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O
Círculo de Giz Á BRASILEIRA - A COMPANHIA DO LATÃO VISITA HAVANA
"GRAÇAS a uma temporada de teatro internacional organizada pelo Conselho Nacional das Artes Cênicas, assistimos em Havana à encenação de O Círculo de Giz Caucasiano pela Companhia do Latão, do Brasil."
Por Mireya Castañeda, Jornal Granma Internacional, 21 de setembro de 2007.
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"O
Círculo de Giz Caucasiano" celebra Bertolt
Brecht no Rio
"Estreou no Centro Cultural
Banco do Brasil do Rio de Janeiro "O Círculo
de Giz Caucasiano", texto do dramaturgo alemão
Bertolt Brecht, considerada uma das grandes obras
da dramaturgia moderna. Concebido como uma ópera
oriental, a cena é apresentada no palco através
do canto."
Por Alexandre Souza, Jornal Hora
do Povo, Ano XVII nº 2491, de 11 a 15 de agosto
de 2006. |
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Mensagens na garrafa
"Nos diários
de trabalho, o Brecht escreveu: 'Numa sociedade como
esta, a única coisa a ser feita é colocar
mensagens na garrafa'. A algum lugar essas mensagens
vão chegar."
Por Ana Paula Sousa, Carta Capital,
São Paulo, ano XII, nº 404, 02 de agosto
de 2006 |
A arte viva
de Brecht, 50 anos depois
"A montagem de O Círculo de Giz Caucasiano,
pela Companhia do Latão, no Centro Cultural Banco
do Brasil (CCBB), lembra os 50 anos da morte do dramaturgo
Bertolt Brecht, com um enfoque do século 21.
"
Por Beatriz Coelho Silva, O Estado de São Paulo,
Caderno 2, 14 de agosto de 2006 |
Recado político
de Brecht, levado em espetáculo tocante
"Na montagem de O Círculo de Giz
Caucasiano o primeiro e forte impacto positivo vem
com a pertinente recriação do prólogo,
que vai além da mera atualização
temporal ou temática."
Por Beth Néspoli |
Dez anos de coerência artística
A prática aliada
ao vigor teórico é um dos elementos de
uma companhia que propõe uma relação
com o espectador distante da acomodação.
"Ao assistir a um dos nossos espetáculos,
o público não apenas recebe mas exerce
uma determinada função", assinala
Sérgio.
Por Daniel Schenker Wajnberg,
Tribuna da Imprensa, 09 de agosto de 2006.
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Por
que ver "O Círculo de Giz Caucasiano"
Tradução
de Manuel Bandeira e montagem dirigida por Sérgio
de Carvalho valorizam a força poética
do texto original de Bertolt Brecht
Por Hélio Ponciano, Revista
Bravo!,ano 9, agosto de 2006 |
Cia. do Latão atualiza
fábula de Brecht
Grupo crê que o socialismo
está em ´reconstrução`
e estréia ´O Círculo de Giz Caucasiano`,
onde discute ocupação de terra.
"O Círculo"
abre e fecha falando de terra. Questiona em que medida
sua ocupação é justa ou legal,
prato cheio para uma companhia que busca pensar Brecht
no contexto do capitalismo atual e do Brasil, sociedade
da periferia do mundo, no dizer de Carvalho.
Por Valmir Santos e Sérgio Sálvia Coelho,
Folha de São Paulo, 09 de agosto 2006 |
Cinquentenário Brecht
Estréias de peças,
seminários, workshops, debates, shows e palestras
ilustram a importância e a contribuição
do dramaturgo alemão Bertold Brecht para a
história do teatro e para a história
da luta contra a opressão.
Por Eduardo Carvalho, Agência Carta Maior, 09
de agosto de 2006 |
Brecht e o Brasil
Se é verdade que
escrever em português pode, ainda hoje, confinar
um autor a circuitos relativamente restritos, produzir
em alemão tampouco garante divulgação
internacional imediata.
Por Fernando Marques, Revista Cult nº 105, agosto
de 2006. |
| 50 anos
sem Brecht
O criador do teatro
do distanciamento, que via na encenação
objetiva uma forma de despertar a consciência
do público, e assim provocar mudanças
na sociedade, continua inspirando atores, dramaturgos
e diretores no mundo inteiro.
Por Gislaine Gutierre, Diário do Grande ABC,
13 de agosto de 2006.
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| Justiça
em nome de Bertolt Brecht
Estabelecidos
os seus termos, para não deixar qualquer duvida
sobre o que quer dizer e do que fala, a encenação
encontra tradução cênica que desarma
a fábula para o espectador. Senão para
avalizar correspondências com a atualidade,
pelo menos para permitir que a narrativa se revele
com suas variantes possibilidades.
Por Macksen Luiz, Jornal do
Brasil, 18 de agosto de 2006. |
O Palco como palanque
A tradução que o poeta Manuel Bandeira
fez da peça "O círculo de giz caucasiano",
de Bertolt Brecht, nos anos 60, andava esquecida, até
que a editora Cosac Naify reeditou há pouco o
livro e um exemplar foi parar nas mãos de Sérgio
de Carvalho.
Por Mauro Ventura, O Globo, Segundo Caderno, 10 de agosto
de 2006 |
Cia. do Latão
encena seu 2º grande Brecht
Grupo muito identificado com o pensamento e
a dramaturgia do alemão Bertolt Brecht (1898-1956),
a Companhia do Latão se volta mais uma vez
a um texto do seu grande guru. "O Círculo
de Giz Caucasiano", em versão traduzida
por Manuel Bandeira, estréia amanhã
(dia 2) na Unidade Provisória Sesc Avenida
Paulista.
Por Pedro Ivo Dubra, Folha de São Paulo, Guia
da Folha, 1º de dezembro de 2006.
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Erros que resistem às décadas
"É preciso defender o teatro épico
contra qualquer suspeita de se tratar de um teatro
desagradável, tristonho e fatigante" escreveu
Brecht após os ataques conservadores contra
seus primeiros trabalhos.
Por Sérgio de Carvalho, O Globo, 20 de setembro
de 2006. |
Latão
põe sistema jurídico em xeque
Quando assistiu a uma montagem de "O Círculo
de Giz Caucasiano" pela lendária companhia
alemã Berliner Ensemble, em 1955, o pensador
francês Roland Barthes (1915-1980) escreveu que
a peça "realiza uma dupla intenção
do teatro de Brecht: despertar e alimentar a consciência
política do espectador e, ao mesmo tempo, garantir
seu prazer mais franco, pois o teatro é feito
para divertir".
Por Valmir Santos, Folha de São Paulo, 2 de dezembro
de 2006. |
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O Círculo de Giz à brasileira - A Companhia do Latão visita Havana |
| Por Mireya Castañeda, Jornal Granma Internacional, 21 de setembro de 2007.
Graças a uma temporada de teatro internacional organizada pelo Conselho Nacional das Artes Cênicas, assistimos em Havana à encenação de O Círculo de Giz Caucasiano pela Companhia do Latão, do Brasil.
Trata-se de uma encenação mista, clássica e experimental da obra de Bertold Brecht, um autor muito acompanhado por este grupo de teatro que, formado há mais de 10 anos, tem sua sede em São Paulo. Uma montagem poderosa, intensa e coerente.
Os brasileiros se apresentaram no teatro Hubert de Blanck e tiveram uma comunicação forte com o público, apesar do texto na íntegra, de uma duração de três horas e meia e de outro idioma. Embora os atores tivessem pequenas interferências em espanhol para ajudar, a compreensão não foi muito fácil para o público, nomeadamente durante os monólogos.
Mas sem dúvida, o novo prólogo foi muito interessante. Devemos lembrar que Brecht escreveu um prólogo para O Círculo de Giz baseado no pós-guerra alemão. Os brasileiros o atualizaram e apresentaram um vídeo realizado por um grupo de camponeses artistas do MST. No documentário, os camponeses falam sobre o texto de Brecht e o reinterpretam
No vídeo, De Carvalho faz outras pequenas interferências no texto, por exemplo, enquanto Brecht utiliza um narrador, os brasileiros utilizam vários narradores.
O diretor da companhia, Sergio de Carvalho, conversou com o Granma Internacional sobre o grupo e as obras.
Qual a sua opinião sobre o movimento de teatro em São Paulo?
Atualmente, temos um movimento teatral forte, em especial o cooperativo, para poder enfrentar a cultura como mercadoria, porque para nós um espectador não é um cliente. Por isso, já realizamos duas temporadas de teatro latino-americano. Na última, de 30 de abril a 6 de maio, participou o grupo cubano Buendía, dirigido por Flora Lauten. O movimento de teatro cresce constantemente, com grupos que se opõem ao teatro comercial.
Quando foi criada a companhia e de que orçamento dispunham?
Estamos comemorando nosso 10º aniversário, e começamos a apresentar-nos com textos de Brecht, no contexto brasileiro, mas também fazemos teatro épico e crítico e escrevemos nossos próprios textos. Hoje, a companhia é referência de teatro crítico e politizado, sempre que for possível num país como o Brasil, de capitalismo avançado. Quando começamos, éramos um grupo de atores tentando realizar um espetáculo através do teatro dialético proposto por Brecht, mas com o propósito de produzir uma dramaturgia nacional contemporânea, que abordasse temas atuais de uma forma dramática e mais ampla do ponto de vista social. Enquanto muitos grupos incidiam sobre as emoções do público, envolvendo-os nos conflitos dos protagonistas, nós queríamos mais.
Por que esse nome do Latão...?
O nome procede dum texto teórico de Bertold Brecht de 1939, A Compra do Latão. Este é um texto de Brecht em que ele reúne diálogos, trechos teóricos, poemas, exercícios de teatro, é uma soma de seu pensamento. Fizemos um espectáculo com eles, Ensaio do latão e com o uso cotidiano terminamos sendo a Companhia do Latão, nome que na obra de Brecht sugere o interesse pelo material. Brecht utiliza uma metáfora onde imagina um filósofo que chega a um grupo de atores e se compara com um comprador de ferro-velho. Esse comerciante de latões, bronzes, metais, participa do concerto de uma orquestra e termina pensando quanto custaria o quilo de metal dos instrumentos, sem sensibilizar-se com a música. Uma metáfora a partir de Marx, que logicamente está mais interessado na música que em saber quanto custa um quilo de metal. O texto de Brecht abre o debate sobre a função da arte, com uma posição mais avançada. A dimensão teórica, a proposta de um teatro dialético, foram a base para a formação artística do nosso grupo.
Desde o início, começaram com Brecht...?
Utilizamos Brecht como modelo que precisa ser atualizado, pois ele escreveu para uma época, com uma luta de classes diferente. Através da experimentação estética tentamos levar suas obras a nossa realidade. Eu penso que é muito importante quando a gente utiliza um modelo artístico tão forte como Brecht, pensá-lo a partir de suas necessidades históricas e de vida. A tradição clássica deve ser pensada no seu próprio contexto, e seus públicos, e isso é um processo de aproximação experimental. Nestes dez anos, experimentamos o que significa utilizar essa tradição em um país como o nosso, na periferia do capitalismo, com uma história colonial, com heranças perversas da escravidão, tudo isso precisa ser apresentado e estes não são temas de que Brecht tratava. Não contextualizamos sua obra no sentido reto, apenas mostramos a diferença histórica. Das 15 obras de nosso repertório, três são de Brecht, Santa Joana dos Matadouros, Os dias da Comuna e O Círculo de Giz Caucasiano, a mais recente.
A Companhia do Latão, quer com as obras de Brecht, quer com as de Machado de Assis, com textos de Heiner Müller (Sobre equívocos colecionados), com leituras sobre a ópera Johann Faustus, de Hanns Eisler ou com o Ensaio para Danton, baseado na obra A Morte de Danton, de Georg Büchner, apresenta extraordinárias encenações, sempre atualizadas, para um espectador que, como bem afirmam, não é um simples cliente.
http://www.granma.cu/portugues/2007/septiembre/vier21/38brasileno-p.html
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"O Círculo de Giz Caucasiano"
celebra Bertolt Brecht no Rio
|
| por Alexandre Souza, Jornal
Hora do Povo, Ano XVII nº 2491, de 11 a 15 de agosto
de 2006
Estreou no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio
de Janeiro "O Círculo de Giz Caucasiano",
texto do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, considerada
uma das grandes obras da dramaturgia moderna. Concebido
como uma ópera oriental, a cena é apresentada
no palco através do canto.
A montagem do CCBB, que homenageia os 50 anos de morte
de Brecht, está a cargo do diretor e dramaturgo
Sérgio de Carvalho, que traz ao palco os atores
da CIA do Latão, grupo que há anos se
aprofunda na obra de Brecht, e artistas de diversas
companhias convidados especialmente para esta montagem.
É uma superprodução, com 11 atores
no palco, 21 canções especialmente compostas
para a peça e dois músicos em cena tocando
cello, piano, instrumentos orientais e rabeca.
Este texto, escrito durante o exílio de Brecht
nos EUA entre 1944 e 1945, retrata a Alemanha do final
da II Guerra Mundial, onde o clima de desespero e desolação
recai nas relações do povo, que começa
a indagar sobre o seu futuro e suas perspectivas.
A disputa global e a formação de impérios
dão o foco da narrativa, trazendo à tona
os receios e questionamentos de um povo sem rumo, perdidos
entre o ódio e a desesperança fomentados
por Hitler.
As narrativas são concêntricas e se passam
em diferentes momentos e regiões. O prólogo
da peça, que dá início à
reflexão, se passa entre um grupo de camponeses
que se reúnem para discutir o direito à
propriedade. Na segunda parte, quase como uma fábula,
Brecht invoca uma viagem pelos resquícios de
uma sociedade tirana através de uma empregada
da corte, que leva uma criança abandonada a várias
regiões. Em seguida, conta uma farsa de um juiz
beberrão, a qual se inspirou em uma peça
chinesa do século XIII.
A peça foi traduzida pelo poeta Manuel Bandeira,
que a considerava uma obra-prima do teatro épico,
e está fora dos palcos brasileiros desde 1963,
quando foi encenada pelo Teatro Nacional de Comédia,
com direção de José Renato.
O texto, escrito há mais de 60 anos, traz um
conteúdo extremamente atual, onde o imperialismo
ianque avança sobre os povos em sua sanha dominadora,
e se encontra frente à resistência dos
povos por suas soberanias, contra a guerra e a opressão.
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Mensagens na garrafa
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Por Ana Paula Sousa, Carta Capital, São Paulo, ano
XII, nº 404, 02 de agosto de 2006
A Companhia do Latão faz dez anos e prova que arte
politizada ainda tem vez
"Nos diários de trabalho, o Brecht escreveu:
'Numa sociedade como esta, a única coisa a ser feita
é colocar mensagens na garrafa'. A algum lugar essas
mensagens vão chegar." É essa a aposta
e é essa a prática do dramaturgo Sérgio
de Carvalho, diretor da Companhia do Latão. "O
que a arte pode fazer é tentar criar uma corrente de
reflexão que se irradie." Aproximar-se da Companhia
do Latão é ver ideais jorrarem. Às vésperas
de estrear O Círculo de Giz Caucasiano, de Bertolt
Brecht (1898-1956), que dá largada às comemorações
em torno de seus dez anos de vida, o grupo, exemplo bem-sucedido
de companhia, que ainda acredita na arte politizada, mostra
estar com todos os sonhos em dia.
No sótão da sede do Instituto Goethe, em São
Paulo, onde está sendo ensaiada a peça que entrará
em cartaz na Quarta-feira 9 de agosto no Centro Cultural Banco
do Brasil do Rio de Janeiro, o juiz Azdak, vivido por Ney
Piacentini, ator de primeira hora da companhia, indica o tom
da montagem:
- Teria sido uma época maravilhosa se a ordem tivesse
sido descuidada por mais tempo. Sustentei a pobreza em pernas
magras, meti o nariz no bolso dos ricos, portanto fui obsceno.
O tempo da confusão e da desordem acabou sem que os
grandes tempos tenham vindo.
À fala seguem-se teclado, violoncelo, violino e a voz
segura do elenco a entoar a melodia suave:
- Irmã, cobre a tua cabeça/ Irmão, vai
buscar tua faca./É tempo de destrambelhar/ É
tempo de destrambelhar/ Os grandes estão cheios de
queixas/ Os pequenos cheios de alegrias/ É tempo de
destrambelhar.
O Latão volta a Brecht, seu ponto de partida, a pedido
do CCBB, que queria lembrar os 50 anos da morte do dramaturgo
alemão. "Além disso, com esse texto acho
que entramos numa fase de retorno à origem. Retomar
o Brecht é retomar não só o desejo de
fazer um certo tipo de teatro, mas mergulhar de novo numa
prática de trabalho crítico", diz Carvalho.
A fala do diretor pode até soar a retórica.
Mas não é. Conforme desenovela suas idéias,
Carvalho vai tornando palpável um movimento que se
solidificou na última década: o das companhias
teatrais empenhadas em retomar a tradição política
e reflexiva que, nos anos 60, o Arena e o Oficina trouxeram
para os palcos brasileiros.
Hoje, enfileiram-se ao lado da Companhia do Latão,
nessa raia paralela à indústria cultural, grupos
como Vertigem, Folias D'Arte, Cia. Do Feijão, Cemitério
de Automóveis, Teatro Fábrica e o Oficina Uzyna
Uzona - para ficar apenas em exemplos paulistanos, boa parte
deles beneficiados pela Lei do Fomento da Prefeitura, que
premia anualmente companhias estáveis.
"A década de 80 era uma época de peças
mais ligadas à subjetividade. O teatro de grupo, nos
anos 90, tentou retomar uma tradição mais politizada
e, com isso, trouxe de volta o público universitário,
por exemplo" , avalia Piacentini, que é também
presidente da Cooperativa Paulista de Teatro. " Acho
que trocamos projetos individuais por projetos coletivos.
O que nós tentamos á ser a contraface da sociedade
do espetáculo, que compra o olhar do indivíduo
a todo custo."
Carvalho, que, além de dirigir o Latão, dá
aulas de dramaturgia e crítica teatral na Faculdade
de Artes Cênicas da USP, risca uma curiosa linha no
ambiente cultural para definir esse teatro que está
mais vivo do que nunca, mas não é aceitado pelo
chamado mainstream e depende de apoio do Estado para sobreviver.
"Quase todo teatro de grupo vive numa condição
fronteiriça, entre o amadorismo e o mercado. É
preciso energia para se manter nesse lugar, porque toda a
maré te empurra para a mercantilização.
A condição semi-amadora do teatro é triste
por refletir as condições precárias do
artista no País. Ao mesmo tempo, é boa por nos
manter fora da lógica do mercado", arrisca.
Neste momento da conversa, a porção professor
de Carvalho volta à tona e ele faz um parêntese
histórico. O diretor lembra que, no século XIX,
o teatro preservava a diferença social, com os ricos
bem instalados nos camarotes e os pobres espremidos em lugares
distantes no palco. No século XX, ao adotar uma estrutura
de suposta igualdade para todo o público, o teatro
deixou os pobres do lado de fora.
"Só viveríamos de bilheteria se cobrássemos
muito pelos ingressos. E aí fugiríamos do nosso
propósito", diz Carvalho, lembrando que no teatro,
como no cinema, a conta de custos e lucros não fecha.
"Só acho importante Ter em mente que um teatro
sustentado com dinheiro público deveria ser acessível
a todo mundo. Nós nos sentimos no dever de ir atrás
do público também." Apresentações
em escolas públicas e um trabalho com o MST, desde
1998, fazem parte desse plano de ir "onde o povo está".
E isso é assim desde 1996, quando Carvalho montou
o espetáculo (ao lado de Márcio Marciano, o
outro dramaturgo da companhia) que daria origem ao Latão:
Ensaio para Danton, baseado em A Morte de Danton, de Georg
Büchner. Mas a criação coletiva começou
a valer mesmo em 1997, quando venceram o edital para ocupação
do Teatro de Arena Eugênio Kusnet e mergulharam em Bertolt
Brecht, com o Ensaio sobre o Latão, e, no ano seguinte,
Santa Joana dos Matadouros. Vieram depois peças como
Auto dos Bons Tratos, sobre as relações de poder
num certo Brasil do século XVI, A Comédia do
Trabalho, o grande sucesso do grupo, com mais de 150 apresentações,
O Mercado do Gozo e Visões Siamesas, de Machado de
Assis. O grupo também edita uma revista, chamada Vintém.
Parte dessa história estará reunida, a partir
de 2007, nos livros, DVDs e CDs que integram o projeto Latão
10 Anos, contemplado pela Lei de Fomento e pelo Prêmio
Myriam Muniz, da Funarte. Também integra o projeto
a remontagem de O Nome do Sujeito, programada para novembro.
Mesmo criticada, algumas vezes, por tentar catequizar o público,
a companhia nunca arredou pé de seu propósito.
Faz as peças que quer. E como quer. "Vale mais
uma experiência de trabalho não alienado do que
o discurso sobre a não-alienação. Tentamos
criar um trabalho em que todos participem", teoriza Carvalho,
tocando na discussão entre capital e trabalho, que
tanto o atrai.
No ensaio de O Círculo de Giz Caucasiano é possível
depreender o sentido da teoria. "O populacho está
fora de controle. Já tomaram o subúrbio, senhora!",
diz um ator. Ao fim da cena, o produtor João Pissarra
chega com dois refletores debaixo do braço. É
o diretor quem os pendura. É o músico-ator que
ajuda a puxar os fios. E é outro ator que sugere o
próximo trecho a ser passado.
Pissarra, português de Leiria que está no Brasil
há um ano e meio, não quer saber de outra vida.
Advogado que mudou de país para trabalhar num escritório
de direito internacional, para "tratar de importações
e exportações", ele conheceu Piacentini
num bar. Cansado do direito, adorou o convite para ser bilheteiro
numa das peças do Latão. Agora, é o produtor
de O Círculo de Giz.
Esta peça, na definição de Carvalho,
é uma fábula sobre a terra. "Qual o critério
para que alguns tenham direito à terra e outros não?",
pergunta. Em busca do contato com o real, no prólogo,
serão levadas ao palco imagens de um assentamento de
sem-terra, em Sarapuí,no interior de São Paulo.
Enquanto, no texto original, o diálogo se dá
entre dois grupos de camponeses, nesta versão os atores
vão dialogar com as imagens de jovens que discutem
a própria experiência com a terra. "O Círculo
é uma tentativa de entender a força da coletividade.
A peça cria a expectativa da possibilidade de alguma
harmonia", aposta Piacentini. É mais uma mensagem
que o Latão coloca na garrafa que será atirada
ao mar.
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A arte viva de Brecht, 50 anos depois
|
| Por Beatriz
Coelho Silva, O Estado de São Paulo, Caderno 2, 14 de
agosto de 2006
Montagem de O Círculo de Giz Caucasiano é
uma das muitas homenagens ao dramaturgo no cinqüentenário
de sua morte
A montagem de O Círculo de Giz Caucasiano, pela Companhia
do Latão, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB),
lembra os 50 anos da morte do dramaturgo Bertolt Brecht, com
um enfoque do século 21. O texto, que se passa numa
Rússia pré-revolução comunista,
discute a dicotomia entre o determinismo histórico
e o individualismo, ao contar a história de Grucha,
camponesa que renuncia a tudo para salvar a vida de uma criança,
e Azdak, camponês elevado a juiz, com todas as regalias
da função. "Queríamos um clássico
de Brecht, com ampla duração e que abordasse
a temática da terra", informa o diretor Sérgio
de Carvalho. "Além disso, tínhamos os atores
adequados para os personagens, especialmente a Grucha (Helena
Albergaria) e o Azdak (Ney Piacentini)."
O Círculo é um texto da fase americana de Brecht,
quando ele fugia do nazismo. Escrito nos dois últimos
anos da 2ª Guerra Mundial (1944/45), só estreou
uma década depois, no Berliner Ensemble, dirigida pelo
próprio Brecht, já de volta à sua Alemanha
natal, mas foi morar na Berlim Oriental. No Brasil, foi encenada
em 1963, no Teatro Nacional de Comédia, com direção
de José Renato e tradução de Manuel Bandeira,
a mesma usada pela Companhia do Latão. "Nossa
adaptação se deu em função do
espaço cênico e do elenco, bem menor que o usado
por Brecht. Queríamos um espetáculo intimista,
em que o público ficasse próximo dos atores",
diz Carvalho. "Mas fiz menos cortes no texto que o próprio
Brecht e, para ser fiel à sua idéia, recorri
ao diário dos ensaios e vi que as questões que
me preocupavam nesta montagem estavam lá também."
Grucha e Azdak são personagens brechtianos por excelência,
pois agem sem heroísmo ou altruísmo, sem serem
meros joguetes do destino. Essa ausência de maniqueísmo
e a dubiedade do motor de suas ações é
a dificuldade para os atores que os representam e o cerne
do teatro épico do qual Brecht é o principal
representante. O cenário com poucos adereços
cênicos e os figurinos que tentam chegar à vestimenta
de nobres, soldados e camponeses da Rússia czarista,
ambos de Paulo Namatame, enfatizam o desempenho dos atores
e relevam o texto. Embora haja uma trilha original de Paul
Dessau, Martin Eikmeier compôs música nova -
às vezes é incidental, sublinhando climas, às
vezes canções fazendo história andar.
Para dar conta da grande quantidade de personagens, a Companhia
do Latão recorreu a grupos com filosofia de trabalho
próxima à sua, como o Núcleo Argonautas
e Teatro do Pequeno Gesto.
A maior liberdade que Sérgio Carvalho tomou com o texto
de Brecht foi substituir o prólogo por um curta-metragem
com jovens do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST)ensaiando
com os atores da companhia. Para o diretor, foi a forma de
aproximar o texto de nossa realidade, trazendo o debate provocado
para o Brasil atual. Sendo um dos pilares do teatro que reza
pela cartilha marxista, o dramaturgo alemão não
perdeu sua atualidade. "Sempre que se desmistifica a
visão do mundo dominante, chama-se atenção
para a necessidade de um olhar histórico e tem-se o
pensamento marxista. E essa fidelidade de Brecht é
que o distingue de outros dramaturgos e o mantém atual",
comenta Carvalho, que é também professor de
Dramaturgia e Crítica Teatral na Escola de Comunicação
e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).
O Círculo de Giz Caucasiano fica no Centro Cultural
Banco do Brasil até 24 de setembro e depois viaja para
São Paulo. "Queremos outro teatro intimista, para
intensificar a troca entre o público e os atores."
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Dez anos de coerência artística
|
| Por Daniel Schenker Wajnberg,
Tribuna da Imprensa, 09 de agosto de 2006.
Prestes a comemorar data redonda, Cia. do Latão apresenta
"O círculo de giz caucasiano" ao público
carioca
A Companhia do Latão é portadora de uma especificidade
que, às vezes, acaba sendo utilizada como argumento
contra os espetáculos do grupo: o vínculo com
o embasamento teórico, evidente não só
através dos textos publicados na revista Vintém
como no próprio processo de construção
das montagens.
"Trata-se de uma marca fundamental no nosso trabalho,
mas que não aparece sob a forma de discurso. Não
fazemos teatro de tema e sim de invenção artística",
afirma Sérgio de Carvalho, fundador do Latão,
que costuma acumular as funções de diretor e
dramaturgo. Às vésperas de completar dez anos
de existência, o grupo, sediado em São Paulo,
apresenta ao público carioca "O círculo
de giz caucasiano", marcando o retorno à obra
de Bertolt Brecht. A encenação estréia
hoje no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).
A prática aliada ao vigor teórico é um
dos elementos de uma companhia que propõe uma relação
com o espectador distante da acomodação. "Ao
assistir a um dos nossos espetáculos, o público
não apenas recebe mas exerce uma determinada função",
assinala Sérgio.
Há, possivelmente, uma aridez nas montagens do Latão
que contrasta com o vapt-vupt característico da contemporaneidade,
como que buscando uma reconciliação com um tempo
mais próximo do acontecimento teatral. "Temos
uma necessidade de calma épica. Numa época de
múltiplas informações descartáveis,
é preciso repor o tempo do sujeito. Procuramos criar
paralisias dentro da cena para que, como desejava Brecht,
a platéia não seja envolvida num carrossel",
explica.
Como em outras montagens do Latão, há aqui propostas
de discussão de natureza política/social/ideológica.
É interessante buscar uma analogia entre esta nova
versão de "O círculo de giz caucasiano"
e o contexto da encenação de José Renato,
em 1963, realizada pelo Teatro Nacional de Comédia
(TNC) e não pelo Arena, ainda que o movimento estivesse
em pleno vigor.
"Existe uma provável influência do Arena
no Latão, no que diz respeito a uma temática
de ordem social e à crítica aos sistemas de
exploração. Mas a forma é diferente e
os momentos históricos, também. Havia um projeto
de nacional-popular que, diante do avanço do capitalismo
mundial, não diz mais respeito aos dias de hoje. Em
contrapartida, estamos testemunhando a reconstrução
de movimentos sociais", desenvolve.
A presença de uma "fala" da companhia, mesmo
diante de textos fechados ("O círculo de giz caucasiano"
conta com tradução de Manuel Bandeira), explica
a opção por uma dramaturgia em movimento, inserida
dentro de um processo colaborativo, praticada também
por outros grupos, a exemplo do Teatro da Vertigem, de Antonio
Araujo.
"Não há garantia de bom resultado através
deste sistema porque existe o perigo da montagem resultar
de um alinhavamento de retalhos de ensaios. Mas sempre vi
a cena sob a ótica do dramaturgo", diz Sérgio
de Carvalho, que realiza algumas operações no
texto original.
Tendo assumido, ao longo dos anos, parceria de trabalho com
Marcio Meirelles, hoje radicado na Paraíba, Sérgio
de Carvalho abre espaço, desta vez, para atores de
companhias diversas, como o Galpão de Folias, o Núcleo
Argonautas, o Teatro do Pequeno Gesto e a S. Jorge de Variedades.
Paralelamente ao Latão, Sérgio é professor
de dramaturgia e crítica da USP. "Nas aulas de
dramaturgia, procuro não matar o desejo de compreensão
do mundo e de expressão das pessoas e nas de crítica
caminho no sentido de buscar uma contraposição
aos valores decretados rumo à constituição
de uma atitude reflexiva", resume.
Muitos projetos em andamento
A comemoração de dez anos de existência
da Companhia do Latão será marcada por uma série
de realizações, a começar pela produção
de DVDs didáticos ligados a diversos espetáculos
do grupo - como "Ensaio sobre o Latão", "Santa
Joana dos Matadouros", "Ensaio da Comuna",
"Auto dos bons tratos", "A comédia do
trabalho", "O mercado do gozo", "Ensaio
para Danton", "Visões siamesas", "Equívocos
colecionados", "O círculo de giz caucasiano"
e "O nome do sujeito", que será remontado
no decorrer do ano - e das principais canções
entoadas em cena.
O grupo também pretende lançar três livros
que documentam seu trabalho teórico e literário.
Todo o projeto foi premiado com a Lei de Fomento ao Teatro
para a cidade de São Paulo e com o prêmio Myriam
Muniz 2006 da Funarte.
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Por que ver "O círculo de giz
caucasiano"
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| Por Hélio
Ponciano, Revista Bravo!,ano 9, agosto de 2006
Tradução de Manuel Bandeira e montagem dirigida
por Sérgio de Carvalho valorizam a força poética
do texto original de Bertolt Brecht
Nestes 50 anos da morte do dramaturgo alemão Bertolt
Brecht (1898-1956), o Centro Cultural do Banco do Brasil do
Rio de Janeiro convidou o diretor Sérgio de Carvalho
- há quase dez anos uma referência de teatro
brechtiano à frente da Companhia do Latão, em
São Paulo - para preparar uma montagem que celebrasse
a data. Ao escolher a peça O Círculo de Giz
Caucasiano (1944), que estréia neste mês, a intuição
do diretor foi decisiva e acertada.
O projeto conta com muitos elementos especiais, a começar
pela utilização da tradução que
Manuel Bandeira havia feito para uma encenação
do Teatro Nacional de Comédia, em 1963, dirigida no
Rio por José Renato- que andava esquecida, mas foi
encontrada no Museu Lasar Segall, em São Paulo, e publicada
pela editora Cosac Naify em 2002. "O texto tem uma força
poética fora do comum, e na tradução
de Bandeira isso fica bem evidente. Nosso trabalho será
muito vivo graças à qualidade poética
da palavra, da música, da enunciação",
diz Carvalho.
Em resumo, o prólogo original - que será adaptado,
segundo Carvalho, para tratar sutilmente da "função
da terra no país" - se passa em um colcós
(fazenda coletiva) soviético, onde há uma discussão
sobre a posse de terras entre agricultores (que as cultivam)
e criadores de cabra (que tiveram de abandoná-las durante
a guerra). Para resolver o dilema, o primeiro grupo resolve
encenar uma lenda, O Círculo de Giz Caucasiano: durante
uma revolta em um palácio, a mulher do governador assassinado
se esquece do filho na fuga. Uma criada salva o bebê
e o cria. Anos mais tarde, a mãe biológica retoma
o poder e reivindica o filho. Um juíz se encarrega
de decidir com quem ficará a criança. Traça
um círculo no chão com um giz, onde põe
o menino, e pede para que cada uma delas o puxe pelo braço.
Quem conseguir tomá-lo da outra o terá por direito.
O desfecho, uma das referências bíblicas da peça
- no caso, a história de Salomão-, encanta pelo
espírito materno que se põe à prova.
Versão de câmara
Outro diferencial deste projeto é a reunião
de diversas companhias de teatro. São 11 atores - que
farão mais de uma centena de papéis: além
de dois da própria Companhia do Latão, há
integrantes da Companhia São Jorge de Variedades, colaboradores
do Núcleo Argonautas e do Teatro do Pequeno Gesto e
um dos fundadores do Folias d'Arte.
Com duração prevista para quase três horas,
com intervalo, o espetáculo pretende ser uma versão
de câmara para um público de cem pessoas, próximas
do palco, quase dentro da cena - além de enfatizar
o papel do cantador-recitador, que conduzirá a montagem.
Para atingir o despojamento, o diretor aposta no plano sensível
da peça, cujos "sons, ritmos e cheiros" devem
desorientar o espectador: "Qualquer pessoa sentirá
o impacto, mesmo aqueles que nunca foram ao teatro. É
uma obra-prima".
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Cia. do Latão atualiza fábula
de Brecht
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Grupo crê que o socialismo está em ´reconstrução`
e estréia ´O Círculo de Giz Caucasiano`,
onde discute ocupação de terra.
Textos de Valmir Santos e Sérgio Sálvia Coelho,
Folha de São Paulo, 09 de agosto 2006
Cinqüentenário da morte do autor alemão
é lembrado com outras montagens e debates que envolvem
também a obra de Gorki
Por Valmir Santos
A militância política pode estar em baixa,
mas dá sinais de sobrevida no teatro. Apesar da crise
das utopias, do esfacelamento do socialismo e da arte engajada,
grupos do país seguem devotos ao pensamento e à
obra de Bertolt Brecht (1898-1956) na tentativa de interpretar
a realidade.
No próximo dia 14 se completam 50 anos da morte do
autor alemão, referência mundial do teatro político
no século 20 e, ao que se vê, ainda neste que
corre. É reverenciado por grupos como Galpão
(MG), que montou "Um Homem É um Homem" em
2005; Companhia Fábrica São Paulo, que anuncia
um ciclo para relacioná-lo com a obra de Górki;
e Grupo dos 7, que articula suas canções com
sambas-de-roda no espetáculo "Teatrosamba do Caixote",
em cartaz em São Paulo.
A efeméride fez com que a Companhia do Latão,
das mais brechtianas e marxistas equipes do país, interrompesse
período de seis anos com dramaturgia própria
e voltasse à fonte em que se autobatizou.
Convidado pelo CCBB a dirigir um Brecht, o diretor Sérgio
de Carvalho atravessou a ponte aérea com "O Círculo
de Giz Caucasiano" e estendeu a empreitada ao próprio
grupo e a artistas ligados a outros coletivos, como o Folias
d'Arte, a Cia. São Jorge de Variedades, o Núcleo
Argonautas e o Teatro do Pequeno Gesto (RJ). A montagem é
apresentada hoje para convidados e entra em cartaz amanhã
no CCBB do Rio. O Latão já montou "Santa
Joana dos Matadouros" (98) e "Ensaio sobre o Latão"
(97).
Traduzida nos anos 60 por outro poeta, o anticomunista Manuel
Bandeira, "O Círculo de Giz Caucasiano" foi
concluída por Brecht em 1945, final da Segunda Guerra,
quando estava exilado nos EUA, também ali perseguido
por causa dos ideais comunistas.
"O Bandeira aceitou porque sentia o texto como uma crítica
fortíssima à desumanização",
afirma Carvalho, 39, que pôs em cena um espetáculo
com dez atores e 21 canções originais (por Martin
Eikmeier).
Atualidade
"O Círculo" abre e fecha falando de terra.
Questiona em que medida sua ocupação é
justa ou legal, prato cheio para uma companhia que busca pensar
Brecht no contexto do capitalismo atual e do Brasil, sociedade
da periferia do mundo, no dizer de Carvalho.
No prólogo original, dois grupos de camponeses soviéticos
discutem quem vai ficar com a terra: se aqueles que nela trabalham
ou os antigos donos que a abandonaram. O início da
peça traz uma interação em vídeo
com participação do grupo Filhos da Mãe
Terra, formado por crianças e adolescentes do assentamento
Carlos Lamarca, do MST, em Sarapuí (SP).
Em seguida, vem a fábula sobre Gruxa (Helena Albergaria),
a criada que decide abdicar de tudo para cuidar de um menino
cujo pai, um governador, é assassinado e cuja mãe
o abandona após a revolta local. "A Gruxa age
não por uma espécie de heroísmo, mas
pela tentação da bondade", diz Carvalho.
Anos depois, baixada a poeira política, a mãe
retorna e quer reaver o filho. Surge o juiz Azdak (Ney Piacentini).
Com fama de corrupto e beberrão, "um revolucionário
frustrado", decide quem vai ficar com a criança.
Ele traça um círculo de giz no chão,
coloca o menino no centro e pede às duas mulheres que
o puxem cada uma delas por um braço. Aquela que o tirasse
do círculo ficaria com a guarda. "Azdak encarna
o desejo de uma era em que a justiça fosse verdadeira",
diz Carvalho.
A contradição, recurso tão afeito ao
teatro épico, também espreita a ocupação
do CCBB pela Cia. do Latão. O braço cultural
de uma instituição bancária serve como
plataforma para comemoração dos dez anos do
grupo, em julho de 2007. Estão previstos lançamentos
de sete DVDs, três livros e o volume dois do CD "Canções
de Cena".
"Quem produz arte dentro de um ambiente em que ela está
sujeita a compra e venda, estabelece algum nível de
diálogo com o mercado. O importante é mostrar
a contradição dessa produção com
esse mercado. Fingir que ela não existe é também
sair do debate. Como artista de esquerda, não posso
sair do centro radiador desse sistema. Não queremos
abastecê-lo com produtos culturais, mas trazer reflexões
artísticas na contramão", diz Carvalho.
O diretor não considera que o socialismo tenha acabado.
"É um momento de reconstrução e
acúmulo de forças do projeto socialista."
Para Carvalho, Brecht não tinha a ilusão do
Estado socialista, mas de um movimento humanístico.
"Ele escreveu "O Círculo" nos EUA, em
pleno olho do furacão do capitalismo e da indústria
cultural em formação. É um sujeito perturbador
por isso, propõe as coisas dinamicamente."
"Talvez o principal aspecto da forma épica
criada por Brecht seja a historicização dos
acontecimentos. Ele não se preocupa em mostrar a vida
como ela é, mas como não deveria ter se tornado.
O público é quem realiza o sentido da cena ao
[...] estabelecer o vínculo interrogativo entre uma
história que se mostra incompleta e suas causas sociais
e econômicas"
SÉRGIO DE CARVALHO
Diretor da Companhia do Latão
"Essa decretação afoita [...] da impossibilidade
de superação do capitalismo é bastante
ideológica. O capitalismo, por necessidade humana,
precisa ser superado"
SÉRGIO AUDI
Diretor da Companhia Fábrica São Paulo
Brecht não era um típico brechtiano
Por Sérgio Sálvia Coelho
Como todo pensador fundamental, Bertolt Brecht baseia suas
teorias em uma prática constante, sempre disposto a
se questionar, a voltar para trás, se contradizer.
Por isso os brechtianos, assim como os marxistas e freudianos,
não raro perdem tempo em batalhas fratricidas, nas
quais reivindicam o mestre ao seguir regras de épocas
diferentes.
Qual o verdadeiro Brecht? O anarquista dos cabarés
de Mahagonny, o didata do partido em Berlim? Se os risos e
as lágrimas são manifestações
do teatro burguês, o que fazer com a escrachada "Um
Homem É um Homem" e a comovente "Mãe
Coragem"? O que parece irrefutável em um breve
sobrevôo de sua carreira é que ele era antes
de tudo um homem de ação. Desde os espetáculos
improvisados no front da Primeira Guerra, na qual era um enfermeiro
perplexo com a falta de sentido do mundo, até a última
remontagem de "Galileu Galilei" no Piccolo Teatro
de Milão, reescrito sem nenhuma auto-indulgência
por ser já um "clássico", Brecht procurava
sempre responder ao presente.
Cada país reinventou seu Brecht diante dos desafios
locais. No Brasil da ditadura militar, o Arena contou Zumbi
com uma estrutura épica tão próxima de
Brecht quanto das alegorias do teatro de revista. Nada mais
antibrechtiano, portanto, do que preconizar o épico
como solução universal, ostentando menosprezo
por outras formas possíveis.
O teatro político e dialético de Brecht morre
quando se torna doutrina de partido. Seja qual for o enfoque
adotado, é preciso não perder de vista que o
grande desafio para o teatro não é mudar o mundo,
mas refletir as suas mudanças. E como dizia o bem-humorado
Bertolt: "Só sei que brechtiano eu não
sou!".
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Cinquentenário Brecht
|
| Por Eduardo Carvalho,
Agência Carta Maior, 09 de agosto de 2006
Estréias de peças, seminários, workshops,
debates, shows e palestras ilustram a importância e
a contribuição do dramaturgo alemão Bertold
Brecht para a história do teatro e para a história
da luta contra a opressão.
No próximo dia 14 de agosto, comemora-se o cinquentenário
da morte de Bertold Brecht. A partir desta quinta-feira, 09
de agosto, uma série de estréias de peças,
shows de música de seus espetáculos, seminários,
workshops e debates marcam a data em todo o Brasil.
Ugen Friedrich Bertolt Brecht nasceu em 10 de fevereiro de
1898 em Augsburgo, Baviera, Alemanha. Em 1913 começou
sua produção literária, ainda na escola.
Escrita em 1918 e encenada em 1923, Baal é considerada
a primeira grande peça do dramaturgo e poeta na fase
inicial de sua obra. A partir da peça Um homem é
um homem (1926), Brecht começa a se interessar pelo
estudo do marxismo e a aplicação no campo estético.
No final dos anos 30, ele começa a teorizar sobre o
teatro épico como de superação da forma
dramática.
Com a ascensão de Adolf Hitler e a Segunda Guerra Mundial,
Brecht partiu para o exílio em países da Europa
e acabou por fixar-se nos Estados Unidos, onde foi perseguido
pelo movimento anti-comunista conhecido como Macarthismo.
Retornou à Alemanha em 1945 e trabalhou em seu teatro,
o Berliner Ensemble, nos últimos oito anos de vida,
até falecer em 14 de agosto de 1956. Sua obra teatral
abrange 50 peças, dentre as quais se destacam Mãe
Coragem, Galileu, Galilei, Santa Joana dos Matadouros e O
círculo de giz caucasiano, que trata da questão
da disputa pela terra e que estréia no dia 09, no CCBB-Rio,
com a Companhia do Latão e fica em cartaz até
24 de setembro.
O Círculo de giz caucasiano ganha montagem no
Rio
"Obra-prima do teatro moderno" é como o poeta
e tradutor Manuel Bandeira define O círculo de giz
caucasiano, ao traduzir este que é um dos mais consagrados
textos do dramaturgo alemão. E é a versão
de Bandeira que a Companhia do Latão, grupo brasileiro
dedicado ao universo brechtiano, estréia a convite
do próprio CCBB para homenagear o dramaturgo alemão
que uniu arte e política deixando um legado fundamental
para o teatro moderno, abordando questões pertinentes
até os dias de hoje. A tradução de Bandeira
para O círculo de giz caucasiano foi encenada pela
última vez em 1963, pelo Teatro Nacional de Comédia
(TNC).
O círculo de giz caucasiano foi escrito no final da
Segunda Guerra Mundial, durante o exílio de Brecht
nos EUA, e aborda a discussão sobre a disputa de terras.
Um grupo de agricultores e outro de criadores de cabras disputam
a posse de um vale fértil, cuidado e defendido dos
nazistas durante a guerra pelos agricultores. A questão
chega a bom termo, dando lugar à uma fábula,
a história do círculo de giz caucasiano, passada
na Geórgia, sobre a disputa de uma criança.
O espetáculo conta com a participação
especial do grupo Filhos da Mãe Terra, formado por
crianças e adolescentes do Movimento dos Sem Terra
(MST), do assentamento Carlos Lamarca, localizado na região
de Sarapuí, no interior de São Paulo. Eles estão
no vídeo que é utilizado como prólogo
da encenação. "Essa montagem tem o objetivo
de repensar o legado artístico de Bertolt Brecht em
relação ao Brasil atual", pontua o diretor
do espetáculo Sérgio de Carvalho.
"Talvez o principal aspecto da forma épica criada
por Brecht seja a historicização dos acontecimentos.
Não se procura mostrar a vida como ela é, mas
como não deveria ter se tornado. O público é
quem realiza o sentido da cena ao pensar sobre os subterrâneos
dos fatos observados, ao estabelecer o vínculo interrogativo
entre uma história que se mostra incompleta e suas
causas sociais e econômicas", explica o diretor
Sérgio de Carvalho.
"Escolhi esse texto por ser um clássico e por
discutir a questão da terra. Acho o momento perfeito
para essa encenação", observa Sérgio
de Carvalho. A montagem envolve uma super-produção:
elenco de 11 atores que se dividem em 50 personagens ao longo
de 2h40, com intervalo; a montagem é permeada por 21
canções especialmente compostas por Martin Eikmeier;
dois músicos estarão em cena tocando cello,
piano, instrumentos orientais e rabeca.
Universo musical das peças de Brecht com Cida
Moreira
Baseado no disco "Cida Moreira interpreta Brecht",
Cida Moreira apresenta em São Paulo o show "Aos
Que Estão Por Vir - Um Concerto Cabaret", dias
11 e 12 de agosto, no Tom Jazz. A magia dos cabarés
concertos é a base para o show que inclui músicas
de Bertolt Brecht. Entre elas, estão as canções
"Balada do Soldado Morto", "Surubaya Johnny"
e "Speak Low".
A maior cantora de Brecht do Brasil, Cida Moreira começou
sua carreira no teatro. Em 1977 estreou na peça "A
Farsa da Noiva Bombardeada", de Alcides Nogueira e, no
ano seguinte, foi convidada a fazer parte do grupo Ornitorrinco,
então dirigido por Luiz Roberto Galizia, Cacá
Rosset e Maria Alice Vergueiro. O espetáculo O Teatro
do Ornitorrinco Canta Brecht e Weill foi início para
sua carreira na música e abriu as portas para que Cida
seguisse com seus trabalhos com a poesia de Bertolt Brecht
e a música de Kurt Weill.
Na selva das cidades
Será encenada em várias cidades do Brasil (São
Paulo, Santos ou Ribeirão Preto (SP), Salvador, Guaramiranga
(CE), Fortaleza e Brasília) a peça Na Selva
das Cidades - a luta de dois homens na megalópole de
Chicago que foi escrita por Bertolt Brecht entre 1921 e 1923
e encenada pela primeira vez em Munique em 9 de abril de 1923.
Situada, na versão original, no coração
financeiro da grande depressão norte-americana, na
versão do diretor Frank Castorf para o Teatro da Volksbühne,
a Chicago deixa de ser americana para tornar-se um lugar exótico
e sem nenhuma personalidade, podendo estar localizado nos
trópicos, na América, ou em bairro qualquer
de imigrantes em uma grande cidade. O espetáculo, apresentado
em fevereiro deste ano ao público berlinense, será
adaptado no Brasil com atores e uma equipe técnica
locais, sendo seu cenário inteiramente reconstruído
em São Paulo.
Brecht e a contemporaneidade da peça didática
O evento "Brecht e a contemporaneidade da peça
didática" reúne seminário, oficinas
e experimentos cênicos para apresentar e debater uma
fatia ainda pouco conhecida da produção artística
de Bertolt Brecht no cenário brasileiro: a teoria e
a prática das "peças didáticas",
os Lehrstücke. Estruturado como um grande seminário
prático e teórico, o projeto busca refletir
sobre as implicações e derivações
desta tipologia dramatúrgica no teatro contemporâneo,
reunindo não apenas especialistas e pesquisadores da
obra de Brecht, mas diretores, grupos de teatro, educadores
e interessados. Ao longo de quatro semanas, as peças
e formulações de Brecht serão discutidas,
confrontadas e postas em prática em oficinas, debates
e experimentos cênicos por uma equipe de primeira linha.
Concebido pelas atrizes Magali Biff e Maria Tendlau e pela
diretora Dedé Pacheco: o evento, contará com
a presença de Hans-Thies Lehmann, um dos mais destacados
teóricos do teatro contemporâneo (autor, entre
outros, de O teatro pós-dramático e O Teatro
Político); dos professores e brechtianos Ingrid Koudela,
José Antônio Pasta Jr., Iná Camargo Costa
e Maria Lucia Pupo; do dramaturgo Luis Alberto de Abreu, além
das companhias de teatro Coisa Boa, Paidéia, Márcio
Aurélio e Trupe, Cia São Jorge de Variedades,
Cia do Latão, Cia Livre, e dos atores Celso Frateschi
e Roberto Lage.
Palestras Hans-Thies Lehmann
Hans-Thies Lehmann é um dos mais destacados e atuantes
pensadores do teatro contemporâneo. Professor titular
da Universidade J. W. Goethe em Frankfurt am Main, Lehmann
é autor de livros seminais sobre o teatro atual e do
pós-guerra, dentre os quais se destacam Teatro Pós-Dramático,
de 1999 (com lançamento no país previsto para
este ano); Theater und Mythos - Die Konstitution des Subjekts
im Diskurs der antiken Tragödie (Teatro e Mito - A constituição
do sujeito no discurso da tragédia antiga) , de 1991;
The Brecht Yearbook, de 1992 (com Renate Voris); Das politische
Schreiben. Essays zu Theatertexten (A escrita política),
de 2002, e Heiner Müller Handbuch (com P. Primavesi),
de 2004. Além das várias publicações
e de atuar como professor visitante na França, na Lituânia,
na Polônia, nos EUA e no Japão, Lehamnn já
tomou parte em inúmeros projetos teatrais, trabalhando
como dramaturgo com os diretores Jossi Wieler, Peter Palitzsch,
Christof Nel, Theodoros Terzopoulos, e desenvolvendo projetos
cênicos próprios; é integrante do conselho
editorial da revista Performance Research, fundador e co-diretor
da Frankfurter Internationalen Sommerakademie e membro da
Academia Alemã de Artes Cênicas, além
de colaborador em diversas revistas européias e norte-americanas.
As palestras acontecem em São Paulo nos dias 18 a 21
de setembro, em Brasília no dia 22 de setembro, em
Salvador, 25 de setembro e no Recife, em 27 de setembro.
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Brecht e o Brasil
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Por Fernando Marques, Revista Cult nº 105, agosto de
2006.
Se é verdade que escrever em português pode,
ainda hoje, confinar um autor a circuitos relativamente restritos,
produzir em alemão tampouco garante divulgação
internacional imediata. Embora muito prestigiosa, a literatura
de língua alemã precisou, freqüentemente,
do passaporte das traduções francesas ou inglesas
para alçar os seus escritores à notoriedade
global.
O alcance do idioma será, quando menos, um dos fatores
capazes de explicar o fato de que o dramaturgo, poeta e pensador
alemão Bertolt Brecht, nascido em 1898 e morto há
50 anos, a 14 de agosto de 1956, só viria a ser mundialmente
festejado depois que peças como Mãe Coragem
chegaram às salas de Paris e Londres. Outro fator liga-se
ao exílio: Brecht, a exemplo do que fizeram tantos
intelectuais, fugiu da Alemanha encampada pelos nazistas em
1933, trocando de país "como quem troca de sapatos"
(até o retorno em 1948), o que dificultou a difusão
menos tardia de suas peças e idéias.
Costuma-se marcar a data de chegada de Bertolt Brecht ao Brasil
pela primeira montagem profissional de um de seus maiores
textos, A alma boa de Setsuan, encenado em São Paulo
com Maria Della Costa, sob a direção do italiano
Flaminio Bollini, em 1958. A fase de "deglutição"
local do autor vai de 1958 a 1978, ano em que estréia
a Ópera do malandro, de Chico Buarque, resposta à
Ópera dos três vinténs, de Brecht e Kurt
Weill.
No entanto, diga-se, o contato brasileiro com o teatro brechtiano
não se fez esperar demais. Ao mesmo tempo em que se
começava a falar amplamente de Brecht na Europa, devido
a "uma versão bastante comovente de Mãe
Coragem", em Paris, segundo informa o biógrafo
Frederic Ewen, ocorria por aqui a montagem - com alunos da
Escola de Arte Dramática, em São Paulo - de
A exceção e a regra. Esta é uma das peças
denominadas pelo autor de "didáticas": breves
textos destinados à elaboração de questões
éticas e políticas. O ano era o de 1951.
A exceção e a regra, escrita em 1930, e a bem-humorada
(e pungente) Alma boa de Setsuan, de 1940, abordam o tema
da bondade impossível, num mundo monitorado pelo egoísmo;
ambas ficaram como marcos inaugurais da recepção
de Brecht no Brasil certamente porque obtiveram registros
na imprensa. Mas (sem querer exasperar o leitor com problemas
de genealogia) anoto que, de acordo com Wolfgang Bader, organizador
da coletânea Brecht no Brasil (1), o marco inicial cabe
mesmo a Terror e miséria do Terceiro Reich, encenada
em 1945, em São Paulo, "por alemães exilados,
que nos anos de 1940 começam diversas atividades teatrais
aqui".
O sentido inicial das montagens brechtianas no país,
sentido que se vai desdobrar em caminhos correlatos nos anos
seguintes, relacionou-se à luta contra o fascismo,
verberado já no título da peça. Bader
e Fernando Peixoto (que, na mesma coletânea, também
alude a Terror e miséria do Terceiro Reich) limitam-se
a mencionar a montagem de 1945, sem fornecer outros dados
a seu respeito, sinalizando que a memória do espetáculo
em boa parte se perdeu. Mas o texto seria revisitado, nos
anos de 1960, pelos encenadores Antonio Abujamra, Paulo Afonso
Grisolli e Amir Haddad.
Significativa, também, foi a inclusão de um
dos episódios que compõem a peça, chamado
"O delator", no espetáculo-colagem Liberdade,
liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel,
sucesso no Rio de Janeiro de 1965, já, portanto, em
tempos pós-Golpe. Paulo Autran e Tereza Rachel representavam
os pais que temem ser denunciados como opositores do regime
pelo próprio filho, não mais que um menino.
Evidenciava-se um dos traços da presença brechtiana:
o dramaturgo ajudou a politizar o teatro nacional ou, por
outra, emprestou instrumentos de análise e crítica,
ideológicos e estéticos, a dramaturgos, atores
e diretores brasileiros, na fase em que os palcos se tornaram
praça de resistência ao regime militar instalado
em 1964.
A tradução para o inglês de A alma boa
de Setsuan e de O círculo de giz caucausiano, pelo
norte-americano Eric Bentley, peças publicadas em 1948
(Bentley divulgou a obra de Brecht nos Estados Unidos, onde
o dramaturgo passou a fase final do exílio), permitiu
ao crítico Décio de Almeida Prado ler o autor,
para depois comentá-lo a propósito de A exceção
e a regra, poucos anos mais tarde. Já Sábato
Magaldi viu pela primeira vez uma peça de Brecht em
Paris, em 1953. Era Mãe Coragem, a história
da tragicômica mulher que se sustenta como vendedora
ambulante em plena guerra, metáfora dos que pretendem
se valer das situações de conflito e caos, delas
aferindo vantagens (a obtusa Coragem perde seus três
filhos, um a um, ao longo da história).
Sábato não gostou, contudo, da encenação
de Jean Vilar: "Não vou esconder que fiquei muito
decepcionado: achei o espetáculo por demais cansativo,
e o público se enfadava todo o tempo" (2). Efeito,
quem sabe, de tratamento excessivamente literal do teatro
épico proposto pelo escritor, teatro em que a ação
dramática está constantemente emoldurada por
expedientes narrativos (cartazes e canções,
entre outros), destinados a evitar a simples identificação
emocional entre público e espetáculo, privilegiando-se
a atitude racional. Para Brecht, o mundo (resumido em cena)
deve aparecer como passível de ser modificado pela
vontade consciente, jamais como inacessível a mudanças
objetivas.
Houve acertos e desacertos na recepção dada
à obra na França ou aqui. O crítico Yan
Michalski inicia depoimento de 1986 dizendo precisamente isto:
"Brecht forneceu a matéria-prima literária
e teórica para alguns dos mais equivocados momentos
da cena brasileira dos últimos 30 anos, e para alguns
dos seus momentos mais iluminados e enriquecedores".
Compreensão limitada do famoso "efeito de distanciamento"(3),
preconizado pelo também diretor Brecht (o ator deve
afastar-se de seus personagens, buscando pensar e fazer pensar
sobre eles), possivelmente responde por alguns daqueles equívocos.
Já os acertos se devem a uma utilização
criadora, pouco subserviente, das idéias do autor.
O que se verificou também nos espetáculos que
não se basearam em textos de Brecht, mas foram de algum
modo inspirados por suas concepções, caso da
comédia Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come,
de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, integrantes do
Grupo Opinião. O espetáculo estreou no Rio,
em 1966, sob a direção de Gianni Ratto.
No prefácio ao Bicho, os autores aludem a procedimentos
não-realistas que ajudariam a representar melhor a
própria realidade. Depois de situar as fontes da comédia
na literatura popular (no caso, o cordel e a farsa nordestina),
dizem: "A literatura popular e a grande literatura sempre
tiveram um ponto fundamental em comum: a intuição
da arte dramática como uma manifestação
de encantamento, de invenção"(4). Encantamento,
segundo eles, é justamente "o que Brecht repõe
na literatura dramática".
Vianna e Gullar esclarecem, referindo-se implicitamente ao
humor e ao caráter lúdico também presentes
nas peças do escritor alemão: "Mas quando
falamos em encantamento, não estamos querendo dizer
envolvimento passional. Com encantamento queremos dizer uma
ação mais funda da sensibilidade do espectador
que tem diante de si uma criação, uma invenção
que entra em choque com os dados sensíveis que ele
tem da realidade, mas que, ao mesmo tempo, lhe exprime intensamente
essa realidade". O efeito, no Bicho, seria o de uma incisiva
caricatura das relações políticas no
Nordeste dos coronéis e, por analogia, em todo o país.
Já nos anos de 1970, o Grupo Opinião recorre,
em O último carro (1976), de João das Neves,
peça ambientada num trem de subúrbio, à
técnica de composição por cenas isoladas,
eminentemente épica.
O Teatro de Arena de São Paulo esteve fortemente relacionado
à estética de Brecht, reelaborando-a criativamente.
Dois espetáculos devem ser destacados nesse sentido:
Arena conta Zumbi, de 1965, e Arena conta Tiradentes, de 1967,
ambos escritos por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri.
As lições relativas às técnicas
épicas reaparecem no Arena sob a forma da narração
coletiva e da dissociação de atores e personagens
(um mesmo papel pode ser interpretado por diversos atores,
o que dilui a empatia e reforça o exame crítico
das situações), como se deu em Zumbi. Ou, ainda,
sob a figura do Coringa, espécie de mestre de cerimônias
que conta a história e encarna o ponto de vista autoral,
como em Tiradentes. Boal articula, na ocasião, o Sistema
do Coringa e, depois, as técnicas do Teatro do Oprimido,
em certa medida derivadas de matrizes brechtianas.
De volta aos textos do próprio Brecht, lembre-se Galileu
Galilei, encenado pelo Grupo Oficina em 1968, com estréia
no mesmo dia em que se editou o AI-5, pelo qual os militares
cassavam as liberdades públicas. Tendências racionalistas,
de índole marxista, e irracionalistas, estas ligadas
à contracultura que então se afirmava, batiam-se
dentro do grupo, o que resultou em espetáculo híbrido
(e bem-sucedido): o texto de Brecht narra a história
do astrônomo renascentista para ressaltar os poderes
críticos e a responsabilidade política da ciência,
enquanto a montagem dirigida por José Celso Martinez
Corrêa sublinhava uma das cenas, a do carnaval, até
a embriaguez, como se correntes contrárias se chocassem
no interior do mesmo espetáculo.
A Ópera do malandro vem atualizar a Ópera do
mendigo (1728), do inglês John Gay, e sua descendente
alemã, 200 anos mais velha, a Ópera dos três
vinténs, de Brecht e Weill. Esta já havia sido
encenada (por exemplo) sob a direção de José
Renato, em 1964; a adaptação de Chico Buarque,
apoiada em convivência já extensa dos brasileiros
com a obra de Brecht, traz a ação para o Rio
de meados dos anos de 1940, quando a ditadura de Vargas chegava
ao fim e o país entrava numa fase de ambígua
modernização capitalista.
Em lugar de replicar o niilismo existente na Ópera
dos três vinténs, Chico e o diretor Luís
Antônio Martinez Corrêa acentuaram seus aspectos
de crítica política, satirizando o clima de
engodo que se armava no segundo pós-guerra, quando
os Estados Unidos se confirmavam no papel de líderes
do mundo "cristão e ocidental". Propunha-se
analogia do passado, os anos de 1940, com a atualidade, a
década de 1970, momento em que se continuava a promover,
por aqui, o banquete das elites.
O que permanece válido em Brecht, agora? Conforme notou
Roberto Schwarz no artigo "Altos e baixos da atualidade
de Brecht", de 1999 (5), a obra do dramaturgo carece
hoje de revisão e de crítica, dado que premissas
importantes de seu trabalho perderam força. O primeiro
pressuposto vencido é o de que o mundo caminharia para
uma ordem solidária ou socialista: não foi o
que ocorreu. Já a segunda premissa refere-se ao arsenal
das técnicas épicas, que parecem gastas. Os
recursos de quebra da ilusão cênica e, por extensão,
política, tomados tal e qual Brecht os compreendeu,
apropriados inclusive pela publicidade, deixaram de ser eficazes.
Schwarz diz também, no entanto, que o reexame das peças
pode nos reconduzir a bons achados. Um exemplo: o ácido
retrato de um capitalismo amoral, como que absoluto, isento
de culpas ou recalques, exposto em Santa Joana dos Matadouros.
Ao parodiar a literatura clássica alemã, fazendo-a
falar o jargão das negociatas, a peça ilustra
o quanto há de vivo na ampla obra do dramaturgo.
A receita vale para outros grandes textos do autor, que se
mantêm atuais, até porque a realização
das esperanças de mundo melhor teve mesmo de ser adiada
por tempo indeterminado. Nosso mundo, meio século mais
velho que o de Brecht, guarda pontos de contato fundamentais
com o dele. O que, aliás, não é de se
comemorar.
NOTAS
1. BADER, Wolfgang. Brecht no Brasil. São Paulo: Paz
e Terra, 1987.
2. in Brecht no Brasil, pág.223
3. in Brecht no Brasil, pág 226
4. VIANNA FILHO, Oduvaldo e GULLAR, Ferreira. Se corre o bicho
pega, se ficar o bicho come. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1966
5. SCHWARZ, Roberto. "Altos e baixos da atualidade de
Brecht", in Seqüências brasileiras. São
Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Fernando Marques é jornalista, poeta e compositor,
doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília
com tese sobre teatro musical. Publicou Retratos de mulher
(poemas, Varanda) e Zé (teatro, Perspectiva).
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50 anos sem Brecht
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| Por Gislaine Gutierre,
Diário do Grande ABC, 13 de agosto de 2006.
Nesta segunda-feira faz 50 anos que o mundo perdeu uma de
suas mais importantes figuras do teatro: Bertolt Brecht (1898-1956).
Mas não é o caso de tirar poeira de seu legado
para fazer justiça à sua memória. O criador
do teatro do distanciamento, que via na encenação
objetiva uma forma de despertar a consciência do público,
e assim provocar mudanças na sociedade, continua inspirando
atores, dramaturgos e diretores no mundo inteiro.
"Brecht é atualíssimo", sentencia
o diretor da paulistana Companhia do Latão, Sérgio
de Carvalho, que na quarta-feira (dia 9) estreou no Centro
Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Rio, um dos clássicos
do dramaturgo alemão, O Círculo de Giz Caucasiano,
espetáculo que deve vir a São Paulo ainda este
ano.
A produção teatral na região também
se desenvolve sob o signo de Brecht. Alunos do segundo ano
do Núcleo de Formação de Atores da ELT
(Escola Livre de Teatro) de Santo André exercitam sua
desafiadora tese de interpretação numa experiência
que a princípio os levou a um "estado de catatonia",
como afirma o professor Alexandre Mate.
Em São Paulo, as celebrações extrapolam
as cercanias do teatro e colocam em pauta, no evento As Brechtianas,
canções, poemas e cenas curtas baseadas em seus
escritos. São oito dias de atividades no Sesc Pompéia.
O Teatro Fábrica São Paulo abriga as montagens
do Teatrosamba do Caixote, que se vale da música e
do teatro para transitar pelo universo brechtiano. No mesmo
espaço, há a promessa de acaloradas conversas
fomentadas no ciclo de debates Em Torno de Górki e
Brecht.
Na Índia, suas teorias ajudam a nortear o teatro local
desde os anos 60. Os textos, porém, não são
traduzidos e o fazer teatral no país quase sempre passa
pelo filtro brechtiano. Os artistas se valem do modo de interpretação
preconizado pelo alemão, da música e da dança
para levar ao público dramas que expõem a realidade
local.
Na África, Brecht vem sendo adaptado e retrabalhado
desde os anos 70, também dentro do contexto local.
Dada a popularidade de Brecht em Israel, a Universidade de
Tel Aviv abrigou uma conferência acerca das mudanças
que sofreram as interpretações sobre sua arte
desde os anos 80, explorando facetas envolventes deste filósofo,
poeta, dramaturgo e diretor socialmente engajado, para quem
a eterna mudança e suas concomitantes e constantes
contradições eram uma máxima.
Para o doutor em Literatura Ricardo Lísias, precisamos
voltar a ser brechtianos. Opinião parecida tem a estudiosa
de Brecht e tradutora de diversas peças suas, Christine
Röhrig: "O que nos falta é mais Brecht que
nos estimule à indignação. Ele faz uma
falta enorme e faz diferença mesmo na questão
política".
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Justiça em nome de Bertolt Brecht
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Por Macksen Luiz, Jornal do Brasil, 18 de agosto de 2006.
A projeção de um filme com um grupo do Movimento
dos Sem Terra, que serve como prólogo e define a encenação
de O Círculo de Giz Caucasiano pela Companhia do Latão,
reconfirma o caráter nominalmente político do
texto de Bertolt Brecht. Mais do que provocar uma aproximação
da peça a uma circunstância ou sensibilizar para
uma cena agit-prop, a montagem de Sérgio de Carvalho
se interpreta por este prólogo, através do qual
uma situação política é levada
ao palco como introdução à parábola
brechtiana.
Estabelecidos os seus termos, para não deixar qualquer
duvida sobre o que quer dizer e do que fala, a encenação
encontra tradução cênica que desarma a
fábula para o espectador. Senão para avalizar
correspondências com a atualidade, pelo menos para permitir
que a narrativa se revele com suas variantes possibilidades.
Ao contrário da maioria de sua dramaturgia, em que
as razões sociais podem explicar mas não absolver
alguns traços da realidade humana, Brecht, em O Círculo
de Giz Caucasiano, se mostra mais flexível diante das
contradições. A ponto de concluir, ainda que
por vias transversas, que a justiça pode ser feita.
O que esta narrativa propõe pelo paroxismo das inversões
é constatar como é "terrível a tentação
da bondade", concluindo que "o bem comum, o coletivo,
triunfa".
Dividido em duas partes, fora o prólogo, o texto acompanha
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