizeram esse espetáculo com Heiner Müller -"Arturo
Ui"- que mesmo tendo alguns problemas é muito
forte, onde Müller mostra um possível modo de
se ler Brecht.
Mas ele jamais pôs Brecht de lado. Ele continua com
as idéias de Brecht. O Berliner de Brecht -com toda
a sua força e até com sua fraqueza- era um teatro
para o qual a idéia de transformação
do mundo era verdadeira. Como uma pequena empresa capitalista,
é ainda mais absurdo do que os outros.
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Nota sobre Bertolt Brecht
Por Sérgio de Carvalho,
texto escrito para o Jornal do MST, janeiro de 2001.
Bertolt Brecht (1898-1956) escreveu
os mais belos poemas da luta de classes. Assim como Marx deu
pela primeira vez uma base científica ao socialismo,
Brecht foi o homem que deu caminhos para que a arte moderna
se renovasse através do marxismo. Pode-se dizer que
a beleza de sua obra se liga à utilidade dela.
Num de seus escritos teóricos, disse que "ninguém
pode se pôr acima das lutas sociais, porque ninguém
pode se pôr acima da humanidade". Era por isso
que uma das diversões de Brecht era satirizar os heróis,
e o culto aos heróis. Nas suas peças de teatro,
não existe nenhum indivíduo heróico,
destes que ultrapassam o seu tempo e a sua gente. Comportamento
heróico, para ele, é o dos velhos, mulheres,
jovens e crianças que, apesar de tudo e contra tudo,
se reúnem e decidem lutar por uma causa justa. Numa
bela passagem, ele escreveu: "a decisão de se
libertar, por pior que seja a situação, exige
por parte da massa que se decide ao levante, um esforço
idêntico ao que uma nova visão do universo exige
do cientista."
Nas quase 40 peças de Brecht, os tradicionais "heróis"
do teatro burguês, os ricos proprietários, são
sempre mostrados como gângsters, como bandidos do pior
tipo. Mesmo quando a culpa os atormenta, são impelidos
ao crime, não por um vício de caráter,
mas pela necessidade de continuar a acumular dinheiro. "Assaltar
um banco não é nada comparado a fundar um banco",
diz a famosa frase da Ópera de três vinténs.
Mas a contradição que lhes torna vivos é
a seguinte: são capitalistas que pregam a boa-vontade,
a paz e a solidariedade entre os homens. O curioso é
que a exigência moral é sempre com os outros,
sobretudo com os pobres, a quem é preciso apaziguar
e encobrir a violência real do capitalismo.
Se hoje Brecht continua um escritor tão útil,
um dos motivos é que, para nós, ainda é
urgente revelar as ambivalências da elite, seu jogo
de sentimentalismo, de familiaridade, que tenta nos fazer
acreditar que a divisão de classes não existe.
Esse é o principal ardil de proprietários duas
caras que confundem valores morais, impõem um imaginário
de cordialidade e manipulam a justiça para que só
a lógica do capital tenha direito à existência.
Um poema da peça A Exceção e a Regra
sugere o objetivo reto da conduta sinuosa : "Sobre a
cova do homem justo assassinado, é preciso ainda assassinar
o seu direito."
As personagens populares das peças de Brecht, por outro
lado, também não são "heróicas".
Isso seria idealizá-las, repetir os padrões
do individualismo burguês. É claro que o ponto
de vista delas é muito mais complexo do que o das personagens
da elite, porque elas querem a transformação
real de toda a sociedade e não o progresso para poucos.
Mas Brecht não esconde as contradições
daqueles homens do povo que adotam, como se fossem suas, as
ilusões burguesas: patética é a moça
que acredita ser possível participar do banquete do
fazendeiro, sem que lhe seja cobrado nada em troca; triste
é tanto o camponês que sonha em agir como um
patrão, como o que prefere continuar achando que a
miséria da vida é assim mesmo, inevitável
como a chuva que cai.
Contra ilusões como essas, impostas pela dominação,
Brecht imaginou peças que são alegres lições
sobre o funcionamento da sociedade. O aprendizado contido
nelas é tanto mais forte, quanto mais alegria e inteligência
elas proporcionam. Sua virtude como artista de esquerda, foi
não confiar na verdade das idéias, mas na verdade
da atitude. Seu teatro pede que o olho do espectador não
contemple imagens prontas, mas produza novas. Não pede
a concordância com nenhuma idéia, mas sim que
nos perguntemos, tal e qual o cientista que estuda uma época
antiga, sobre os motivos reais da história. Sua poesia
é uma celebração da luta, como no seguinte
verso: "Nós que preparamos o terreno para a amizade,
não temos podido ser amigáveis."
Arte rigorosamente dialética, que nos lança
para o contrário das coisas, e reproduz do marxismo
seus princípios básicos: o exame das contradições
internas do capitalismo, e a ativação da luta
de classes. Num de seus escritos, Brecht nos adverte: "Não
resolve saber que o capitalismo não consegue pôr
em ordem seus negócios, se ele continua a ser capaz
de manter as massas em desordem."
Não como um ideal, mas como uma realidade em movimento,
a revolução poética de Brecht é
o grande modelo do século vinte para os artistas de
esquerda. A história da arte dialética, assim
como a do socialismo, está só no começo.
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O dia posto em cena
Por Sérgio de Carvalho,
Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 08 de fevereiro
de1998
Autor de "Galileu" não
se opunha ao envolvimento emotivo, mas ao ilusionismo
Nesses tempos em que, na vida cultural,
uma boa circulação é tudo, em que a liquidez
é o grande bem da época - foram-se os dias em
que o valor das coisas era proporcional ao trabalho socialmente
necessário que nelas se aplicava, Brecht tem sido muito
aproveitado por seu valor de troca. É convertido em
cenas festivas de um tropicalismo epigonal (que disfarça
seu narcisismo com imagens impositivas de uma felicidade possível,
antes confusionista e desnorteadora do que redentora).
É elevado por suas conquistas técnicas e poéticas,
de inegável vanguardismo, em detrimento de sua visão
política, que dizem ultrapassada, como se essas coisas
pudessem ser separadas. É ainda idolatrado pelos guardiões
do brechtismo, que se tornaram ideológicos ao pregar
verdades agora sem crédito diante da experiência
da sociedade contemporânea no estágio atual do
capitalismo.
O que mantém viva uma obra teatral como a de Brecht
é o uso que dela se faz no diálogo com o público
de hoje.
Brecht não se opunha ao envolvimento emotivo, mas ao
ideal de captura ilusionista, que pede atmosferas dramáticas,
anulação do espectador em meio ao ambiente escuro
da sala, sacralização do ato teatral, apagamento
do caráter coletivo e instável do público.
A história mostrou que sua opção por
um envolvimento cênico às claras, sem ilusões,
por meio do jogo de desengano (que Brecht aprende dos encenadores
russos, sobretudo Meyerhold), foi também uma afirmação
da teatralidade num tempo em que o cinema se tornava melhor
ilusionista do que o palco ao narrar de um indivíduo
(a câmera) para outro indivíduo (o espectador).
O teatro tem o grave problema de mostrar gente em cena. Nele
é difícil preservar essa grande conquista burguesa,
a individualidade. O maldito do ator tem olhos para nos enxergar
também. Por isso Brecht pedia mais luz sobre o palco.
Queria o próprio dia em cena.
Mas o que fazer quando o sentimento da época é
noturno? Quando à noite, hora em que vamos ao teatro,
estamos tão em desordem quanto a cidade em que vivemos?
E a vontade de distração se tornou vontade de
ganhar algum esquecimento e interesse pelo mundo?
A resposta é incerta, mas o "assombro dos entorpecidos"
é pouco.
O teatro brechtiano transmite sobretudo o gosto pela inteligibilidade.
Baseia-se ainda numa distinção clássica
entre sujeito e objeto do conhecimento. O que deve ser iluminado
é a contraposição entre um e outro. É
um teatro de separação de elementos.
Como seu pressuposto é que o trabalho não é
uma condenação pós-paradisíaca,
mas sim a principal fonte de felicidade humana toda vez que
se bem partilha dos seus frutos, a construção
da cena exige também uma colaboração
do público, de ordem crítica e imaginária.
Os homens se sentem bem quando trabalham por uma obra sabendo
de sua finalidade. A cena brechtiana não abandona a
tradição do teatro como lugar de representação.
Não se recusa às construções de
brinquedo, às ninharias, à banalidade ou ao
impulso mimético mais ordinário, nem à
felicidade de um mundo copiado, e assim melhor compreendido,
que sempre animou a arte quando ela prestou para alguma coisa.
Se a produção é fonte de felicidade (e
isso não depende, em termos brechtianos, só
da maneira como eu me comporto, mas também da maneira
com que os outros se comportam, e por isso "interessa
também a possibilidade de influir sobre os demais"),
os sentidos não podem ficar inertes diante do fenômeno
teatral. O olhar para o palco deve ser ativo, discriminador,
comparativo. A beleza da cena não surge para provocar
encantamento ou fascinação, mas sim para "dar
aos sentidos a oportunidade de se mostrarem hábeis".
É assim que o olho produz. A medida interessada do
prazer artístico é dada pela instrumentalização
da consciência e dos sentidos. Bonito é aquilo
que ajuda a melhorar a vida humana coletiva. E o teatro pode
ajudar a desenvolver a intuição para a história.
Brecht pretendeu construir um teatro que fosse uma imagem
praticável do mundo. Um modelo de compreensão
das relações humanas em sociedade. Interessava-se
por muitas formas de ação, especialmente as
negativas: como as pessoas se enganam, se exploram, se mutilam,
se odeiam. A certa altura da vida, comparou sua dramaturgia
a um planetário, por meio do qual o público
poderia compreender, com a tranquilidade de quem está
parado, observando, o movimento das personagens. Para minimizar
a aversão à sua abordagem científica,
despertada especialmente nos cultores da arte absoluta, ele
escolheu essa imagem de serenidade celestial. Só que
o céu estrelado do planetário está ali
para ensinar que os movimentos dos astros obedecem a leis.
Complexas, variáveis, mas compreensíveis. Para
quem diz que no caso das pessoas em sociedade é diferente,
Brecht responderia: "Do ponto de vista de uma bola, no
meio de um jogo qualquer, as leis do movimento também
são praticamente inconcebíveis". Por isso
ele gostava de relatos históricos e sentimentais de
desastres, de grandes atos confusos, ocorridos não
por má influência do destino, mas por falhas
evitáveis de gente desastrada ou mal intencionada.
Os acontecimentos humanos têm antecedentes históricos,
contexto de classe, circunstâncias de tempo e espaço.
Desenvolvem-se segundo trajetórias descontínuas
e inconstantes, que podem ser acompanhadas. O céu de
Galileu não é menos ou mais poético do
que qualquer outro. A arte não se opõe ao mistério,
mas pode combater a mistificação.
O mais discutido dos conceitos brechtianos _o de distanciamento_
é o que pede maior revisão. Muita gente que
trabalha com o "efeito de distanciamento" se esquece
de sua ligação íntima com a tradição
cômica. Considerado apenas como técnica, é
coisa muita antiga, presente em qualquer triangulação
de comediante popular. Aparece, por exemplo, quando uma mulher
de camisola observa todo o esforço do seu marido ao
entrar de madrugada em casa sem fazer barulho, na volta culpada
da farra. E essa suspensão inusitada de um objeto do
olhar pode ser feita por muitos elementos do espetáculo,
além dos atores: iluminação, música,
legenda.
O distanciamento pretende recuperar a curiosidade por intermédio
do espanto, etapa fundamental do senso crítico. Se
considerarmos correta a hipótese de Bergson sobre a
origem do riso, pela qual a comicidade se gera quando notamos
um comportamento mecânico de um ponto de vista mais
vivo, o distanciamento também pode ser definido como
uma reorganização do olhar para que ele desvende
automatismos. O que só é possível de
um ponto de vista mais flexível, próximo da
experiência comum da vida. Brecht dizia a seus atores
durante a leitura das peças para sempre se perguntarem
como uma pessoa simples compreenderia aquela cena. Entendia
o humor como um sentimento de distância, como uma conquista
da objetividade.
O distanciamento brechtiano não é, contudo,
apenas uma técnica cômica, tal como é
hoje utilizado pela publicidade. Assim como grande parte do
riso pede uma visão moral (os tipos cômicos têm
graça porque reprovamos suas obsessões, que
eles juram ser inexistentes), o efeito de distanciamento é
uma técnica de prazer em bases morais. Retira-nos de
nossa posição individual e nos lança
na moral de um grupo, de uma classe social. Em Brecht a mecanicidade
e os automatismos criticados ainda são os da sociedade
burguesa tradicional, hoje quase extinta. O problema atual
do distanciamento não é de ordem técnica,
mas moral.
Mais do que um grande autor a ser encenado, Brecht é
um modelo para a produção dramatúrgica
brasileira. Sua agradabilidade na apresentação
dos conflitos, sua manutenção das "conquistas
do classicismo do espírito dialético",
sua ironia elegante e violenta, sua proximidade dos artistas
do palco são parâmetros para que se dê
uma síntese entre nossas tradições mais
fortes: de um lado o realismo psicológico que, apesar
da boa vontade social, nunca se desapegou da dependência
à dramática rigorosa que o circunscreve a problemas
emparedados; de outro lado, a cena das alegorias, mais próximas
das formas teatrais populares, porém dispersas em resíduos
retóricos barrocos que não fazem muito mais
do que repisar a "idéia fixa latino-americana
da imagem".
A obra de Brecht aponta para uma síntese. Entre o fragmento
e a história, entre o olhar estrangeiro e o olhar conhecido,
entre os inesperados diálogos e os grandes interesses,
suas peças são a principal referência
do século quanto a uma unidade possível entre
o realismo e a poesia.
Sérgio
de Carvalho é diretor teatral da Companhia do Latão
e prepara a encenação de "Santa Joana dos
Matadouros", de Brecht, em São Paulo
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.
O Tao do marxismo
Por Sérgio de Carvalho, Folha
de São Paulo,Caderno Mais!, 27 de fevereiro de 2000
Em seu novo livro, Fredric Jameson desvenda
as bases poéticas e históricas da dialética
de Brecht
Certos pensamentos são como os burocratas
-teriam que possibilitar a produção, mas, ao
invés disso, eles a dificultam. Essa observação
de Brecht se refere a tudo o que "O Método Brecht",
de Fredric Jameson, não faz -não se serve de
generalidades, não proclama empecilhos, não
foge do problema, não hiperestima o estágio
atual do capitalismo.
É um trabalho realmente útil porque consegue
dar respostas afirmativas à pergunta sobre a utilidade
contemporânea de Brecht (1898-1956) e sobretudo porque
desmascara um certo comportamento paralisante da crítica
de arte atual, presente tanto na despolitização
diversiforme dos pós-modernistas multiculturalistas
(que, no fundo, escrevem a serviço de uma visão
política) como também presente no rigorismo
de outros críticos mais lúcidos, que, no compasso
da dialética negativa, parecem andar mais interessados
no tema do esvaziamento da esquerda do que em realizar a passagem
disso para o projeto de um caminho possível para uma
sociedade melhor.
Operação concreta.
O ensaio de Jameson é útil porque examina o
procedimento artístico de Brecht do ponto de vista
de sua praticabilidade. Filia-se assim ao melhor da tradição
crítica brechtiana, não a dos parafraseadores
de aspectos isolados, mas a daqueles que tentam reconhecer
na obra do poeta alemão um grande processo -o que Jameson
chama de "método"- , em que cada ato artístico
é uma operação concreta que se dá
em relação de interlocução momentânea
e projetiva e sem que a análise deixe de assumir que
ela própria também se inscreve num momento histórico.
Foi nesse sentido que Walter Benjamin desenvolveu o conceito
de "produtor" e que Bernard Dort falou em um "sistema"
e que José Antonio Pasta Jr. discutiu a classicidade
antiburguesa de Brecht como um "trabalho", operação
em que teoria e prática se sintetizam, num estudo,
diga-se de passagem, excelente e que chega a observações
muito semelhantes às de Fredric Jameson. O "método"
brechtiano não se desenvolve, portanto, do lado de
fora da obra, mas sim a organizando e sendo organizado pela
materialidade dinâmica da dramaturgia, dos escritos
teóricos e da atitude artística em relação
aos meios de produção. Numa passagem, Jameson
compara o "método" a um manual de mecânica
popular, imagem que sugere tanto o antiformalismo dos procedimentos
como seu intuito de uma pedagogia destinada a produtores (e
não a consumidores) que concebe os espectadores como
"atores" no sentido mais original do termo.
O mais inesperado, no entanto, é o modo como apresenta
o específico da dialética brechtiana, que, sem
abrir mão das categorias tradicionais do materialismo
histórico, parece ser movida por uma espécie
de "metafísica" chinesa, resultando num "Tao
marxista" que atua a partir de contradições
não só históricas, mas poéticas,
em que o primado do social e do compromisso político
se sintetiza em uma ética produtiva.
Com fragmentos do "Me-Ti/Livro das Reviravoltas",
de Brecht, Fredric Jameson demonstra a "operação"
brechtiana em três planos: na linguagem, nos modelos
narrativos e no modo de pensamento. Estuda o provérbio
como padrão de linguagem, entendido como forma portadora
da luta de classe, como síntese de experiência
dos explorados, visão próxima à dos modos
de produção agrários, a que Brecht conjugará
os ritmos de tecnologias modernas, como o rádio. Estuda
também o gosto brechtiano pelas formas narrativas que
exigem juízos sobre contradições, como
a parábola e o "caso" jurídico, concebidas
como "gestus" na medida em que concretizam processos
sociais característicos. Jameson estuda, em última
instância, uma doutrina do estranhamento possibilitadora
de uma práxis.
Olhar revitalizador
Para quem tomou ao pé da letra a opinião de
que o "estranhamento" brechtiano perdeu a eficácia
nas atuais circunstâncias históricas porque seu
alinhamento automático com o socialismo se tornou ideologia,
Jameson propõe um olhar revitalizador. O estranhamento,
como técnica de objetualização das formas,
é des-objetualizador quando instaura um processo de
aprendizagem da história, quando propicia a intervenção
conceitual nos acontecimentos.
O crucial desse processo não é oferecer uma
teoria positiva das consequências (o melhor do teatro
brechtiano está no desvendamento cômico do que
não devia ser essa sociedade), mas é sobretudo
não evitá-las. Evitar as consequências
transformadoras é que se constitui em ideologia.
E sem uma meta -que continua a ser a construção
do socialismo_ o "método" Brecht não
faz sentido, e a arte política está confinada
à moralidade e ao desespero. Numa época em que
a atividade consequente não está na ordem do
dia e "o destino parece novamente desconectado da história",
a ativação brechtiana propõe a retomada
de um trabalho coletivo, no mínimo o de superar a "idéia
de uma situação global que não pode ser
mudada".
Sérgio de Carvalho
é professor de literatura dramática no departamento
de artes cênicas da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) e diretor do grupo teatral Companhia do Latão.
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Propostas Brechtianas para um
teatro no Centro de São Paulo.
1. Refutação do confusionismo.
O que mantém viva um obra teatral
como a de Brecht é o uso que dela se faz, ainda que
se trate de abuso. No Brasil, ocorre vitalização
mais ridícula, bem visível nesta época
de foguetório de centenário : menos se usa Brecht
do que se tenta aproveitar seu valor de troca. Nesses tempos
em que, na vida cultural, uma boa circulação
é tudo, em que a liquidez é o grande bem da
época - foram-se os tempos em que o valor das coisas
era proporcional ao trabalho socialmente necessário
que nelas se aplicava - Brecht tem sido matéria de
troca esquisita. É convertido em cenas festivas de
um tropicalismo epigonal (que disfarça seu narcisismo
com imagens impositivas de uma felicidade possível,
antes confusionista e desnorteadora do que redentora). É
elevado por suas conquistas técnicas e poéticas,
de inegável vanguardismo, em detrimento de sua visão
política, que dizem ultrapassada, como se essas coisas
pudessem ser separadas. É ainda idolatrado pelos guardiães
do brechtismo, que se tornaram ideológicos ao pregar
verdades agora sem crédito diante da experiência
da sociedade contemporânea no estágio atual do
capitalismo.
O que mantém viva a influência de uma obra teatral
como a de Brecht é o uso que dela se faz no diálogo
com o público de hoje.
2. Um pouco mais de luz sobre o
palco !
Brecht escreveu muito contra o teatro
naturalista. Seu maior alvo de ataque não era o estilo
de representação em si, mas a intenção
ilusionista. Detestava qualquer desejo de enganar o outro,
mesmo que em nome de uma imersão emotiva, de uma distração
inconsequente. Também não podia aceitar um teatro
que considerasse as ocorrências da vida como "naturais".
As relações humanas têm história,
e devem assim ser reproduzidas no palco : para se tornarem
mais claras. O ilusionismo (que, no fundo, tem pouco a ver
com o naturalismo) pede, ao contrário, atmosferas dramáticas,
anulação do espectador em meio ao ambiente escuro
da sala, apagamento do caráter coletivo e instável
do público. A história mostrou que o cinema
é muito melhor ilusionista do que o teatro porque fala
de um indivíduo (a câmera) para outro indivíduo
(o espectador). O teatro tem o grave problema de mostrar gente
em cena e sentada na platéia. Nele é difícil
preservar essa grande conquista burguesa, a individualidade
e a privacidade. O maldito do ator tem olhos para nos enxergar
também. Por isso Brecht pedia mais luz sobre o palco.
Queria o próprio dia em cena. Gostava de ver gente,
de olhar no rosto de cada um.
Mas o que fazer quando o sentimento da época é
noturno ? Quando à noite, hora em que vamos ao teatro,
estamos tão em desordem quanto a cidade em que vivemos
? E a vontade de distração se tornou vontade
de ganhar algum esquecimento e interesse pelo mundo ?
A resposta é incerta, mas o "assombro dos entorpecidos"
é pouco. Existem caminhos mais luminosos.
3. O prazer da produtividade.
O teatro brechtiano transmite sobretudo o gosto pela inteligibilidade.
Baseia-se ainda numa distinção clássica
entre sujeito e objeto do conhecimento. O que deve ser iluminado
é a contraposição entre um e outro. Ao
contrário do que pensam aqueles rapazes que - preferindo
fusões unilaterais e falsas totalizações
- acreditam ser possível atingir o infinito num salto,
numa epifania sem trabalho em direção ao outro.
A cena brechtiana pressupõe a confiança libertadora
de que o trabalho não é uma condenação
pós-paradisíaca mas sim a principal fonte de
felicidade humana toda vez que se bem partilha dos seus frutos.
Por isso ela exige também uma colaboração
do público, de ordem crítica e imaginária.
A riqueza da cena é gerada, assim, em conjunto, por
atores e espectadores. Os homens se sentem bem quando trabalham
por uma obra sabendo de sua finalidade. Mesmo com toda a suspeita
de infantilidade, a cena brechtiana não abandona a
tradição clássica do teatro como lugar
de representação. Não se recusa às
construções de brinquedo, às ninharias,
à banalidade ou ao impulso mimético mais ordinário,
nem à felicidade de um mundo copiado e assim melhor
compreendido, que sempre animou a arte quando ela prestou
para alguma coisa.
4. Belo é resolver dificuldades.
Se a produção é
fonte de felicidade (e isso não depende, em termos
brechtianos, só da maneira como eu me comporto, mas
também da maneira com que os os outros se comportam
e por isso "interessa também a possibilidade de
influir sobre os demais"), os sentidos não podem
ficar inertes diante do fenômeno teatral. O olhar para
o palco deve ser ativo, discriminador, comparativo. A beleza
da cena não surge para provocar encantamento ou fascinação,
mas sim para "dar aos sentidos a oportunidade de se mostrarem
hábeis". É assim que o olho produz.
Como grande parte da arte moderna, a cena brechtiana desdenha
da vinculação estrita do belo ao prazer contemplativo.
Sua tarefa é também outra, concentrar o olhar
em pontos cruciais das ocorrências, e mostrá-las
com aparência mais intensa do que a das ruas, jornais,
telas e casas da cidade. A medida interessada do prazer artístico
é dada pela instrumentalização da consciência
e dos sentidos. Bonito é aquilo que ajuda a melhorar
a vida humana coletiva. E o teatro pode ajudar a desenvolver
a intuição para a história.
5. O ponto de vista da bola.
Brecht pretendeu construir um teatro
que fosse uma imagem praticável do mundo. Um modelo
de compreensão das relações humanas em
sociedade. Interessava-se por muitas formas de ação,
especialmente as negativas : como as pessoas se enganam, se
exploram, se mutilam, se odeiam. A certa altura da vida, comparou
sua dramaturgia a um planetário, por meio do qual o
público poderia compreender, com a tranquilidade de
quem está parado, observando, o movimento das personagens.
Para minimizar a aversão à sua abordagem científica,
despertada especialmente nos cultores da arte absoluta, ele
escolheu essa imagem de serenidade celestial. Só que
o céu estrelado do planetário está ali
para ensinar que os movimentos dos astros obedecem a leis.
Complexas, variáveis, mas compreensíveis. Para
quem diz que no caso das pessoas em sociedade é diferente,
Brecht responderia : "do ponto de vista de uma bola,
no meio de um jogo qualquer, as leis do movimento também
são praticamente inconcebíveis". Por isso
ele gostava de relatos históricos e sentimentais de
desastres, de grandes atos confusos, ocorridos não
por má influência dos astros, mas por falhas
evitáveis de gente desastrada ou mal intencionada.
Os acontecimentos humanos têm antecedentes históricos,
contexto de classe, circunstâncias de tempo e espaço.
Desenvolvem-se segundo trajetórias descontínuas
e inconstantes, que podem ser acompanhadas. O céu de
Galileu não é menos ou mais poético do
que qualquer outro. A arte não se opõe ao mistério,
mas pode combater a mistificação.
6. Com quem eu me agrupo ?
O mais discutido dos conceitos brechtianos
- o de distanciamento - é o que pede maior revisão.
Não só porque ocupa posição de
fato central na teoria, mas porque ele em si mesmo é
uma proposta de "revisão de uma certa realidade".
Nas costas dessa palavra muitos clichês já foram
despejados. Virou tanto sinônimo de relação
fria com a platéia, como comentário puramente
formal, sem maior reflexão sobre o valor ético
que está em jogo. Muita gente que trabalha com o "efeito
de distanciamento" se esquece de sua ligação
íntima com a tradição cômica. Considerado
apenas como técnica, o distanciamento é coisa
muita antiga, presente em qualquer triangulação
de comediante popular, em qualquer rompimento da ilusão
da "quarta parede", em qualquer suspensão
da personificação para que um tema se destaque.
Aparece também, por exemplo, quando uma mulher de camisola
observa todo o esforço do seu marido ao entrar de madrugada
em casa sem fazer barulho, na volta culpada da farra. E essa
técnica de destacar de forma inusitada um objeto do
olhar pode ser feita por muitos elementos da cena : iluminação,
música, legenda.
O distanciamento pretende recuperar a curiosidade filosófica
através do "espanto", o que já se
chamou de "pasmo essencial", etapa fundamental do
senso crítico. A aparência comum, natural e óbvia,
ao ser tornada estranha, é melhor percebida em suas
motivações e desdobramentos.
Se considerarmos correta a hipótese de Bergson sobre
a origem do riso, pela qual a comicidade se gera quando percebemos
um esquematismo ou uma mecanicidade (o que só é
possível de um ponto de vista mais vivo), o distanciamento
funciona também como uma reorganização
do olhar para que ele atente para os automatismos e adote
o ponto de vista mais móvel, mais próximo da
experiência comum da vida. Brecht dizia a seus atores
durante a leitura das peças para sempre se perguntarem
como uma pessoa simples compreenderia aquela cena.
Mas a técnica do distanciamento, pela qual um ato de
uma personagem é mostrado ao público de um ponto
de vista mais auto-consciente, portanto desalienado, pressupõe
uma visão moral. Foi com base nisto que se construiu
a tradição do "riso como punidor dos costumes".
O distanciamento brechtiano só atinge seu efeito se
for um |