A COMÉDIA DO TRABALHO
APRESENTAÇÃO

Do riso no mundo selvagem
"Em A Comédia do Trabalho,a Companhia do Latão aprofunda com brilho uma linha estética que combina humor e crítica social."

Fernando Peixoto, Bravo! nº 36, setembro 2000


Companhia do Latão vai além da questão ética

"Na admirável coerência entre teoria e prática, a Companhia do Latão produz um objeto estético sedutor pela sua inteireza, pelo perfeito ajuste da engrenagem e - não se pode deixar de reconhecer - pela beleza do raciocínio. É provável que Bertolt Brecht, ao arquitetar o teorema que é A Exceção e a Regra, não tenha previsto o belo efeito resultante da exposição de uma estrutura."

Mariângela Alves de Lima, O Estado de São Paulo, Caderno 2, 1 de setembro de 2000.

A corrupção no palco do Sesc Anchieta.
"Desde que iniciou sua trajetória, há quatro anos, com Ensaio sobre Danton, a companhia aplica idéias brechtianas a seus espetáculos, com total adequação ao Brasil de hoje. De forma inteligente e hábil, as montagens Ensaio sobre o Latão, Santa Joana dos Matadouros e O Nome do Sujeito deram continuidade a essa linha, seguida agora, de modo brilhante, por A Comédia do Trabalho."

Alberto Guzik, Jornal da Tarde, 18 de agosto de 2000.

 

Porto: 25 años del FITEI
"De hecho, el espectáculo asumía sin vacilaciones un lenguaje y una voluntad revolucionarias, que se realizaban a través de una escritura brechtiana, sobrepasándola al mismo tiempo, en la sugerencia de la realidad que desalineaba."


(Carlos Porto, revista Primer Acto n.234, março de 2002)







 

 

 

 

 

 

 



A corrupção no palco do Sesc Anchieta

Por Alberto Guzik. Jornal da Tarde, 18 de agosto de 2000.

Em 'A Comédia do Trabalho', a Cia. Do Latão aplica idéias de Bertolt Brecht em um espetáculo que fala de exploração, ganância e desemprego

Em Tropelia, dominada por políticos canalhas e uma elite gananciosa, o povo está sujeito a todo tipo de abuso. Os poderosos são insaciáveis e nada fazer pela nação. Buscam apenas, com a ajuda de experts estrangeiros, armar esquemas que lhes permitam explorar mais e melhor os tropelianos. Não se dão conta de alimentar uma revolta que acabará por se voltar contra eles.
Léo e Créo, gêmeos banqueiros que devem bilhões de bagos (moeda local), ganham, para sair do sufoco, a conivência do governo corrupto, que enfiou o país em uma recessão aguda e causou o desemprego de milhões de pessoas. Núlius, trabalhador demitido, vai suicidar-se atirando-se do alto do banco onde trabalhou por toda a vida. Mas Liu Liu, famosa escritora estrangeira, entra na história. E o suicídio vira uma comoção nacional.
Essa poderia ser uma peça de Bertolt Brecht. Mas é A Comédia do Trabalho, criação coletiva da Companhia do Latão. A semelhança não é mera coincidência. O Latão é hoje um dos mais sérios núcleos de estudo e análise da obra de Brecht no Brasil.E, o que é mais importante, o grupo não é museológico.
Desde que iniciou sua trajetória, há quatro anos, com Ensaio sobre Danton, a companhia aplica idéias brechtianas a seus espetáculos, com total adequação ao Brasil de hoje. De forma inteligente e hábil, as montagens Ensaio sobre o Latão, Santa Joana dos Matadouros e O Nome do Sujeito deram continuidade a essa linha, seguida agora, de modo brilhante, por A Comédia do Trabalho.
O espetáculo, em cartaz no Teatro Sesc Anchieta, é uma comédia trágica que leva o público às gargalhadas, mas deixando sempre um gosto amargo na boca.

O elenco, integrado por Adriana Mendonça, Alessandra Fernandez, Heitor Goldfluss, Maria Tendlau e Ney Piacentini, divide-se entre as múltiplas personagens da trama, todas desenhadas com mão precisa e muita desenvoltura pelos jovens e talentosos intérpretes.
O cenário e figurinos de Márcio Medina, a iluminação de Paulo Heise, a direção musical de Walter Garcia e Lincoln Antonio integram-se à excelente direção de Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano. A Comédia do Trabalho é um espetáculo obrigatório.
 








Porto: 25 años del FITEI

Por Carlos Porto, Revista Primer Acto n.234, março de 2002

A través de sus veinticinco años de vida, que ha cumplido en la reciente edición, el Festival Internacional de Teatro de Expresión Ibérica ha representado uma ruptura, supongo que definitiva, con un ámbito teatral demasiado cerrado y poco imaginativo. Podemos afirmar que varias señales de esta ruptura tienen que ver com las relaciones que se estabelecen - y se enriquecen - entre un espectáculo teatral, cualquiera que sea su productividad estética, y aquellos que son sus responsables, incluyendo a los espectadores que intervienen en términos pasivos o activos, negativos o positivos. Todo esto, teniendo en cuenta que el teatro es uma afirmación, o puede serlo, individual y colectiva al mismo tiempo, una afirmación que puede (¿debe?) passar por las realidades múltiples que lo componem, cuántas veces de carácter destructivo.
La 25a edición del FITEI estuvo dominada por el teatro brasileño, cuya presencia permitió el encuentro con experiencias y proyectos de cierta originalidad y, de alguna manera, esto explica la recepción por parte del público. Entre los grupos brasileños presentes, en su mayoría desconocidos para nosotros, subrayamos el caso de la Companhia de Latão, de São Paulo, que presentó en el Teatro Nacional São João su creación colectiva A Comédia do Trabalho, de la que debemos subrayar su carácter abiertamente político.
De hecho, el espectáculo asumía sin vacilaciones un lenguaje y una voluntad revolucionarias, que se realizaban a través de una escritura brechtiana, sobrepasándola al mismo tiempo, en la sugerencia de la realidad que desalienaba. Si el capitalista sueña, aterrado, con la hoz y el martillo, paralelamente, el obrero desempleado, en su situación de explotado, amenaza con suicidarse em cuanto se oye, vagamente, La Internacional.
Estos y otros lugares comunes del lenguaje revolucionario representan, a través del teatro - y de un teatro que es su propia razón de ser, al mismo tiempo-, la razón de ser del espectador. Su empleo del proceso ficcional ayuda a superar cualitativamente aquello que podría limitarse a un mero juego entre la tragedia y la comedia del trabajo, especialmente para quienes se conforman con barrer para debajo de la alfombra las esperanzas revolucionarias. Por todo esto se entenderá que el montaje paulista es bastante más que los tópicos políticos a los que lo puede reducir um espectador sin imaginación.
De la misma compañia, esta vez en el Pequeño Auditorio do Rivoli, vimos el Auto dos Bons Tratos, espectáculo de carácter histórico, em términos simbólicos, a través del cual nos propone estampas de situaciones inaceptables, como las blasfemias y herejías que expresa el texto. Ha sido um trabajo muy rico, desde el punto de vista de su presentación de un juego social marcado por elementos deshumanizados, que concluye revelando el carácter político de los hechos.

En ambos montajes, la calidad de la representación y de sus intérpretes convierte en realidad aquello que sólo parece pura invención.
 

 

 

 

 

 

 


Companhia do Latão vai além da questão ética

Por Mariângela Alves de Lima. O Estado de São Paulo, Caderno 2, 1 de setembro de 2000.

'A Comédia do Trabalho' expõe, com admirável coerência, o atual estado do sistema produtivo.

Novo espetáculo da Companhia do Latão, A Comédia do Trabalho é uma "construção radicalmente coletiva", diz-nos uma publicação do grupo sobre o processo de trabalho. Isso quer dizer que a concepção e a formalização do espetáculo têm a impressão digital de cada participante do grupo no texto, na forma de interpretação, na música e na resolução visual das cenas. Ser e parecer, pelo menos neste caso, coincidem exatamente. É obra de um coletivo feita para um coletivo, de trabalhadores do teatro para trabalhadores em geral. Se o assunto é o trabalho, o espetáculo não se desvia da rota por um segundo. E, uma vez que o interlocutor desejado se define pela sua posição no sistema produtivo, não há lugar para manifestações de criatividade individual. Todas as cenas esclarecem um aspecto do mundo do trabalho, todos os intérpretes controlam a caracterização das personagens e situações para que se tramem, como pontos de um tecido, ao significado geral do espetáculo. Parte por parte, cena por cena, os elementos convergem para descrever o estado caótico do sistema produtivo na fase atual do capitalismo.

O substrato teórico da narrativa, como não poderia deixar de ser, é marxista. Ainda é a melhor explicação disponível para descrever a exploração e o descarte da força de trabalho. Cá estamos nós, acotovelando-nos ao maior "exército de reserva" da história da humanidade e quem quiser dar a isso outro nome gastará em vão seu baú de eufemismos. A Companhia do Latão quer falar sobre isso e quer, segundo afirma no seu Caderno de Apontamentos, dirigir-se às pessoas marginalizadas pelo capitalismo financeiro.


Tendo definido uma poética e concretizado um trabalho tão íntegro que não se pode detectar nenhuma fissura entre a idéia e o espetáculo, a Companhia do Latão encosta o seu público na parede. Não se trata de gostar ou não gostar, mas de concordar ou discordar. Quem acha que o capitalismo financeiro contém a promessa da distribuição posterior à acumulação discordará da perspectiva que contempla a fase atual de "busca exasperante da integração no mercado do trabalho". Tudo vai melhorar, dirão estes, é só uma questão de aumentar o bolo para depois poder dividi-lo. Aos que não conseguem entrever esse róseo futuro de equanimidade e insistem na singela pergunta "quem vai distribuir a renda?", o espetáculo serve magnificamente para simbolizar suas inquietações. Não há sujeitos no mundo do trabalho, não há um "quem". Há forças moldando o destino coletivo e, correspondentemente, há um espetáculo moldado sobre o desenho dessas forças. O trabalhador Núlius, encarapitado no último andar de um edifício prestes a suicidar-se é todos e ninguém, como são todos e ninguém os empregadores que trocam a empresa pela renda.
Seja qual for a reação do espectador, de empatia ou antipatia, o fato é que o espetáculo atual do grupo, mais do que os anteriores, nos conduz além da etapa de discussão de valores éticos, território que o teatro contemporâneo tem privilegiado quando se refere à vida social.

A Comédia do Trabalho é factual na descrição das condições atuais do trabalho (o tratamento farsesco não se sobrepõe à explicação), explícita na condenação financeira e, de quebra, cética quanto aos benefícios do assistencialismo. Ridículo, na organização do espetáculo, não é o que é bom ou mau, mas o que não dá certo. Pôr o dedinho das boas intenções no dique que contém uma massa desempregada, por exemplo, não vai dar certo. Deve ser, no contexto do espetáculo, uma ação risível.

Coerência - De qualquer forma, um teatro militante, cujo objetivo transcende o circuito fechado representação-fruição, reverte produtivamente, para o meio onde procura desprender-se. Na admirável coerência entre teoria e prática, a Companhia do Latão produz um objeto estético sedutor pela sua inteireza, pelo perfeito ajuste da engrenagem e - não se pode deixar de reconhecer - pela beleza do raciocínio. É provável que Bertolt Brecht, ao arquitetar o teorema que é A Exceção e a Regra, não tenha previsto o belo efeito resultante da exposição de uma estrutura. Da mesma imprevidência sofrem os autores deste espetáculo proporcionando, além da diversão e do prazer que imaginaram, o prazer de contemplar soluções cênicas. A coincidência entre a mira e o alvo, sobretudo em meio a propostas estéticas infladas de redundância, é também um alívio estético.
O resto não é silencio. Não há no teatro de hoje grandes formas teatrais hegemônicas e tampouco, pelo menos na intenção declarada dos artistas, um endereço certo para suas criações. Por essa razão, e uma vez que a vertente do teatro político vem perdendo relevo em meio à cacofonia das múltiplas poéticas, a nitidez e a força do espetáculo da Companhia do Latão tornam-se especialmente precisos.

Alguém precisa falar disso, falar alto, falar bem, encontrar a formalização para o que é tão grande que parecia não caber mais no palco. Há a "condição humana" e há a historia, o que não se pode mudar e o que se pode mudar. Por que a arte silenciaria sobre um desses termos?

 

 

 

 

 

 


Do riso no mundo selvagem

Por Fernando Peixoto, Bravo! nº 36, setembro 2000

Em A Comédia do Trabalho,a Companhia do Latão aprofunda com brilho uma linha estética que combina humor e crítica social

Brecht sempre defendeu o humor como um dos recursos para provocar uma reflexão crítica e dialética no espectador. Chegou mesmo a afirmar que "um teatro onde é proibido rir é um teatro do qual se deve rir. As pessoas sem humor são ridículas". Em A Comédia do Trabalho, a Companhia do Latão, de São Paulo, radicaliza a utilização dos elementos cômicos enquanto dramaturgia e encenação: os intérpretes criam personagens e situações que fazem o público rir durante todo o espetáculo. Mas, na verdade - e um deles diz isto à platéia no início da peça -, estamos diante de uma terrível tragédia agressiva e selvagem.
A opção pela comédia, que pode parecer um paradoxo, é a deliberada busca de uma linguagem cênica capaz de levar o espectador a uma compreensão mais aprofundada e reveladora de muitos problemas trágicos de nossa realidade cotidiana. Esta é efetivamente a "tragédia do trabalho": capitalismo e bancos em crise, investidores estrangeiros prontos para dominar, desemprego, miséria, governos corruptos e violência policial contra manifestações populares. E até mesmo, quase no centro da estrutura do texto, em meio a tantos conflitos e contradições coletivas, a presença de um violento e dramático conflito individual: um empregado que, depois de ter sido demitido, decidiu suicidar-se. As cenas se sucedem de forma sempre surpreendente, surgem novos personagens operários e capitalistas, todas as seqüências são tratadas com espírito de comicidade, mas dialeticamente fazendo pensar e repensar múltiplos aspectos das relações trabalhistas e da luta de classes.
Essa é a quinta produção da Companhia do Latão, criada em 1996, o quinto espetáculo dirigido com fascinante vigor cênico por Sérgio de Carvalho e Marcio Marciano. Os anteriores foram Ensaio para Danton (baseado em A Morte de Danton, de Büchner). Ensaio sobre o Latão (baseado em A Compra do Latão, de Brecht), Santa Joana dos Matadouros, de Brecht, e O Nome do Sujeito (criação coletiva com base em textos de Gilberto Freyre). Em todos, com idéias e propostas brechtianas, o tema foi sempre o confronto crítico com a realidade brasileira.
A Comédia do Trabalho, como texto, aprofunda montagens anteriores, resultando em forte trabalho de pesquisa e investigação coletiva. A princípio foram feitas entrevistas e gravados vídeos nas ruas de São Paulo, material usado como ponto de partida para discussões e estudo. Uma investigação rigorosa que levou o grupo a começar os ensaios com exercícios e improvisações que resultariam na escrita do texto e na construção do espetáculo.
Nesse processo surgiram as cenas, os diálogos, os personagens, a utilização de adereços, a busca do espaço e a introdução de músicas em determinados momentos. Fascinante e aprofundado mergulho na realidade social e política do país, A Comédia do Trabalho chega ao público provocando prazer e reflexão com apenas cinco intérpretes, que do princípio ao fim revelam talento e sensibilidade . Na realidade, a magnífica atuação de Adriana Mendonça, Alessandra Fernandez, Heitor Goldfluss, Maria Tendlau e Ney Piacentini é uma retomada do " sistema coringa" , desenvolvido na década de 60 no teatro de Arena por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri.

Todos fazem diversos personagens e deixam bastante claro que não estão " vivendo" esses personagens, mas sim que são atores que mostram ao público comportamentos, conflitos e contradições. Um valioso espetáculo que faz com que a Companhia do Latão mantenha e continue com coerência sua postura artística e ideológica - nunca presa a modelos ou fórmulas fixas -, renovando a narrativa cênica e buscando novos caminhos para um teatro dialético e marxista, criativo e necessário.
 

 

 

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