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Peça discute
revolução impossível
"A austeridade visual da
cena tem o mérito de destacar o bom trabalho
dos atores. (
) Ensaio para Danton é, antes,
a persistente investigação da sensibilidade
contemporânea por meio de uma grande peça.
O espetáculo tem o diâmetro de um poço:
é preciso debruçar-se para contemplar
o fundo."
Mariângela Alves de Lima, O Estado de
S. Paulo, 08 de novembro de 96
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O prazer de poder
recomendar um bom espetáculo
"É uma
peça para recomendar com prazer. Ensaio para
Danton reúne tudo: um bom texto, dirigido de
forma brilhante,com interessante concepção
cênica e bem interpretado.(
)"
Carmelinda Guimarães - A Tribuna de Santos, 01de
novembro de 96
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Cia.
do Latão ilumina a Razão no Centro Cultural
"A montagem em cartaz revoluciona
esse conflito. Introduz, ademais desse debate moral, um
outro, de corte brechtiano: o debate, se é que
há debate, entre comer e passar fome. A Companhia
do Latão(...) inventa personagens proletários
que subvertem o texto original, com grande efeito cômico
e, digamos tudo, relevância política."
(Marcelo Coelho, Folha de São Paulo, Ilustrada,
15 de setembro de 1999.)
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"Traz o frescor dos elencos jovens - agarrados aos
personagens, seus sentimentos e contradições,
com um empenho, uma entrega incomum."
Nelson de Sá, Folha de S. Paulo
" Ensaio para Danton teve
lotação esgotada e os aplausos mais entusiásticos
deste festival. O público do Rio deveria ter
a mesma oportunidade que a platéia de Recife
de assistir a Ensaio para Danton, uma rigorosa e poética
investigação sobre a ilusão do
teatro e a realidade da vida."
Macksen Luiz, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro
"A peça é
uma pequena jóia teatral para tocar qualquer
coração não ressequido pelo tempo.(
)
Fala de uma revolução impossível,
com sintaxe teatral harmonicamente solucionada. Até
agora, o espetáculo mais fascinante deste festival."
Ivana Moura, Diário de Pernambuco, 25 de novembro
de 97
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Peça discute revolução
impossível
Por Mariângela Alves de Lima. O Estado de
São Paulo, Caderno 2, 08 de novembro de 1996.
Ensaio para Danton dirigida por Sérgio de Carvalho,
revisita obra do escritor Georg Büchner
A transposição de uma peça para
o palco revela, bem o sabemos, apenas parte das incontáveis
possibilidades de um texto. Ainda assim, prudentemente,
o diretor Sérgio de Carvalho faz questão
de deixar claro que o seu trabalho se intitula Ensaio
para Danton. Expressa assim o temor reverente, comum
entre os artistas da cena, quando ousam abordar grandes
peças, obras emblemáticas da dramaturgia
ocidental. E é esse o caso, sem dúvida,
de A Morte de Danton, esplêndida peça escrita
pelo alemão Georg Büchner entre 1834 e 1835.
Ao dramatizar o período jacobino, a peça
tornou-se estrutura modelar. Equilibra documento histórico
e tempo interior. Quase todos os problemas cruciais
da sintaxe teatral estão prefigurados e harmoniosamente
solucionados nessa obra.
A amplitude do espectro de temas e soluções
deve ser mesmo assustadora. Nessa encenação,
que se apresenta, como ensaio, a integridade do protagonista
é preservada. Danton é o homem exausto,
saciado dos seus apetites e do sangue alheio e agora
vazio da paixão revolucionária. Entra
em cena cansado da fúria ativista de sua época
e, em torno dele, o espetáculo faz gravitar a
sedução da inércia. Há lentidão
nos diálogos e suavidade nas vozes, como o que
ocorre na antecâmara dos agonizantes. As canções
populares entoadas como elegia, e mesmo as manifestações
de ternura e erotismo entre os que vão morrer
sugerem um convite gentil ao jardim da morte.
No espetáculo, o tema privilegiado é o
da revolução impossível, uma escolha
perfeitamente sintonizada com a experiência contemporânea.
A partir desse recorte, são eliminadas as caracterizações
panorâmicas do Terror. Espectadores e intérpretes
partilham o pequeno espaço do palco, quase íntimo.
Os diálogos têm uma tonalidade confidencial,
há a luz de chamas iluminando detalhes de expressões
faciais para evidenciar que a História marca
não apenas o corpo, mas também o espírito
dos que a lideram.
Além desse circulo íntimo há o
território político, mais ardente, animado
ainda pela paixão jacobinismo. Mesmo aí,
entretanto, a figura de Robespierre sugere a necrose
do idealismo. Também entre os próceres
do Terror se pressente uma brisa tumular.
Ao reduzir e aprofundar o tema da desesperança,
o espetáculo constrói uma unidade densa
e coerente. Nenhuma grande figura se destaca do conjunto,
porque todas são impulsionadas pela percepção
e pelo sentimento do fracasso coletivo, As composições
de personagens são límpidas, homogêneas,
bem alicerçadas na matéria do texto. A
austeridade visual da cena tem o mérito de destacar
o bom trabalho dos atores.
Embora cautelosamente definido como um esboço,
o trabalho avança a um segundo tema sem conseguir
delineá-lo com a mesma profundidade conferida
ao tema do desalento ideológico. As cenas nas
quais Büchner enfoca a alienação
popular têm um sinal duplo: o sofrimento do povo
e a ferocidade do povo. Ao mostrar apenas uma face da
moeda (a da miséria), o espetáculo desequilibra
uma importante complementaridade.
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Ensaio para Danton é um tipo de experiência
que não pretende alterar convenções
ou faturar os sentidos do espectador. É, antes,
a persistente investigação da sensibilidade
contemporânea por meio de uma grande peça.
O espetáculo tem o diâmetro de um poço:
é preciso debruçar-se e contemplar o fundo.
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O prazer de poder recomendar um
bom espetáculo
Por Carmelinda Guimarães. A Tribuna, Santos,
1 de novembro de 1996
'Ensaio de Danton' reúne tudo de bom
O teatro é uma arte tão complexa que
sempre considerei como grande qualidade do crítico
a paciência. Paciência porque para encontrar
uma boa obra o crítico assiste a pelo menos 100
peças entre fracas e ruins. Como um garimpador,
ele vai separando pedra e areia em muitas peneiras,
até encontrar uma gema valiosa. Mas, quando encontra,
a recompensa é tão grande que vale por
todo o tédio do trabalho anterior.
Ensaio para Danton é um destes casos raros. Fui
até a Lapa atraída pelo nome do diretos
da peça, Sérgio de Carvalho, que até
agora dirigiu apenas um espetáculo, O Catálogo,
de Jean Claude Carriére, apresentado em santos
durante o Porto Cultural. A casa é fora do circuito
teatral, mas Sérgio é um intelectual sério,
que respeito, por isso fui em busca deste teatro de
bairro, que fica na Rua Tito, o Cacilda Becker.
Uma tarde de domingo, horário publicado errado.
Cheguei ao teatro uma hora antes, foi difícil
encontrar o local. Mas, a satisfação de
garimpar uma obra digna do leitor inteligente recompensou,
de longe, o esforço.
É uma peça para se recomendar com prazer.
Ensaio para Danton reúne tudo: um bom texto,
bem entendido e dirigido de forma brilhante, com interessante
concepção cênica, bem interpretado,
trazendo uma discussão lúcida e contemporânea
sobre a revolução francesa.
O melhor trabalho de questionamento político
que vejo desde a queda do muro de Berlim que pôs
em pauta a falência do sistema comunista russo.
Sérgio faz uma leitura ampla e profunda do texto
de Buchner, dando a ele uma dimensão atual e
humana, sobre a violência dos processos revolucionários.
Sérgio introduz o espectador pela entrada dos
fundos do teatro, colocando-o no palco, olhando nos
olhos dos atores, que têm interpretações
limpas e interiorizadas, vestem figurinos simples e
de refinado bom gosto, usando as soluções
de cenografia despojadas, feitas a partir dos próprios
urdimentos do palco. Tudo simples e genial.
Depois, ele desloca o espectador para a platéia,
assumindo lugar que havia sido da assembléia
popular, para assistir - então como cúmplice
- a execução de Danton.
Tão essencial como o teatro de Grotowski colocado
novamente em discussão, depois da visita recente
deste grande diretor polonês a São Paulo.
É tudo tão bom que nem quero falar demais,
para deixar ao leitor a mesma sensação
de prazer e descoberta que tive.
Acrescento apenas alguns dados sobre Buchner, que merece
ser mais conhecido.
Buchner - Apresentado usualmente como um dos
mais importantes do romantismo alemão,
George Buchner (1813-1837) foi com efeito um anti-romântico
em seu ambiente romântico, como classifica
John Gassner. "Sua filosofia do caráter,
que brotava da perspectiva da ciência mecanicista
do século XIV, constitui uma nítida
ruptura com o heroísmo da tempestade de
ímpeto. A Morte de Danton, com seus retratos
de Danton e Robespierre, ambos apanhados pelo
redemoinho da revolução desenfreada,
exemplifica sua visão determinista".
"Os indivíduos - escreveu Buchner explicando-se
- não passam de rebentações de
uma onda; a grandeza, do mais puro acidente; a força
do gênio, uma peça de marionetes; a luta
de uma criança contra uma lei de ferro".
Foi agitador político, médico e
filósofo, morreu muito jovem. Escreveu
apenas três peças de teatro que lhe
conferem um lugar importante dentro da dramaturgia
mundial: Woyzeck, Leonce e Lena, A Morte de Danton.
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A modernidade de seus
temas, como a solidão, a dificuldade de comunicação,
a luta política tem a força do melhor
teatro contemporâneo.Em A Morte de Danton
é a dialética das revoluções
que é posta em discussão.
É atribuído a este texto uma influência
deHamlet, de Shakespeare, no caráter melancólico
do personagem imponente diante do momento sanguinário
da revolução. Robespierre é sua antítese:
em nome da virtude, torna-se o braço forte do terror. |
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Cia. do Latão ilumina
a Razão no Centro Cultural
Por Marcelo Coelho, Folha de São Paulo,
Ilustrada, 15 de setembro de 1999.
Chaveiros, encanadores, eletricistas, mecânicos
de automóvel: esses profissionais pertencem
ao que se convencionou chamar, não sei
se por eufemismo ou violência, de "classes
subalternas'' da sociedade.
Mas eles têm uma vantagem diante do assalariado
comum. Quando alguém precisa de seus serviços,
é porque está numa situação
de emergência. A balança do poder
então se inverte: todo sujeito das "classes
superiores" já implorou, sem sucesso,
o socorro de um eletricista ou acompanhou, de
coração aos saltos, as opiniões
pessimistas, reticentes e laboratoriais de um
técnico em computadores.
Em "Ensaio sobre o Latão", peça
em cartaz no porão do Centro Cultural São
Paulo, há uma cena desse tipo. Na peça,
vemos uma companhia teatral ensaiando um texto
clássico ("Hamlet"') e discutindo
as relações entre o teatro e a realidade.
Aí entra em cena um personagem importantíssimo:
o Iluminador. Está fazendo os ajustes de
luz para a estréia da peça. Autoritário,
objetivo, técnico, ele quebra não
só a dramaticidade do texto shakespeariano
como também as inquietações
teóricas em que se debate a companhia.
Naquele momento, ele rege o espetáculo.
Seu repentino poder se choca, entretanto, com
a materialidade do ofício: ajustando uma
lâmpada, sofre um acidente cômico.
Não posso contar mais, já estou
estragando a surpresa, mas há outras ,que
dão ao iluminador um papel conclusivo na
peça.
Só para comentar direito essa cena, eu
precisaria de um artigo inteiro. É que
"Ensaio Sobre o Latão'' consegue,
a cada fala, a cada momento, articular vários
níveis de significado, sem nunca perder
a inteligibilidade. É uma peça ao
mesmo tempo transparente e complexa.
Observe-se apenas o seguinte: um técnico
"subalterno'' responde pela "realidade''
e que, não por acaso, é o "iluminador''
(isto é, o responsável pelo "esclarecimento'').
Que esse profissional, "inferior'' aos atores
e ao diretor, sobe numa escada, vê o ensaio
"de cima'' e, além disso, manipula
a escada de madeira como se fosse uma guilhotina.
Com a guilhotina, passamos à outra peça
também encenada no Centro Cultural São
Paulo pelo grupo de Sérgio de Carvalho:
é o "Ensaio para Danton'', onde mais
um texto clássico ("A Morte de Danton'',
de Georg Büchner) sofre uma leitura revolucionária
e riquíssima.
O texto de Büchner, escrito por volta de
1830, narra o conflito entre Danton e Robespierre.
Numa ótica burguesa, o que não quer
dizer errada, está em jogo o conflito entre
liberdade e terror, entre indivíduo e tirania.
A montagem em cartaz revoluciona esse conflito.
Introduz, ademais desse debate moral, um outro,
de corte brechtiano: o debate, se é que
há debate, entre comer e passar fome. A
Companhia do Latão -esse é o nome
do grupo responsável pelas duas peças-
inventa personagens proletários que subvertem
o texto original, com grande efeito cômico
e, digamos tudo, relevância política.
É o mesmo procedimento que estávamos
vendo acima. Os pobres de "Danton'', como
o iluminador de "Ensaio sobre o Latão'',
irrompem em cena para desestabilizar o teatro
convencional e para complicar a discussão.
O grande mérito de uma peça de teatro,
para mim, é quando fica impossível
resumi-la, quando sinto que perdi alguma coisa
do jogo de idéias e de pontos de vista
posto em cena. A Companhia do Latão faz
isso.
Milita em favor da Razão. Com "R''
maiúsculo mesmo, essa maiúscula
anda fazendo falta.
Vai ficar parecendo, com tudo o que eu disse,
que os espetáculos da Companhia do Latão
são difíceis e cerebrais. Ao contrário:
são engraçados, econômicos,
cheios de criatividade e de talento. O compromisso
do grupo, segundo o diretor Sérgio de Carvalho,
é com a inteligibilidade.
Aqui podemos voltar ao tema da metalinguagem.
Uma peça mostrando atores que ensaiam o
"Hamlet'' e discutem o que deve ser o teatro
teria tudo para surgir como masturbação
metalinguística. Não é o
caso de "Ensaio sobre o Latão''.
Pois a moda da metalinguagem, desde Pirandello,
tem servido a preocupações bastante
frívolas: mostrar que "tudo é
ilusão'', "questionar'' a linguagem,
mostrar que "não há nada a
dizer'' etc. Na falsa metalinguagem de "Ensaio
sobre o Latão'', o conteúdo é
importantíssimo.
Essa peça, que mostra atores ensaiando
"Hamlet", usa o texto de Shakespeare
de forma extremamente engenhosa, de modo a nem
percebermos direito o momento em que as palavras
literais do clássico se misturam a Brecht
ou ao cotidiano brasileiro.
Ora, essa foi exatamente a estratégia do
príncipe da Dinamarca, que, no drama de
Shakespeare, recorre a atores mambembes para saber
se o rei Cláudio realmente assassinou seu
pai. Shakespeare (ou Hamlet) fez "teatro
dentro do teatro" não por interesse
em diversões metalinguísticas, mas
porque importava desvelar a realidade. Isso é
o que pretende a Companhia do Latão. A
realidade brasileira vibra nesses exercícios,
que é preciso ser muito burro para considerar
"intelectuais".
Karl Marx era leitor de "Hamlet". No
"Dezoito Brumário" compara a
revolução, naquele momento em refluxo,
à "velha toupeira'' que, cegamente,
escava seu caminho sob o sólido terreno
burguês. A frase -"velha toupeira''-
provém de Shakespeare: é assim que
o príncipe Hamlet saúda o pai traído
e assassinado.
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E é como se
a Companhia do Latão confiasse num fantasma
-o de Brecht? O do Teatro? O da Razão? O
de Marx?- para subverter a mesmice desesperançada,
irracional, mercadológica, "fashionable''
ou, na melhor das hipóteses, festiva do teatro
no Brasil.
O porão do Centro Cultural São Paulo
nunca esteve tão bem iluminado. |
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