AUTO DOS BONS TRATOS
APRESENTAÇÃO

Grupo investiga como o Brasil deu no que deu
"O mais interessante no trabalho da Cia. do Latão é que a perspectiva do passado, dramatizada com toda sua complexidade, não funciona para resolver como uma panacéia, os dilemas do presente. Nesse auto - ao mesmo tempo portador das conotações de peça didática e peça de instrução judicial - as funções analógicas só podem ser exercidas se respeitarmos a complexidade do passado."


(Mariângela Alves de Lima,O Estado de São Paulo, Caderno 2, 10 de maio de 2002.)

Companhia do Latão investiga o caráter nacional
"Um espetáculo bem-concebido, na proposta e nos detalhes históricos e de linguagem, com tema importante a ser conhecido pelo público."

(Aguinaldo Ribeiro da Cunha, Diário de São Paulo, 02 de maio de 2002)

"...é um trabalho muito rico. A qualidade do espetáculo, como dos intérpretes, ajuda a tornar realidade o que parece não ser mais que invenção."


(Carlos Porto. Revista Primer Acto, pg.126., março de 2002)

"Su interés proviene tanto de su lectura de la historia como de los códigos teatrales y estéticos usados. Como espectáculo fue sumamente atractivo tanto en el ritmo, las imágenes construidas como en el manejo y versatilidad de los objetos en el escenario."


(Juan Villegas, Gestos 34, Novembro de 2002)







 

 

 

 

 

 

 



Grupo investiga como o Brasil deu no que deu

Por Mariângela Alves de Lima. O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 10 de maio de 2002.

Esse é o objetivo do texto - a um só tempo irônico e informativo - de 'Auto dos Bons Tratos´, criação da Cia. Do Latão dirigida por Sérgio de Carvalho

Com perseverança e uma boa dose de talento a Companhia do Latão vem, através de sucessivos espetáculos, dedicando-se ao mais ingrato dos temas: como o Brasil deu no que deu. Diga-se de passagem que o tema é ingrato não porque o País não tenha dado certo ( a discussão do que é "dar certo" é parte da tarefa da arte), mas em razão de uma maré estética que, de um modo geral, privilegia os assuntos à margem do tempo histórico e além das fronteiras políticas. O trajeto pode ser direto ou analógico - passando por autores como Georg Büchner e Bertold Brecht - e em qualquer dos casos o espectador saberá reconhecer que há no centro dos espetáculos criados pelo grupo um problema que diz respeito à ordenação política e social do presente.
No Auto dos Bons Tratos, uma criação coletiva baseada em um episódio da história colonial, são os fundamentos históricos das nossas instituições que aparecem dramatizados no espetáculo. Foi assim, afirma a trama, e é possível que ainda seja assim, concluem as intervenções narrativas do texto. De verídico, extraído da crônica colonial do século 16, há a historia do donatário da Capitania de Porto Seguro, Pero Fernandes Tourinho, processado pela Inquisição em virtude de seu comportamento blasefemo. Homem sem freio por temperamento protagonizou um dos inúmeros confrontos com o s jesuítas ao arrancar do culto as "peças" de suas propriedade, ou seja, indígenas já batizados ou em processo de catequese.

O mais interessante no trabalho da Cia. do Latão é que a perspectiva do passado, dramatizada com toda sua complexidade, não funciona para resolver como uma panacéia, os dilemas do presente. Nesse auto - ao mesmo tempo portador das conotações de peça didática e peça de instrução judicial - as funções analógicas só podem ser exercidas se respeitarmos a complexidade do passado. Os índios,vítimas incapazes de protagonizar a ação dramática, embora sejam as primeiras vigas do projeto colonizador baseado na exploração da mão de obra são objetos passivos.


O que interessa ao auto é o modo como são vistos pelas forças em embate no projeto de dominação .Para a Igreja são almas, rebeldes e frágeis, mas ainda assim dignas de resgate. Para donatário e colonos, bestas de carga e bens materiais disputadíssimos. Em um e outro caso a identidade do escravo e uma construção sem suporte real, idealização negativa ou positiva de uma realidade que tanto o colonizador quanto o catequista não têm instrumentos para compreender.

 

 







 

 

 

 

 

 

 


Companhia do Latão investiga o caráter nacional

Por Aguinaldo Ribeiro da Cunha. Diário de S. Paulo, 02 de maio de 2002.

A Companhia do Latão estréia sua primeira montagem deste ano no Teatro Cacilda Becker - espaço que passa a ocupar por um longo período, graças a projeto desenvolvido pela Secretaria Municipal de Cultura, que destina os teatros municipais a grupos permanentes para montagem de repertório. E traz "Auto dos Bons Tratos" (título perfeito, inspirado nos autos medievais portugueses, celebrizados por Gil Vicente), que recupera parte importante da história brasileira, a do início da colonização e do povoamento pelos europeus, com o objetivo de elucidar aspectos importantes da nossa formação histórica e , talvez, de nosso caráter.
O último trabalho do Latão foi "A Comédia do Trabalho", ótimo espetáculo, no qual se discutiam poder e dominação tendo como mote as relações de trabalho, sempre sob um viés ideológico, que caracteriza e marca as montagens do grupo. Com "Auto dos Bons Tratos", de Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano, o Latão prossegue em sua linha de investigação social, reflexiva no tocante à estrutura da sociedade contemporânea, e em sua pesquisa de linguagem cênica - com espetáculos formalmente despojados, embora criativos, e centrados no texto que se propõe a discutir com o público - essencialmente, teatro da palavra.
Na atual montagem, o público teatral senta-se no palco do Cacilda Becker, ao redor e próximo dos atores, a exemplo do que a Companhia fez em "A Morte de Danton", que foi encenada no mesmo teatro. O cenário simples, bem idealizado, formado por praticáveis, se transforma de púlpito de igreja a proa de navio, de engenho de açúcar a palácio real. No pequeno palco, o Latão recria, se valendo de poucos recursos, mas com texto forte, o Brasil do século 16, mais exatamente dentre 1530 e 1540, quando as capitanias hereditárias foram criadas.
A capitania de Porto Seguro e seu donatário, Pero do Campo Tourinho, homem de temperamento instável e autoritário, são apresentados de forma a propiciar ao público bons momentos de reflexão sobre o processo de colonização. Os elementos que fizeram e explicam o início do povoamento pelos europeus estão todos presentes na montagem: a Coroa, nas figuras dos reis e do próprio donatário; a Igreja, representada pelos padres catequistas e também pelo Santo Ofício da Inquisição; o povo, estranhamente não uniforme, composto pelo branco português e pelo índio escravizado (o elemento negro ainda não havia sido introduzido na sociedade brasileira)
O discurso é forte, incisivo, e mostra-nos um donatário rebelde
à Igreja e ao comportamento social então vigente, mas com determinado tino comercial e empresarial, tratando a colonização como uma empresa a dar lucro. Para isso era necessário trabalho, muito trabalho, que acabava prejudicado pelos constantes feriados religiosos. Pero Coutinho não era, sem dúvida, um personagem típico da época, fidalgo desafiador das leis(acabou sendo absolvido pela Inquisição), mas serve bem para a proposta de se discutir o inicio do Brasil, o que o Latão faz com a competência habitual.
A direção de Sérgio de Carvalho e de Márcio Marciano imprime rigor estético e temático ao espetáculo, com o elenco,

integrado por Ney Piacentini, do cast permanente do Latão, e atores convidados interpretando seus papéis com o distanciamento crítico que sempre é praticado nas montagens da companhia. Esse distanciamento acentua a crítica e a reflexão que o texto - e o espetáculo - propõe ao público. Um espetáculo bem-concebido, na proposta e nos detalhes históricos e de linguagem, com tema importante a ser conhecido pelo público.
 

 

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