O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO

APRESENTAÇÃO


O Círculo de Giz Á BRASILEIRA - A COMPANHIA DO LATÃO VISITA HAVANA

"GRAÇAS a uma temporada de teatro internacional organizada pelo Conselho Nacional das Artes Cênicas, assistimos em Havana à encenação de O Círculo de Giz Caucasiano pela Companhia do Latão, do Brasil."

Por Mireya Castañeda, Jornal Granma Internacional,  21 de setembro de 2007.


"O Círculo de Giz Caucasiano" celebra Bertolt Brecht no Rio

"Estreou no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro "O Círculo de Giz Caucasiano", texto do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, considerada uma das grandes obras da dramaturgia moderna. Concebido como uma ópera oriental, a cena é apresentada no palco através do canto."

Por Alexandre Souza, Jornal Hora do Povo, Ano XVII nº 2491, de 11 a 15 de agosto de 2006.


Mensagens na garrafa


"Nos diários de trabalho, o Brecht escreveu: 'Numa sociedade como esta, a única coisa a ser feita é colocar mensagens na garrafa'. A algum lugar essas mensagens vão chegar."

Por Ana Paula Sousa, Carta Capital, São Paulo, ano XII, nº 404, 02 de agosto de 2006


A arte viva de Brecht, 50 anos depois

"A montagem de O Círculo de Giz Caucasiano, pela Companhia do Latão, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), lembra os 50 anos da morte do dramaturgo Bertolt Brecht, com um enfoque do século 21. "

Por Beatriz Coelho Silva, O Estado de São Paulo, Caderno 2, 14 de agosto de 2006

Recado político de Brecht, levado em espetáculo tocante

"Na montagem de O Círculo de Giz Caucasiano o primeiro e forte impacto positivo vem com a pertinente recriação do prólogo, que vai além da mera atualização temporal ou temática."

Por Beth Néspoli


Dez anos de coerência artística


A prática aliada ao vigor teórico é um dos elementos de uma companhia que propõe uma relação com o espectador distante da acomodação. "Ao assistir a um dos nossos espetáculos, o público não apenas recebe mas exerce uma determinada função", assinala Sérgio.

Por Daniel Schenker Wajnberg, Tribuna da Imprensa, 09 de agosto de 2006.

Por que ver "O Círculo de Giz Caucasiano"

Tradução de Manuel Bandeira e montagem dirigida por Sérgio de Carvalho valorizam a força poética do texto original de Bertolt Brecht

Por Hélio Ponciano, Revista Bravo!,ano 9, agosto de 2006


Cia. do Latão atualiza fábula de Brecht

Grupo crê que o socialismo está em ´reconstrução` e estréia ´O Círculo de Giz Caucasiano`, onde discute ocupação de terra.

"O Círculo" abre e fecha falando de terra. Questiona em que medida sua ocupação é justa ou legal, prato cheio para uma companhia que busca pensar Brecht no contexto do capitalismo atual e do Brasil, sociedade da periferia do mundo, no dizer de Carvalho.

Por Valmir Santos e Sérgio Sálvia Coelho, Folha de São Paulo, 09 de agosto 2006


Cinquentenário Brecht

Estréias de peças, seminários, workshops, debates, shows e palestras ilustram a importância e a contribuição do dramaturgo alemão Bertold Brecht para a história do teatro e para a história da luta contra a opressão.

Por Eduardo Carvalho, Agência Carta Maior, 09 de agosto de 2006


Brecht e o Brasil


Se é verdade que escrever em português pode, ainda hoje, confinar um autor a circuitos relativamente restritos, produzir em alemão tampouco garante divulgação internacional imediata.

Por Fernando Marques, Revista Cult nº 105, agosto de 2006.

50 anos sem Brecht

O criador do teatro do distanciamento, que via na encenação objetiva uma forma de despertar a consciência do público, e assim provocar mudanças na sociedade, continua inspirando atores, dramaturgos e diretores no mundo inteiro.

Por Gislaine Gutierre, Diário do Grande ABC, 13 de agosto de 2006.

Justiça em nome de Bertolt Brecht

Estabelecidos os seus termos, para não deixar qualquer duvida sobre o que quer dizer e do que fala, a encenação encontra tradução cênica que desarma a fábula para o espectador. Senão para avalizar correspondências com a atualidade, pelo menos para permitir que a narrativa se revele com suas variantes possibilidades.

Por Macksen Luiz, Jornal do Brasil, 18 de agosto de 2006.


O Palco como palanque


A tradução que o poeta Manuel Bandeira fez da peça "O círculo de giz caucasiano", de Bertolt Brecht, nos anos 60, andava esquecida, até que a editora Cosac Naify reeditou há pouco o livro e um exemplar foi parar nas mãos de Sérgio de Carvalho.

Por Mauro Ventura, O Globo, Segundo Caderno, 10 de agosto de 2006

Cia. do Latão encena seu 2º grande Brecht

Grupo muito identificado com o pensamento e a dramaturgia do alemão Bertolt Brecht (1898-1956), a Companhia do Latão se volta mais uma vez a um texto do seu grande guru. "O Círculo de Giz Caucasiano", em versão traduzida por Manuel Bandeira, estréia amanhã (dia 2) na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista.

Por Pedro Ivo Dubra, Folha de São Paulo, Guia da Folha, 1º de dezembro de 2006.


Erros que resistem às décadas

"É preciso defender o teatro épico contra qualquer suspeita de se tratar de um teatro desagradável, tristonho e fatigante" escreveu Brecht após os ataques conservadores contra seus primeiros trabalhos.

Por Sérgio de Carvalho, O Globo, 20 de setembro de 2006.

Latão põe sistema jurídico em xeque

Quando assistiu a uma montagem de "O Círculo de Giz Caucasiano" pela lendária companhia alemã Berliner Ensemble, em 1955, o pensador francês Roland Barthes (1915-1980) escreveu que a peça "realiza uma dupla intenção do teatro de Brecht: despertar e alimentar a consciência política do espectador e, ao mesmo tempo, garantir seu prazer mais franco, pois o teatro é feito para divertir".

Por Valmir Santos, Folha de São Paulo, 2 de dezembro de 2006.




 

 

 

 

 

 

 

 

 






 

 





O Círculo de Giz à brasileira - A Companhia do Latão visita Havana

Por Mireya Castañeda, Jornal Granma Internacional,  21 de setembro de 2007.

Graças a uma temporada de teatro internacional organizada pelo Conselho Nacional das Artes Cênicas, assistimos em Havana à encenação de O Círculo de Giz Caucasiano pela Companhia do Latão, do Brasil.
Trata-se de uma encenação mista, clássica e experimental da obra de Bertold Brecht, um autor muito acompanhado por este grupo de teatro que, formado há mais de 10 anos, tem sua sede em São Paulo. Uma montagem poderosa, intensa e coerente.
Os brasileiros se apresentaram no teatro Hubert de Blanck e tiveram uma comunicação forte com o público, apesar do texto na íntegra, de uma duração de três horas e meia e de outro idioma. Embora os atores tivessem pequenas interferências em espanhol para ajudar, a compreensão não foi muito fácil para o público, nomeadamente durante os monólogos.
Mas sem dúvida, o novo prólogo foi muito interessante. Devemos lembrar que Brecht escreveu um prólogo para O Círculo de Giz baseado no pós-guerra alemão. Os brasileiros o atualizaram e apresentaram um vídeo realizado por um grupo de camponeses artistas do MST. No documentário, os camponeses falam sobre o texto de Brecht e o reinterpretam
No vídeo, De Carvalho faz outras pequenas interferências no texto, por exemplo, enquanto Brecht utiliza um narrador, os brasileiros utilizam vários narradores.
O diretor da companhia, Sergio de Carvalho, conversou com o Granma Internacional sobre o grupo e as obras.

Qual a sua opinião sobre o movimento de teatro em São Paulo?
Atualmente, temos um movimento teatral forte, em especial o cooperativo, para poder enfrentar a cultura como mercadoria, porque para nós um espectador não é um cliente. Por isso, já realizamos duas temporadas de  teatro latino-americano. Na última, de 30 de abril a 6 de maio, participou o grupo cubano Buendía, dirigido por Flora Lauten. O movimento de teatro cresce constantemente, com grupos que se opõem ao teatro comercial.

Quando foi criada a companhia e de que orçamento dispunham?
Estamos comemorando nosso 10º aniversário, e começamos a apresentar-nos com textos de Brecht, no contexto brasileiro, mas também fazemos teatro épico e crítico e escrevemos nossos próprios textos. Hoje, a companhia é referência de teatro crítico e politizado, sempre que for possível num país como o Brasil, de capitalismo avançado. Quando começamos, éramos um grupo de atores tentando realizar um espetáculo através do teatro dialético proposto por Brecht, mas com o propósito de produzir uma dramaturgia nacional contemporânea, que abordasse  temas atuais de uma forma dramática e mais ampla do ponto de vista social. Enquanto muitos grupos incidiam sobre as emoções do público, envolvendo-os nos conflitos dos protagonistas, nós queríamos mais.
Por que esse nome do Latão...?
O nome procede dum texto teórico de Bertold Brecht de 1939, A Compra do Latão. Este é um texto de Brecht em que ele reúne diálogos, trechos teóricos, poemas, exercícios de teatro, é uma soma de seu pensamento. Fizemos um espectáculo com eles, Ensaio do latão e com o uso cotidiano terminamos sendo a Companhia do Latão, nome que na obra de Brecht sugere o interesse pelo material. Brecht utiliza uma metáfora onde imagina um filósofo que chega a um grupo de atores e se compara com um comprador de ferro-velho. Esse comerciante de latões, bronzes, metais, participa do concerto de uma orquestra e termina pensando quanto custaria o quilo de metal dos instrumentos, sem sensibilizar-se com a música. Uma metáfora a partir de Marx, que logicamente está mais interessado na música que em saber quanto custa um quilo de metal. O texto de Brecht abre o debate sobre a função da arte, com uma posição mais avançada. A dimensão teórica, a proposta de um teatro dialético, foram a base para a formação artística do nosso grupo.

Desde o início, começaram com Brecht...?
Utilizamos Brecht como modelo que precisa ser atualizado, pois ele escreveu para uma época, com uma luta de classes diferente. Através da experimentação estética tentamos levar suas obras a nossa realidade. Eu penso que é muito importante quando a gente utiliza um modelo artístico tão forte como Brecht, pensá-lo a partir de suas necessidades históricas e de vida. A tradição clássica deve ser pensada no seu próprio contexto, e seus públicos, e isso é um processo de aproximação experimental. Nestes dez anos,  experimentamos o que significa utilizar essa tradição em um país como o nosso, na periferia do capitalismo, com uma história colonial, com heranças perversas da escravidão, tudo isso precisa ser apresentado e estes não são temas de que Brecht tratava. Não contextualizamos sua obra no sentido reto, apenas mostramos a diferença histórica. Das 15 obras de nosso repertório, três são de Brecht, Santa Joana dos Matadouros, Os dias da Comuna  e  O Círculo de Giz Caucasiano, a mais recente.
A Companhia do Latão, quer com as obras de Brecht, quer com as de Machado de Assis, com textos de Heiner Müller (Sobre equívocos colecionados), com leituras sobre a ópera Johann Faustus, de Hanns Eisler ou com o Ensaio para Danton, baseado na obra A Morte de Danton, de Georg Büchner, apresenta extraordinárias encenações, sempre atualizadas, para um espectador que, como bem afirmam, não é um simples cliente.

http://www.granma.cu/portugues/2007/septiembre/vier21/38brasileno-p.html

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"O Círculo de Giz Caucasiano" celebra Bertolt Brecht no Rio

por Alexandre Souza, Jornal Hora do Povo, Ano XVII nº 2491, de 11 a 15 de agosto de 2006

Estreou no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro "O Círculo de Giz Caucasiano", texto do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, considerada uma das grandes obras da dramaturgia moderna. Concebido como uma ópera oriental, a cena é apresentada no palco através do canto.
A montagem do CCBB, que homenageia os 50 anos de morte de Brecht, está a cargo do diretor e dramaturgo Sérgio de Carvalho, que traz ao palco os atores da CIA do Latão, grupo que há anos se aprofunda na obra de Brecht, e artistas de diversas companhias convidados especialmente para esta montagem. É uma superprodução, com 11 atores no palco, 21 canções especialmente compostas para a peça e dois músicos em cena tocando cello, piano, instrumentos orientais e rabeca.
Este texto, escrito durante o exílio de Brecht nos EUA entre 1944 e 1945, retrata a Alemanha do final da II Guerra Mundial, onde o clima de desespero e desolação recai nas relações do povo, que começa a indagar sobre o seu futuro e suas perspectivas.
A disputa global e a formação de impérios dão o foco da narrativa, trazendo à tona os receios e questionamentos de um povo sem rumo, perdidos entre o ódio e a desesperança fomentados por Hitler.
As narrativas são concêntricas e se passam em diferentes momentos e regiões. O prólogo da peça, que dá início à reflexão, se passa entre um grupo de camponeses que se reúnem para discutir o direito à propriedade. Na segunda parte, quase como uma fábula, Brecht invoca uma viagem pelos resquícios de uma sociedade tirana através de uma empregada da corte, que leva uma criança abandonada a várias regiões. Em seguida, conta uma farsa de um juiz beberrão, a qual se inspirou em uma peça chinesa do século XIII.
A peça foi traduzida pelo poeta Manuel Bandeira, que a considerava uma obra-prima do teatro épico, e está fora dos palcos brasileiros desde 1963, quando foi encenada pelo Teatro Nacional de Comédia, com direção de José Renato.
O texto, escrito há mais de 60 anos, traz um conteúdo extremamente atual, onde o imperialismo ianque avança sobre os povos em sua sanha dominadora, e se encontra frente à resistência dos povos por suas soberanias, contra a guerra e a opressão.


 

 

 

 





Mensagens na garrafa

Por Ana Paula Sousa, Carta Capital, São Paulo, ano XII, nº 404, 02 de agosto de 2006

A Companhia do Latão faz dez anos e prova que arte politizada ainda tem vez

"Nos diários de trabalho, o Brecht escreveu: 'Numa sociedade como esta, a única coisa a ser feita é colocar mensagens na garrafa'. A algum lugar essas mensagens vão chegar." É essa a aposta e é essa a prática do dramaturgo Sérgio de Carvalho, diretor da Companhia do Latão. "O que a arte pode fazer é tentar criar uma corrente de reflexão que se irradie." Aproximar-se da Companhia do Latão é ver ideais jorrarem. Às vésperas de estrear O Círculo de Giz Caucasiano, de Bertolt Brecht (1898-1956), que dá largada às comemorações em torno de seus dez anos de vida, o grupo, exemplo bem-sucedido de companhia, que ainda acredita na arte politizada, mostra estar com todos os sonhos em dia.
No sótão da sede do Instituto Goethe, em São Paulo, onde está sendo ensaiada a peça que entrará em cartaz na Quarta-feira 9 de agosto no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, o juiz Azdak, vivido por Ney Piacentini, ator de primeira hora da companhia, indica o tom da montagem:
- Teria sido uma época maravilhosa se a ordem tivesse sido descuidada por mais tempo. Sustentei a pobreza em pernas magras, meti o nariz no bolso dos ricos, portanto fui obsceno. O tempo da confusão e da desordem acabou sem que os grandes tempos tenham vindo.
À fala seguem-se teclado, violoncelo, violino e a voz segura do elenco a entoar a melodia suave:
- Irmã, cobre a tua cabeça/ Irmão, vai buscar tua faca./É tempo de destrambelhar/ É tempo de destrambelhar/ Os grandes estão cheios de queixas/ Os pequenos cheios de alegrias/ É tempo de destrambelhar.
O Latão volta a Brecht, seu ponto de partida, a pedido do CCBB, que queria lembrar os 50 anos da morte do dramaturgo alemão. "Além disso, com esse texto acho que entramos numa fase de retorno à origem. Retomar o Brecht é retomar não só o desejo de fazer um certo tipo de teatro, mas mergulhar de novo numa prática de trabalho crítico", diz Carvalho.
A fala do diretor pode até soar a retórica. Mas não é. Conforme desenovela suas idéias, Carvalho vai tornando palpável um movimento que se solidificou na última década: o das companhias teatrais empenhadas em retomar a tradição política e reflexiva que, nos anos 60, o Arena e o Oficina trouxeram para os palcos brasileiros.
Hoje, enfileiram-se ao lado da Companhia do Latão, nessa raia paralela à indústria cultural, grupos como Vertigem, Folias D'Arte, Cia. Do Feijão, Cemitério de Automóveis, Teatro Fábrica e o Oficina Uzyna Uzona - para ficar apenas em exemplos paulistanos, boa parte deles beneficiados pela Lei do Fomento da Prefeitura, que premia anualmente companhias estáveis.
"A década de 80 era uma época de peças mais ligadas à subjetividade. O teatro de grupo, nos anos 90, tentou retomar uma tradição mais politizada e, com isso, trouxe de volta o público universitário, por exemplo" , avalia Piacentini, que é também presidente da Cooperativa Paulista de Teatro. " Acho que trocamos projetos individuais por projetos coletivos. O que nós tentamos á ser a contraface da sociedade do espetáculo, que compra o olhar do indivíduo a todo custo."
Carvalho, que, além de dirigir o Latão, dá aulas de dramaturgia e crítica teatral na Faculdade de Artes Cênicas da USP, risca uma curiosa linha no ambiente cultural para definir esse teatro que está mais vivo do que nunca, mas não é aceitado pelo chamado mainstream e depende de apoio do Estado para sobreviver.
"Quase todo teatro de grupo vive numa condição fronteiriça, entre o amadorismo e o mercado. É preciso energia para se manter nesse lugar, porque toda a maré te empurra para a mercantilização. A condição semi-amadora do teatro é triste por refletir as condições precárias do artista no País. Ao mesmo tempo, é boa por nos manter fora da lógica do mercado", arrisca.
Neste momento da conversa, a porção professor de Carvalho volta à tona e ele faz um parêntese histórico. O diretor lembra que, no século XIX, o teatro preservava a diferença social, com os ricos bem instalados nos camarotes e os pobres espremidos em lugares distantes no palco. No século XX, ao adotar uma estrutura de suposta igualdade para todo o público, o teatro deixou os pobres do lado de fora.
"Só viveríamos de bilheteria se cobrássemos muito pelos ingressos. E aí fugiríamos do nosso propósito", diz Carvalho, lembrando que no teatro, como no cinema, a conta de custos e lucros não fecha. "Só acho importante Ter em mente que um teatro sustentado com dinheiro público deveria ser acessível a todo mundo. Nós nos sentimos no dever de ir atrás do público também." Apresentações em escolas públicas e um trabalho com o MST, desde 1998, fazem parte desse plano de ir "onde o povo está".

E isso é assim desde 1996, quando Carvalho montou o espetáculo (ao lado de Márcio Marciano, o outro dramaturgo da companhia) que daria origem ao Latão: Ensaio para Danton, baseado em A Morte de Danton, de Georg Büchner. Mas a criação coletiva começou a valer mesmo em 1997, quando venceram o edital para ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet e mergulharam em Bertolt Brecht, com o Ensaio sobre o Latão, e, no ano seguinte, Santa Joana dos Matadouros. Vieram depois peças como Auto dos Bons Tratos, sobre as relações de poder num certo Brasil do século XVI, A Comédia do Trabalho, o grande sucesso do grupo, com mais de 150 apresentações, O Mercado do Gozo e Visões Siamesas, de Machado de Assis. O grupo também edita uma revista, chamada Vintém.
Parte dessa história estará reunida, a partir de 2007, nos livros, DVDs e CDs que integram o projeto Latão 10 Anos, contemplado pela Lei de Fomento e pelo Prêmio Myriam Muniz, da Funarte. Também integra o projeto a remontagem de O Nome do Sujeito, programada para novembro.
Mesmo criticada, algumas vezes, por tentar catequizar o público, a companhia nunca arredou pé de seu propósito. Faz as peças que quer. E como quer. "Vale mais uma experiência de trabalho não alienado do que o discurso sobre a não-alienação. Tentamos criar um trabalho em que todos participem", teoriza Carvalho, tocando na discussão entre capital e trabalho, que tanto o atrai.
No ensaio de O Círculo de Giz Caucasiano é possível depreender o sentido da teoria. "O populacho está fora de controle. Já tomaram o subúrbio, senhora!", diz um ator. Ao fim da cena, o produtor João Pissarra chega com dois refletores debaixo do braço. É o diretor quem os pendura. É o músico-ator que ajuda a puxar os fios. E é outro ator que sugere o próximo trecho a ser passado.

Pissarra, português de Leiria que está no Brasil há um ano e meio, não quer saber de outra vida. Advogado que mudou de país para trabalhar num escritório de direito internacional, para "tratar de importações e exportações", ele conheceu Piacentini num bar. Cansado do direito, adorou o convite para ser bilheteiro numa das peças do Latão. Agora, é o produtor de O Círculo de Giz.
Esta peça, na definição de Carvalho, é uma fábula sobre a terra. "Qual o critério para que alguns tenham direito à terra e outros não?", pergunta. Em busca do contato com o real, no prólogo, serão levadas ao palco imagens de um assentamento de sem-terra, em Sarapuí,no interior de São Paulo. Enquanto, no texto original, o diálogo se dá entre dois grupos de camponeses, nesta versão os atores vão dialogar com as imagens de jovens que discutem a própria experiência com a terra. "O Círculo é uma tentativa de entender a força da coletividade. A peça cria a expectativa da possibilidade de alguma harmonia", aposta Piacentini. É mais uma mensagem que o Latão coloca na garrafa que será atirada ao mar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





A arte viva de Brecht, 50 anos depois

Por Beatriz Coelho Silva, O Estado de São Paulo, Caderno 2, 14 de agosto de 2006

Montagem de O Círculo de Giz Caucasiano é uma das muitas homenagens ao dramaturgo no cinqüentenário de sua morte

A montagem de O Círculo de Giz Caucasiano, pela Companhia do Latão, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), lembra os 50 anos da morte do dramaturgo Bertolt Brecht, com um enfoque do século 21. O texto, que se passa numa Rússia pré-revolução comunista, discute a dicotomia entre o determinismo histórico e o individualismo, ao contar a história de Grucha, camponesa que renuncia a tudo para salvar a vida de uma criança, e Azdak, camponês elevado a juiz, com todas as regalias da função. "Queríamos um clássico de Brecht, com ampla duração e que abordasse a temática da terra", informa o diretor Sérgio de Carvalho. "Além disso, tínhamos os atores adequados para os personagens, especialmente a Grucha (Helena Albergaria) e o Azdak (Ney Piacentini)."
O Círculo é um texto da fase americana de Brecht, quando ele fugia do nazismo. Escrito nos dois últimos anos da 2ª Guerra Mundial (1944/45), só estreou uma década depois, no Berliner Ensemble, dirigida pelo próprio Brecht, já de volta à sua Alemanha natal, mas foi morar na Berlim Oriental. No Brasil, foi encenada em 1963, no Teatro Nacional de Comédia, com direção de José Renato e tradução de Manuel Bandeira, a mesma usada pela Companhia do Latão. "Nossa adaptação se deu em função do espaço cênico e do elenco, bem menor que o usado por Brecht. Queríamos um espetáculo intimista, em que o público ficasse próximo dos atores", diz Carvalho. "Mas fiz menos cortes no texto que o próprio Brecht e, para ser fiel à sua idéia, recorri ao diário dos ensaios e vi que as questões que me preocupavam nesta montagem estavam lá também."
Grucha e Azdak são personagens brechtianos por excelência, pois agem sem heroísmo ou altruísmo, sem serem meros joguetes do destino. Essa ausência de maniqueísmo e a dubiedade do motor de suas ações é a dificuldade para os atores que os representam e o cerne do teatro épico do qual Brecht é o principal representante. O cenário com poucos adereços cênicos e os figurinos que tentam chegar à vestimenta de nobres, soldados e camponeses da Rússia czarista, ambos de Paulo Namatame, enfatizam o desempenho dos atores e relevam o texto. Embora haja uma trilha original de Paul Dessau, Martin Eikmeier compôs música nova - às vezes é incidental, sublinhando climas, às vezes canções fazendo história andar. Para dar conta da grande quantidade de personagens, a Companhia do Latão recorreu a grupos com filosofia de trabalho próxima à sua, como o Núcleo Argonautas e Teatro do Pequeno Gesto.
A maior liberdade que Sérgio Carvalho tomou com o texto de Brecht foi substituir o prólogo por um curta-metragem com jovens do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST)ensaiando com os atores da companhia. Para o diretor, foi a forma de aproximar o texto de nossa realidade, trazendo o debate provocado para o Brasil atual. Sendo um dos pilares do teatro que reza pela cartilha marxista, o dramaturgo alemão não perdeu sua atualidade. "Sempre que se desmistifica a visão do mundo dominante, chama-se atenção para a necessidade de um olhar histórico e tem-se o pensamento marxista. E essa fidelidade de Brecht é que o distingue de outros dramaturgos e o mantém atual", comenta Carvalho, que é também professor de Dramaturgia e Crítica Teatral na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).
O Círculo de Giz Caucasiano fica no Centro Cultural Banco do Brasil até 24 de setembro e depois viaja para São Paulo. "Queremos outro teatro intimista, para intensificar a troca entre o público e os atores."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





Dez anos de coerência artística

Por Daniel Schenker Wajnberg, Tribuna da Imprensa, 09 de agosto de 2006.

Prestes a comemorar data redonda, Cia. do Latão apresenta "O círculo de giz caucasiano" ao público carioca
A Companhia do Latão é portadora de uma especificidade que, às vezes, acaba sendo utilizada como argumento contra os espetáculos do grupo: o vínculo com o embasamento teórico, evidente não só através dos textos publicados na revista Vintém como no próprio processo de construção das montagens.
"Trata-se de uma marca fundamental no nosso trabalho, mas que não aparece sob a forma de discurso. Não fazemos teatro de tema e sim de invenção artística", afirma Sérgio de Carvalho, fundador do Latão, que costuma acumular as funções de diretor e dramaturgo. Às vésperas de completar dez anos de existência, o grupo, sediado em São Paulo, apresenta ao público carioca "O círculo de giz caucasiano", marcando o retorno à obra de Bertolt Brecht. A encenação estréia hoje no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).
A prática aliada ao vigor teórico é um dos elementos de uma companhia que propõe uma relação com o espectador distante da acomodação. "Ao assistir a um dos nossos espetáculos, o público não apenas recebe mas exerce uma determinada função", assinala Sérgio.
Há, possivelmente, uma aridez nas montagens do Latão que contrasta com o vapt-vupt característico da contemporaneidade, como que buscando uma reconciliação com um tempo mais próximo do acontecimento teatral. "Temos uma necessidade de calma épica. Numa época de múltiplas informações descartáveis, é preciso repor o tempo do sujeito. Procuramos criar paralisias dentro da cena para que, como desejava Brecht, a platéia não seja envolvida num carrossel", explica.
Como em outras montagens do Latão, há aqui propostas de discussão de natureza política/social/ideológica. É interessante buscar uma analogia entre esta nova versão de "O círculo de giz caucasiano" e o contexto da encenação de José Renato, em 1963, realizada pelo Teatro Nacional de Comédia (TNC) e não pelo Arena, ainda que o movimento estivesse em pleno vigor.
"Existe uma provável influência do Arena no Latão, no que diz respeito a uma temática de ordem social e à crítica aos sistemas de exploração. Mas a forma é diferente e os momentos históricos, também. Havia um projeto de nacional-popular que, diante do avanço do capitalismo mundial, não diz mais respeito aos dias de hoje. Em contrapartida, estamos testemunhando a reconstrução de movimentos sociais", desenvolve.
A presença de uma "fala" da companhia, mesmo diante de textos fechados ("O círculo de giz caucasiano" conta com tradução de Manuel Bandeira), explica a opção por uma dramaturgia em movimento, inserida dentro de um processo colaborativo, praticada também por outros grupos, a exemplo do Teatro da Vertigem, de Antonio Araujo.
"Não há garantia de bom resultado através deste sistema porque existe o perigo da montagem resultar de um alinhavamento de retalhos de ensaios. Mas sempre vi a cena sob a ótica do dramaturgo", diz Sérgio de Carvalho, que realiza algumas operações no texto original.
Tendo assumido, ao longo dos anos, parceria de trabalho com Marcio Meirelles, hoje radicado na Paraíba, Sérgio de Carvalho abre espaço, desta vez, para atores de companhias diversas, como o Galpão de Folias, o Núcleo Argonautas, o Teatro do Pequeno Gesto e a S. Jorge de Variedades.
Paralelamente ao Latão, Sérgio é professor de dramaturgia e crítica da USP. "Nas aulas de dramaturgia, procuro não matar o desejo de compreensão do mundo e de expressão das pessoas e nas de crítica caminho no sentido de buscar uma contraposição aos valores decretados rumo à constituição de uma atitude reflexiva", resume.
Muitos projetos em andamento
A comemoração de dez anos de existência da Companhia do Latão será marcada por uma série de realizações, a começar pela produção de DVDs didáticos ligados a diversos espetáculos do grupo - como "Ensaio sobre o Latão", "Santa Joana dos Matadouros", "Ensaio da Comuna", "Auto dos bons tratos", "A comédia do trabalho", "O mercado do gozo", "Ensaio para Danton", "Visões siamesas", "Equívocos colecionados", "O círculo de giz caucasiano" e "O nome do sujeito", que será remontado no decorrer do ano - e das principais canções entoadas em cena.
O grupo também pretende lançar três livros que documentam seu trabalho teórico e literário. Todo o projeto foi premiado com a Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo e com o prêmio Myriam Muniz 2006 da Funarte.

 

 

 

 

 

 

 

 





Por que ver "O círculo de giz caucasiano"

Por Hélio Ponciano, Revista Bravo!,ano 9, agosto de 2006

Tradução de Manuel Bandeira e montagem dirigida por Sérgio de Carvalho valorizam a força poética do texto original de Bertolt Brecht

Nestes 50 anos da morte do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), o Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro convidou o diretor Sérgio de Carvalho - há quase dez anos uma referência de teatro brechtiano à frente da Companhia do Latão, em São Paulo - para preparar uma montagem que celebrasse a data. Ao escolher a peça O Círculo de Giz Caucasiano (1944), que estréia neste mês, a intuição do diretor foi decisiva e acertada.
O projeto conta com muitos elementos especiais, a começar pela utilização da tradução que Manuel Bandeira havia feito para uma encenação do Teatro Nacional de Comédia, em 1963, dirigida no Rio por José Renato- que andava esquecida, mas foi encontrada no Museu Lasar Segall, em São Paulo, e publicada pela editora Cosac Naify em 2002. "O texto tem uma força poética fora do comum, e na tradução de Bandeira isso fica bem evidente. Nosso trabalho será muito vivo graças à qualidade poética da palavra, da música, da enunciação", diz Carvalho.
Em resumo, o prólogo original - que será adaptado, segundo Carvalho, para tratar sutilmente da "função da terra no país" - se passa em um colcós (fazenda coletiva) soviético, onde há uma discussão sobre a posse de terras entre agricultores (que as cultivam) e criadores de cabra (que tiveram de abandoná-las durante a guerra). Para resolver o dilema, o primeiro grupo resolve encenar uma lenda, O Círculo de Giz Caucasiano: durante uma revolta em um palácio, a mulher do governador assassinado se esquece do filho na fuga. Uma criada salva o bebê e o cria. Anos mais tarde, a mãe biológica retoma o poder e reivindica o filho. Um juíz se encarrega de decidir com quem ficará a criança. Traça um círculo no chão com um giz, onde põe o menino, e pede para que cada uma delas o puxe pelo braço. Quem conseguir tomá-lo da outra o terá por direito. O desfecho, uma das referências bíblicas da peça - no caso, a história de Salomão-, encanta pelo espírito materno que se põe à prova.

Versão de câmara

Outro diferencial deste projeto é a reunião de diversas companhias de teatro. São 11 atores - que farão mais de uma centena de papéis: além de dois da própria Companhia do Latão, há integrantes da Companhia São Jorge de Variedades, colaboradores do Núcleo Argonautas e do Teatro do Pequeno Gesto e um dos fundadores do Folias d'Arte.
Com duração prevista para quase três horas, com intervalo, o espetáculo pretende ser uma versão de câmara para um público de cem pessoas, próximas do palco, quase dentro da cena - além de enfatizar o papel do cantador-recitador, que conduzirá a montagem. Para atingir o despojamento, o diretor aposta no plano sensível da peça, cujos "sons, ritmos e cheiros" devem desorientar o espectador: "Qualquer pessoa sentirá o impacto, mesmo aqueles que nunca foram ao teatro. É uma obra-prima".














Cia. do Latão atualiza fábula de Brecht

Grupo crê que o socialismo está em ´reconstrução` e estréia ´O Círculo de Giz Caucasiano`, onde discute ocupação de terra.

Textos de Valmir Santos e Sérgio Sálvia Coelho, Folha de São Paulo, 09 de agosto 2006

Cinqüentenário da morte do autor alemão é lembrado com outras montagens e debates que envolvem também a obra de Gorki
Por Valmir Santos

A militância política pode estar em baixa, mas dá sinais de sobrevida no teatro. Apesar da crise das utopias, do esfacelamento do socialismo e da arte engajada, grupos do país seguem devotos ao pensamento e à obra de Bertolt Brecht (1898-1956) na tentativa de interpretar a realidade.
No próximo dia 14 se completam 50 anos da morte do autor alemão, referência mundial do teatro político no século 20 e, ao que se vê, ainda neste que corre. É reverenciado por grupos como Galpão (MG), que montou "Um Homem É um Homem" em 2005; Companhia Fábrica São Paulo, que anuncia um ciclo para relacioná-lo com a obra de Górki; e Grupo dos 7, que articula suas canções com sambas-de-roda no espetáculo "Teatrosamba do Caixote", em cartaz em São Paulo.
A efeméride fez com que a Companhia do Latão, das mais brechtianas e marxistas equipes do país, interrompesse período de seis anos com dramaturgia própria e voltasse à fonte em que se autobatizou.
Convidado pelo CCBB a dirigir um Brecht, o diretor Sérgio de Carvalho atravessou a ponte aérea com "O Círculo de Giz Caucasiano" e estendeu a empreitada ao próprio grupo e a artistas ligados a outros coletivos, como o Folias d'Arte, a Cia. São Jorge de Variedades, o Núcleo Argonautas e o Teatro do Pequeno Gesto (RJ). A montagem é apresentada hoje para convidados e entra em cartaz amanhã no CCBB do Rio. O Latão já montou "Santa Joana dos Matadouros" (98) e "Ensaio sobre o Latão" (97).
Traduzida nos anos 60 por outro poeta, o anticomunista Manuel Bandeira, "O Círculo de Giz Caucasiano" foi concluída por Brecht em 1945, final da Segunda Guerra, quando estava exilado nos EUA, também ali perseguido por causa dos ideais comunistas.
"O Bandeira aceitou porque sentia o texto como uma crítica fortíssima à desumanização", afirma Carvalho, 39, que pôs em cena um espetáculo com dez atores e 21 canções originais (por Martin Eikmeier).

Atualidade

"O Círculo" abre e fecha falando de terra. Questiona em que medida sua ocupação é justa ou legal, prato cheio para uma companhia que busca pensar Brecht no contexto do capitalismo atual e do Brasil, sociedade da periferia do mundo, no dizer de Carvalho.
No prólogo original, dois grupos de camponeses soviéticos discutem quem vai ficar com a terra: se aqueles que nela trabalham ou os antigos donos que a abandonaram. O início da peça traz uma interação em vídeo com participação do grupo Filhos da Mãe Terra, formado por crianças e adolescentes do assentamento Carlos Lamarca, do MST, em Sarapuí (SP).
Em seguida, vem a fábula sobre Gruxa (Helena Albergaria), a criada que decide abdicar de tudo para cuidar de um menino cujo pai, um governador, é assassinado e cuja mãe o abandona após a revolta local. "A Gruxa age não por uma espécie de heroísmo, mas pela tentação da bondade", diz Carvalho.
Anos depois, baixada a poeira política, a mãe retorna e quer reaver o filho. Surge o juiz Azdak (Ney Piacentini). Com fama de corrupto e beberrão, "um revolucionário frustrado", decide quem vai ficar com a criança. Ele traça um círculo de giz no chão, coloca o menino no centro e pede às duas mulheres que o puxem cada uma delas por um braço. Aquela que o tirasse do círculo ficaria com a guarda. "Azdak encarna o desejo de uma era em que a justiça fosse verdadeira", diz Carvalho.
A contradição, recurso tão afeito ao teatro épico, também espreita a ocupação do CCBB pela Cia. do Latão. O braço cultural de uma instituição bancária serve como plataforma para comemoração dos dez anos do grupo, em julho de 2007. Estão previstos lançamentos de sete DVDs, três livros e o volume dois do CD "Canções de Cena".
"Quem produz arte dentro de um ambiente em que ela está sujeita a compra e venda, estabelece algum nível de diálogo com o mercado. O importante é mostrar a contradição dessa produção com esse mercado. Fingir que ela não existe é também sair do debate. Como artista de esquerda, não posso sair do centro radiador desse sistema. Não queremos abastecê-lo com produtos culturais, mas trazer reflexões artísticas na contramão", diz Carvalho.
O diretor não considera que o socialismo tenha acabado. "É um momento de reconstrução e acúmulo de forças do projeto socialista." Para Carvalho, Brecht não tinha a ilusão do Estado socialista, mas de um movimento humanístico. "Ele escreveu "O Círculo" nos EUA, em pleno olho do furacão do capitalismo e da indústria cultural em formação. É um sujeito perturbador por isso, propõe as coisas dinamicamente."

"Talvez o principal aspecto da forma épica criada por Brecht seja a historicização dos acontecimentos. Ele não se preocupa em mostrar a vida como ela é, mas como não deveria ter se tornado. O público é quem realiza o sentido da cena ao [...] estabelecer o vínculo interrogativo entre uma história que se mostra incompleta e suas causas sociais e econômicas"

SÉRGIO DE CARVALHO
Diretor da Companhia do Latão

"Essa decretação afoita [...] da impossibilidade de superação do capitalismo é bastante ideológica. O capitalismo, por necessidade humana, precisa ser superado"

SÉRGIO AUDI
Diretor da Companhia Fábrica São Paulo


Brecht não era um típico brechtiano
Por Sérgio Sálvia Coelho

Como todo pensador fundamental, Bertolt Brecht baseia suas teorias em uma prática constante, sempre disposto a se questionar, a voltar para trás, se contradizer. Por isso os brechtianos, assim como os marxistas e freudianos, não raro perdem tempo em batalhas fratricidas, nas quais reivindicam o mestre ao seguir regras de épocas diferentes.
Qual o verdadeiro Brecht? O anarquista dos cabarés de Mahagonny, o didata do partido em Berlim? Se os risos e as lágrimas são manifestações do teatro burguês, o que fazer com a escrachada "Um Homem É um Homem" e a comovente "Mãe Coragem"? O que parece irrefutável em um breve sobrevôo de sua carreira é que ele era antes de tudo um homem de ação. Desde os espetáculos improvisados no front da Primeira Guerra, na qual era um enfermeiro perplexo com a falta de sentido do mundo, até a última remontagem de "Galileu Galilei" no Piccolo Teatro de Milão, reescrito sem nenhuma auto-indulgência por ser já um "clássico", Brecht procurava sempre responder ao presente.
Cada país reinventou seu Brecht diante dos desafios locais. No Brasil da ditadura militar, o Arena contou Zumbi com uma estrutura épica tão próxima de Brecht quanto das alegorias do teatro de revista. Nada mais antibrechtiano, portanto, do que preconizar o épico como solução universal, ostentando menosprezo por outras formas possíveis.
O teatro político e dialético de Brecht morre quando se torna doutrina de partido. Seja qual for o enfoque adotado, é preciso não perder de vista que o grande desafio para o teatro não é mudar o mundo, mas refletir as suas mudanças. E como dizia o bem-humorado Bertolt: "Só sei que brechtiano eu não sou!".





 

 

 

 

 

 

 





Cinquentenário Brecht

Por Eduardo Carvalho, Agência Carta Maior, 09 de agosto de 2006

Estréias de peças, seminários, workshops, debates, shows e palestras ilustram a importância e a contribuição do dramaturgo alemão Bertold Brecht para a história do teatro e para a história da luta contra a opressão.

No próximo dia 14 de agosto, comemora-se o cinquentenário da morte de Bertold Brecht. A partir desta quinta-feira, 09 de agosto, uma série de estréias de peças, shows de música de seus espetáculos, seminários, workshops e debates marcam a data em todo o Brasil.
Ugen Friedrich Bertolt Brecht nasceu em 10 de fevereiro de 1898 em Augsburgo, Baviera, Alemanha. Em 1913 começou sua produção literária, ainda na escola. Escrita em 1918 e encenada em 1923, Baal é considerada a primeira grande peça do dramaturgo e poeta na fase inicial de sua obra. A partir da peça Um homem é um homem (1926), Brecht começa a se interessar pelo estudo do marxismo e a aplicação no campo estético. No final dos anos 30, ele começa a teorizar sobre o teatro épico como de superação da forma dramática.
Com a ascensão de Adolf Hitler e a Segunda Guerra Mundial, Brecht partiu para o exílio em países da Europa e acabou por fixar-se nos Estados Unidos, onde foi perseguido pelo movimento anti-comunista conhecido como Macarthismo. Retornou à Alemanha em 1945 e trabalhou em seu teatro, o Berliner Ensemble, nos últimos oito anos de vida, até falecer em 14 de agosto de 1956. Sua obra teatral abrange 50 peças, dentre as quais se destacam Mãe Coragem, Galileu, Galilei, Santa Joana dos Matadouros e O círculo de giz caucasiano, que trata da questão da disputa pela terra e que estréia no dia 09, no CCBB-Rio, com a Companhia do Latão e fica em cartaz até 24 de setembro.

O Círculo de giz caucasiano ganha montagem no Rio

"Obra-prima do teatro moderno" é como o poeta e tradutor Manuel Bandeira define O círculo de giz caucasiano, ao traduzir este que é um dos mais consagrados textos do dramaturgo alemão. E é a versão de Bandeira que a Companhia do Latão, grupo brasileiro dedicado ao universo brechtiano, estréia a convite do próprio CCBB para homenagear o dramaturgo alemão que uniu arte e política deixando um legado fundamental para o teatro moderno, abordando questões pertinentes até os dias de hoje. A tradução de Bandeira para O círculo de giz caucasiano foi encenada pela última vez em 1963, pelo Teatro Nacional de Comédia (TNC).
O círculo de giz caucasiano foi escrito no final da Segunda Guerra Mundial, durante o exílio de Brecht nos EUA, e aborda a discussão sobre a disputa de terras. Um grupo de agricultores e outro de criadores de cabras disputam a posse de um vale fértil, cuidado e defendido dos nazistas durante a guerra pelos agricultores. A questão chega a bom termo, dando lugar à uma fábula, a história do círculo de giz caucasiano, passada na Geórgia, sobre a disputa de uma criança.
O espetáculo conta com a participação especial do grupo Filhos da Mãe Terra, formado por crianças e adolescentes do Movimento dos Sem Terra (MST), do assentamento Carlos Lamarca, localizado na região de Sarapuí, no interior de São Paulo. Eles estão no vídeo que é utilizado como prólogo da encenação. "Essa montagem tem o objetivo de repensar o legado artístico de Bertolt Brecht em relação ao Brasil atual", pontua o diretor do espetáculo Sérgio de Carvalho.

"Talvez o principal aspecto da forma épica criada por Brecht seja a historicização dos acontecimentos. Não se procura mostrar a vida como ela é, mas como não deveria ter se tornado. O público é quem realiza o sentido da cena ao pensar sobre os subterrâneos dos fatos observados, ao estabelecer o vínculo interrogativo entre uma história que se mostra incompleta e suas causas sociais e econômicas", explica o diretor Sérgio de Carvalho.
"Escolhi esse texto por ser um clássico e por discutir a questão da terra. Acho o momento perfeito para essa encenação", observa Sérgio de Carvalho. A montagem envolve uma super-produção: elenco de 11 atores que se dividem em 50 personagens ao longo de 2h40, com intervalo; a montagem é permeada por 21 canções especialmente compostas por Martin Eikmeier; dois músicos estarão em cena tocando cello, piano, instrumentos orientais e rabeca.

Universo musical das peças de Brecht com Cida Moreira

Baseado no disco "Cida Moreira interpreta Brecht", Cida Moreira apresenta em São Paulo o show "Aos Que Estão Por Vir - Um Concerto Cabaret", dias 11 e 12 de agosto, no Tom Jazz. A magia dos cabarés concertos é a base para o show que inclui músicas de Bertolt Brecht. Entre elas, estão as canções "Balada do Soldado Morto", "Surubaya Johnny" e "Speak Low".
A maior cantora de Brecht do Brasil, Cida Moreira começou sua carreira no teatro. Em 1977 estreou na peça "A Farsa da Noiva Bombardeada", de Alcides Nogueira e, no ano seguinte, foi convidada a fazer parte do grupo Ornitorrinco, então dirigido por Luiz Roberto Galizia, Cacá Rosset e Maria Alice Vergueiro. O espetáculo O Teatro do Ornitorrinco Canta Brecht e Weill foi início para sua carreira na música e abriu as portas para que Cida seguisse com seus trabalhos com a poesia de Bertolt Brecht e a música de Kurt Weill.

Na selva das cidades

Será encenada em várias cidades do Brasil (São Paulo, Santos ou Ribeirão Preto (SP), Salvador, Guaramiranga (CE), Fortaleza e Brasília) a peça Na Selva das Cidades - a luta de dois homens na megalópole de Chicago que foi escrita por Bertolt Brecht entre 1921 e 1923 e encenada pela primeira vez em Munique em 9 de abril de 1923. Situada, na versão original, no coração financeiro da grande depressão norte-americana, na versão do diretor Frank Castorf para o Teatro da Volksbühne, a Chicago deixa de ser americana para tornar-se um lugar exótico e sem nenhuma personalidade, podendo estar localizado nos trópicos, na América, ou em bairro qualquer de imigrantes em uma grande cidade. O espetáculo, apresentado em fevereiro deste ano ao público berlinense, será adaptado no Brasil com atores e uma equipe técnica locais, sendo seu cenário inteiramente reconstruído em São Paulo.

Brecht e a contemporaneidade da peça didática

O evento "Brecht e a contemporaneidade da peça didática" reúne seminário, oficinas e experimentos cênicos para apresentar e debater uma fatia ainda pouco conhecida da produção artística de Bertolt Brecht no cenário brasileiro: a teoria e a prática das "peças didáticas", os Lehrstücke. Estruturado como um grande seminário prático e teórico, o projeto busca refletir sobre as implicações e derivações desta tipologia dramatúrgica no teatro contemporâneo, reunindo não apenas especialistas e pesquisadores da obra de Brecht, mas diretores, grupos de teatro, educadores e interessados. Ao longo de quatro semanas, as peças e formulações de Brecht serão discutidas, confrontadas e postas em prática em oficinas, debates e experimentos cênicos por uma equipe de primeira linha. Concebido pelas atrizes Magali Biff e Maria Tendlau e pela diretora Dedé Pacheco: o evento, contará com a presença de Hans-Thies Lehmann, um dos mais destacados teóricos do teatro contemporâneo (autor, entre outros, de O teatro pós-dramático e O Teatro Político); dos professores e brechtianos Ingrid Koudela, José Antônio Pasta Jr., Iná Camargo Costa e Maria Lucia Pupo; do dramaturgo Luis Alberto de Abreu, além das companhias de teatro Coisa Boa, Paidéia, Márcio Aurélio e Trupe, Cia São Jorge de Variedades, Cia do Latão, Cia Livre, e dos atores Celso Frateschi e Roberto Lage.

Palestras Hans-Thies Lehmann

Hans-Thies Lehmann é um dos mais destacados e atuantes pensadores do teatro contemporâneo. Professor titular da Universidade J. W. Goethe em Frankfurt am Main, Lehmann é autor de livros seminais sobre o teatro atual e do pós-guerra, dentre os quais se destacam Teatro Pós-Dramático, de 1999 (com lançamento no país previsto para este ano); Theater und Mythos - Die Konstitution des Subjekts im Diskurs der antiken Tragödie (Teatro e Mito - A constituição do sujeito no discurso da tragédia antiga) , de 1991; The Brecht Yearbook, de 1992 (com Renate Voris); Das politische Schreiben. Essays zu Theatertexten (A escrita política), de 2002, e Heiner Müller Handbuch (com P. Primavesi), de 2004. Além das várias publicações e de atuar como professor visitante na França, na Lituânia, na Polônia, nos EUA e no Japão, Lehamnn já tomou parte em inúmeros projetos teatrais, trabalhando como dramaturgo com os diretores Jossi Wieler, Peter Palitzsch, Christof Nel, Theodoros Terzopoulos, e desenvolvendo projetos cênicos próprios; é integrante do conselho editorial da revista Performance Research, fundador e co-diretor da Frankfurter Internationalen Sommerakademie e membro da Academia Alemã de Artes Cênicas, além de colaborador em diversas revistas européias e norte-americanas.
As palestras acontecem em São Paulo nos dias 18 a 21 de setembro, em Brasília no dia 22 de setembro, em Salvador, 25 de setembro e no Recife, em 27 de setembro.



 

 

 

 

 

 





Brecht e o Brasil

Por Fernando Marques, Revista Cult nº 105, agosto de 2006.

Se é verdade que escrever em português pode, ainda hoje, confinar um autor a circuitos relativamente restritos, produzir em alemão tampouco garante divulgação internacional imediata. Embora muito prestigiosa, a literatura de língua alemã precisou, freqüentemente, do passaporte das traduções francesas ou inglesas para alçar os seus escritores à notoriedade global.
O alcance do idioma será, quando menos, um dos fatores capazes de explicar o fato de que o dramaturgo, poeta e pensador alemão Bertolt Brecht, nascido em 1898 e morto há 50 anos, a 14 de agosto de 1956, só viria a ser mundialmente festejado depois que peças como Mãe Coragem chegaram às salas de Paris e Londres. Outro fator liga-se ao exílio: Brecht, a exemplo do que fizeram tantos intelectuais, fugiu da Alemanha encampada pelos nazistas em 1933, trocando de país "como quem troca de sapatos" (até o retorno em 1948), o que dificultou a difusão menos tardia de suas peças e idéias.
Costuma-se marcar a data de chegada de Bertolt Brecht ao Brasil pela primeira montagem profissional de um de seus maiores textos, A alma boa de Setsuan, encenado em São Paulo com Maria Della Costa, sob a direção do italiano Flaminio Bollini, em 1958. A fase de "deglutição" local do autor vai de 1958 a 1978, ano em que estréia a Ópera do malandro, de Chico Buarque, resposta à Ópera dos três vinténs, de Brecht e Kurt Weill.
No entanto, diga-se, o contato brasileiro com o teatro brechtiano não se fez esperar demais. Ao mesmo tempo em que se começava a falar amplamente de Brecht na Europa, devido a "uma versão bastante comovente de Mãe Coragem", em Paris, segundo informa o biógrafo Frederic Ewen, ocorria por aqui a montagem - com alunos da Escola de Arte Dramática, em São Paulo - de A exceção e a regra. Esta é uma das peças denominadas pelo autor de "didáticas": breves textos destinados à elaboração de questões éticas e políticas. O ano era o de 1951.
A exceção e a regra, escrita em 1930, e a bem-humorada (e pungente) Alma boa de Setsuan, de 1940, abordam o tema da bondade impossível, num mundo monitorado pelo egoísmo; ambas ficaram como marcos inaugurais da recepção de Brecht no Brasil certamente porque obtiveram registros na imprensa. Mas (sem querer exasperar o leitor com problemas de genealogia) anoto que, de acordo com Wolfgang Bader, organizador da coletânea Brecht no Brasil (1), o marco inicial cabe mesmo a Terror e miséria do Terceiro Reich, encenada em 1945, em São Paulo, "por alemães exilados, que nos anos de 1940 começam diversas atividades teatrais aqui".
O sentido inicial das montagens brechtianas no país, sentido que se vai desdobrar em caminhos correlatos nos anos seguintes, relacionou-se à luta contra o fascismo, verberado já no título da peça. Bader e Fernando Peixoto (que, na mesma coletânea, também alude a Terror e miséria do Terceiro Reich) limitam-se a mencionar a montagem de 1945, sem fornecer outros dados a seu respeito, sinalizando que a memória do espetáculo em boa parte se perdeu. Mas o texto seria revisitado, nos anos de 1960, pelos encenadores Antonio Abujamra, Paulo Afonso Grisolli e Amir Haddad.
Significativa, também, foi a inclusão de um dos episódios que compõem a peça, chamado "O delator", no espetáculo-colagem Liberdade, liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, sucesso no Rio de Janeiro de 1965, já, portanto, em tempos pós-Golpe. Paulo Autran e Tereza Rachel representavam os pais que temem ser denunciados como opositores do regime pelo próprio filho, não mais que um menino. Evidenciava-se um dos traços da presença brechtiana: o dramaturgo ajudou a politizar o teatro nacional ou, por outra, emprestou instrumentos de análise e crítica, ideológicos e estéticos, a dramaturgos, atores e diretores brasileiros, na fase em que os palcos se tornaram praça de resistência ao regime militar instalado em 1964.
A tradução para o inglês de A alma boa de Setsuan e de O círculo de giz caucausiano, pelo norte-americano Eric Bentley, peças publicadas em 1948 (Bentley divulgou a obra de Brecht nos Estados Unidos, onde o dramaturgo passou a fase final do exílio), permitiu ao crítico Décio de Almeida Prado ler o autor, para depois comentá-lo a propósito de A exceção e a regra, poucos anos mais tarde. Já Sábato Magaldi viu pela primeira vez uma peça de Brecht em Paris, em 1953. Era Mãe Coragem, a história da tragicômica mulher que se sustenta como vendedora ambulante em plena guerra, metáfora dos que pretendem se valer das situações de conflito e caos, delas aferindo vantagens (a obtusa Coragem perde seus três filhos, um a um, ao longo da história).
Sábato não gostou, contudo, da encenação de Jean Vilar: "Não vou esconder que fiquei muito decepcionado: achei o espetáculo por demais cansativo, e o público se enfadava todo o tempo" (2). Efeito, quem sabe, de tratamento excessivamente literal do teatro épico proposto pelo escritor, teatro em que a ação dramática está constantemente emoldurada por expedientes narrativos (cartazes e canções, entre outros), destinados a evitar a simples identificação emocional entre público e espetáculo, privilegiando-se a atitude racional. Para Brecht, o mundo (resumido em cena) deve aparecer como passível de ser modificado pela vontade consciente, jamais como inacessível a mudanças objetivas.
Houve acertos e desacertos na recepção dada à obra na França ou aqui. O crítico Yan Michalski inicia depoimento de 1986 dizendo precisamente isto: "Brecht forneceu a matéria-prima literária e teórica para alguns dos mais equivocados momentos da cena brasileira dos últimos 30 anos, e para alguns dos seus momentos mais iluminados e enriquecedores". Compreensão limitada do famoso "efeito de distanciamento"(3), preconizado pelo também diretor Brecht (o ator deve afastar-se de seus personagens, buscando pensar e fazer pensar sobre eles), possivelmente responde por alguns daqueles equívocos.
Já os acertos se devem a uma utilização criadora, pouco subserviente, das idéias do autor. O que se verificou também nos espetáculos que não se basearam em textos de Brecht, mas foram de algum modo inspirados por suas concepções, caso da comédia Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, integrantes do Grupo Opinião. O espetáculo estreou no Rio, em 1966, sob a direção de Gianni Ratto.
No prefácio ao Bicho, os autores aludem a procedimentos não-realistas que ajudariam a representar melhor a própria realidade. Depois de situar as fontes da comédia na literatura popular (no caso, o cordel e a farsa nordestina), dizem: "A literatura popular e a grande literatura sempre tiveram um ponto fundamental em comum: a intuição da arte dramática como uma manifestação de encantamento, de invenção"(4). Encantamento, segundo eles, é justamente "o que Brecht repõe na literatura dramática".
Vianna e Gullar esclarecem, referindo-se implicitamente ao humor e ao caráter lúdico também presentes nas peças do escritor alemão: "Mas quando falamos em encantamento, não estamos querendo dizer envolvimento passional. Com encantamento queremos dizer uma ação mais funda da sensibilidade do espectador que tem diante de si uma criação, uma invenção que entra em choque com os dados sensíveis que ele tem da realidade, mas que, ao mesmo tempo, lhe exprime intensamente essa realidade". O efeito, no Bicho, seria o de uma incisiva caricatura das relações políticas no Nordeste dos coronéis e, por analogia, em todo o país. Já nos anos de 1970, o Grupo Opinião recorre, em O último carro (1976), de João das Neves, peça ambientada num trem de subúrbio, à técnica de composição por cenas isoladas, eminentemente épica.
O Teatro de Arena de São Paulo esteve fortemente relacionado à estética de Brecht, reelaborando-a criativamente. Dois espetáculos devem ser destacados nesse sentido: Arena conta Zumbi, de 1965, e Arena conta Tiradentes, de 1967, ambos escritos por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri.
As lições relativas às técnicas épicas reaparecem no Arena sob a forma da narração coletiva e da dissociação de atores e personagens (um mesmo papel pode ser interpretado por diversos atores, o que dilui a empatia e reforça o exame crítico das situações), como se deu em Zumbi. Ou, ainda, sob a figura do Coringa, espécie de mestre de cerimônias que conta a história e encarna o ponto de vista autoral, como em Tiradentes. Boal articula, na ocasião, o Sistema do Coringa e, depois, as técnicas do Teatro do Oprimido, em certa medida derivadas de matrizes brechtianas.
De volta aos textos do próprio Brecht, lembre-se Galileu Galilei, encenado pelo Grupo Oficina em 1968, com estréia no mesmo dia em que se editou o AI-5, pelo qual os militares cassavam as liberdades públicas. Tendências racionalistas, de índole marxista, e irracionalistas, estas ligadas à contracultura que então se afirmava, batiam-se dentro do grupo, o que resultou em espetáculo híbrido (e bem-sucedido): o texto de Brecht narra a história do astrônomo renascentista para ressaltar os poderes críticos e a responsabilidade política da ciência, enquanto a montagem dirigida por José Celso Martinez Corrêa sublinhava uma das cenas, a do carnaval, até a embriaguez, como se correntes contrárias se chocassem no interior do mesmo espetáculo.
A Ópera do malandro vem atualizar a Ópera do mendigo (1728), do inglês John Gay, e sua descendente alemã, 200 anos mais velha, a Ópera dos três vinténs, de Brecht e Weill. Esta já havia sido encenada (por exemplo) sob a direção de José Renato, em 1964; a adaptação de Chico Buarque, apoiada em convivência já extensa dos brasileiros com a obra de Brecht, traz a ação para o Rio de meados dos anos de 1940, quando a ditadura de Vargas chegava ao fim e o país entrava numa fase de ambígua modernização capitalista.
Em lugar de replicar o niilismo existente na Ópera dos três vinténs, Chico e o diretor Luís Antônio Martinez Corrêa acentuaram seus aspectos de crítica política, satirizando o clima de engodo que se armava no segundo pós-guerra, quando os Estados Unidos se confirmavam no papel de líderes do mundo "cristão e ocidental". Propunha-se analogia do passado, os anos de 1940, com a atualidade, a década de 1970, momento em que se continuava a promover, por aqui, o banquete das elites.
O que permanece válido em Brecht, agora? Conforme notou Roberto Schwarz no artigo "Altos e baixos da atualidade de Brecht", de 1999 (5), a obra do dramaturgo carece hoje de revisão e de crítica, dado que premissas importantes de seu trabalho perderam força. O primeiro pressuposto vencido é o de que o mundo caminharia para uma ordem solidária ou socialista: não foi o que ocorreu. Já a segunda premissa refere-se ao arsenal das técnicas épicas, que parecem gastas. Os recursos de quebra da ilusão cênica e, por extensão, política, tomados tal e qual Brecht os compreendeu, apropriados inclusive pela publicidade, deixaram de ser eficazes.
Schwarz diz também, no entanto, que o reexame das peças pode nos reconduzir a bons achados. Um exemplo: o ácido retrato de um capitalismo amoral, como que absoluto, isento de culpas ou recalques, exposto em Santa Joana dos Matadouros. Ao parodiar a literatura clássica alemã, fazendo-a falar o jargão das negociatas, a peça ilustra o quanto há de vivo na ampla obra do dramaturgo.

A receita vale para outros grandes textos do autor, que se mantêm atuais, até porque a realização das esperanças de mundo melhor teve mesmo de ser adiada por tempo indeterminado. Nosso mundo, meio século mais velho que o de Brecht, guarda pontos de contato fundamentais com o dele. O que, aliás, não é de se comemorar.

NOTAS

1. BADER, Wolfgang. Brecht no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1987.
2. in Brecht no Brasil, pág.223
3. in Brecht no Brasil, pág 226
4. VIANNA FILHO, Oduvaldo e GULLAR, Ferreira. Se corre o bicho pega, se ficar o bicho come. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966
5. SCHWARZ, Roberto. "Altos e baixos da atualidade de Brecht", in Seqüências brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Fernando Marques é jornalista, poeta e compositor, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília com tese sobre teatro musical. Publicou Retratos de mulher (poemas, Varanda) e Zé (teatro, Perspectiva).

 

 

 

 

 

 

 





50 anos sem Brecht

Por Gislaine Gutierre, Diário do Grande ABC, 13 de agosto de 2006.

Nesta segunda-feira faz 50 anos que o mundo perdeu uma de suas mais importantes figuras do teatro: Bertolt Brecht (1898-1956). Mas não é o caso de tirar poeira de seu legado para fazer justiça à sua memória. O criador do teatro do distanciamento, que via na encenação objetiva uma forma de despertar a consciência do público, e assim provocar mudanças na sociedade, continua inspirando atores, dramaturgos e diretores no mundo inteiro.
"Brecht é atualíssimo", sentencia o diretor da paulistana Companhia do Latão, Sérgio de Carvalho, que na quarta-feira (dia 9) estreou no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Rio, um dos clássicos do dramaturgo alemão, O Círculo de Giz Caucasiano, espetáculo que deve vir a São Paulo ainda este ano.
A produção teatral na região também se desenvolve sob o signo de Brecht. Alunos do segundo ano do Núcleo de Formação de Atores da ELT (Escola Livre de Teatro) de Santo André exercitam sua desafiadora tese de interpretação numa experiência que a princípio os levou a um "estado de catatonia", como afirma o professor Alexandre Mate.
Em São Paulo, as celebrações extrapolam as cercanias do teatro e colocam em pauta, no evento As Brechtianas, canções, poemas e cenas curtas baseadas em seus escritos. São oito dias de atividades no Sesc Pompéia.
O Teatro Fábrica São Paulo abriga as montagens do Teatrosamba do Caixote, que se vale da música e do teatro para transitar pelo universo brechtiano. No mesmo espaço, há a promessa de acaloradas conversas fomentadas no ciclo de debates Em Torno de Górki e Brecht.
Na Índia, suas teorias ajudam a nortear o teatro local desde os anos 60. Os textos, porém, não são traduzidos e o fazer teatral no país quase sempre passa pelo filtro brechtiano. Os artistas se valem do modo de interpretação preconizado pelo alemão, da música e da dança para levar ao público dramas que expõem a realidade local.
Na África, Brecht vem sendo adaptado e retrabalhado desde os anos 70, também dentro do contexto local. Dada a popularidade de Brecht em Israel, a Universidade de Tel Aviv abrigou uma conferência acerca das mudanças que sofreram as interpretações sobre sua arte desde os anos 80, explorando facetas envolventes deste filósofo, poeta, dramaturgo e diretor socialmente engajado, para quem a eterna mudança e suas concomitantes e constantes contradições eram uma máxima.
Para o doutor em Literatura Ricardo Lísias, precisamos voltar a ser brechtianos. Opinião parecida tem a estudiosa de Brecht e tradutora de diversas peças suas, Christine Röhrig: "O que nos falta é mais Brecht que nos estimule à indignação. Ele faz uma falta enorme e faz diferença mesmo na questão política".

 

 

 

 

 

 

 

 





Justiça em nome de Bertolt Brecht

Por Macksen Luiz, Jornal do Brasil, 18 de agosto de 2006.

A projeção de um filme com um grupo do Movimento dos Sem Terra, que serve como prólogo e define a encenação de O Círculo de Giz Caucasiano pela Companhia do Latão, reconfirma o caráter nominalmente político do texto de Bertolt Brecht. Mais do que provocar uma aproximação da peça a uma circunstância ou sensibilizar para uma cena agit-prop, a montagem de Sérgio de Carvalho se interpreta por este prólogo, através do qual uma situação política é levada ao palco como introdução à parábola brechtiana.
Estabelecidos os seus termos, para não deixar qualquer duvida sobre o que quer dizer e do que fala, a encenação encontra tradução cênica que desarma a fábula para o espectador. Senão para avalizar correspondências com a atualidade, pelo menos para permitir que a narrativa se revele com suas variantes possibilidades.
Ao contrário da maioria de sua dramaturgia, em que as razões sociais podem explicar mas não absolver alguns traços da realidade humana, Brecht, em O Círculo de Giz Caucasiano, se mostra mais flexível diante das contradições. A ponto de concluir, ainda que por vias transversas, que a justiça pode ser feita. O que esta narrativa propõe pelo paroxismo das inversões é constatar como é "terrível a tentação da bondade", concluindo que "o bem comum, o coletivo, triunfa".
Dividido em duas partes, fora o prólogo, o texto acompanha