ENSAIO SOBRE O LATÃO
APRESENTAÇÃO

Espetáculo questiona função da Arte
"[A Companhia do Latão]enfrenta, em um espetáculo definido como experimento, a questão essencial da função da arte. Sob o efeito desse questionamento - feito com as palavras de Brecht - são recriações das cenas de Hamlet. Dessa forma, o espetáculo polariza duas concepções teatrais hegemônicas: o drama filosófico existencial e o teatro épico, que religa a consciência às condições concretas do tempo histórico."

(Mariângela Alves de Lima,O Estado de São Paulo, Caderno 2, 19 de setembro de 1997)







 

 

 

 

 

 

 










Espetáculo questiona função da Arte

Por Mariângela Alves de Lima. O Estado de São Paulo, Caderno 2, 19 de setembro de 1997

É inquestionável o lugar privilegiado que Bertolt Brecht ocupa no panteão dos grandes artistas deste século. Não é tão líquida e certa a sobrevivência de sua teoria da comunicação teatral. Fundamentada na crítica das relações sociais sob o capitalismo e tendo como horizonte a construção do socialismo, todas as suas propostas convergem para a funcionalidade da arte. É inevitável, portanto, que a reverberação da sua teoria sobre a prática teatral se tenha atenuado com o enfraquecimento real do projeto socialista.
Além do aspecto de instrumento para a transformação da sociedade há outras possibilidades para a apropriação eficaz das idéias brechtianas. Nos textos em que propõem a fragmentação de tempo e espaço, na ironia que utiliza como método para aclarar a relação entre o sujeito e a história e no detalhamento dos elementos de composição do espetáculo, reconhecemos ligações úteis que o teatro contemporâneo tem utilizado com freqüência. Nem sempre para propor um futuro melhor e, com freqüência , para expressar o que Gerd Bornheim denomina de niilismo ocidental.
A recém fundada Companhia do Latão não parece interessada, por enquanto, nas aplicações formalistas da teoria brechtiana. Enfrenta, em um espetáculo definido como experimento, a questão essencial da função da arte. Sob o efeito desse questionamento - feito com as palavras de Brecht - são recriações das cenas de Hamlet. Dessa forma, o espetáculo polariza duas concepções teatrais hegemônicas: o drama filosófico existencial e o teatro épico, que religa a consciência às condições concretas do tempo histórico.
A graça desse experimento é mostrar para o público de que forma a criação se transforma sob o influxo de um propósito. Quando alguém pergunta por que se representa, as cenas adquirem consistência e poder de comunicar. Ainda assim não somos arrebatados pelo conflito do príncipe ou pela ambição do rei, porque a força mais definida do espetáculo é a concentração e a seriedade com que os atores que não fazem as cenas participam silenciosamente da recepção. A produtividade do trabalho criativo, capaz de amparar uma invenção ou esvaziá-la de encanto se a interpretação não tem objetivo, e a forma de sedução que o trabalho propõe. O caráter exemplar de espetáculo completa-se porque todos os integrantes do grupo têm um excelente preparo técnico para transitar entre a dramatização que acontece no Hamlet e o tom mais realista dos diálogos brechtianos. A exemplo das peças didáticas de Brecht,trata-se de uma lição econômica, bem-estruturada, com um efeito estético que nasce da precisa coerência dos termos.
A relação que estas idéias possam ter com este tempo e este espaço é insinuada por intermédio de figuras extraídas da marginalidade paulistana.

Ainda documentais, coladas à realidade de que foram extraídas, esses personagens são mais uma indicação do que se pretende do que uma elaboração cênica coerente com linguagem do espetáculo.
Falta-lhes uma certa deselegância teatral. Um pouco polidos demais, inspirados talvez nas imagens do entre-guerras europeu, os jovens intérpretes não parecem ainda à vontade para representar a frenética agitação da noite subtropical.
 

 

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