A
cruel atualidade da Santa de Brecht
"Em termos sumaríssimos,
eis o dilema que tem de enfrentar toda encenação
inteligente da peça de Brecht: como pôr em
cena um teatro inteiramente presente, mas, ao mesmo tempo,
como que inacessível? Creio que os jovens encenadores
da Cia. Do Latão enfrentaram esse dilema de maneira
no mínimo admirável."
(José Antônio Pasta Júnior, BRAVO!,nº
10, julho de 1998)
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Grupo faz oportuna montagem
de texto de Brecht
"Há muitos modos
de se aproximar dessa peça complexa, na qual se
interseccionam vários planos narrativos, e a escolha
da Companhia do Latão, atribuindo maior ênfase
à formação da consciência crítica
de Joana Dark, parece especialmente oportuna."
(Mariângela Alves de Lima,O Estado de São
Paulo. Caderno 2, 12 de junho de 1998)
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Santa
Joana critica vida de gado
"Os atores estão à vontade e não
perdem o vigor do início ao fim. Disciplina e maturidade
raras, diga-se, para criticar a "vida de gado"
com veemência."
(O Diário, Mogi das Cruzes, 14 de junho de 1998.)
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...uma nova perspectiva de teatro, uma espécie
de teatro total que inclui, ao mesmo tempo, o espetáculo
e a reflexão, o que é plenamente alcançado
pela Companhia do Latão."
Antonio Hohlfeldt, Porto Alegre, 31 de agosto de 98
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A cruel atualidade da Santa de Brecht
Por José Antônio Pasta Júnior,
BRAVO! nº 10, julho de 1998
Cia. Do Latão alia rigor e ironia na montagem
da peça que leva ao auge da exasperação
e do sarcasmo o conflito entre capital e trabalhadores.
No dia seguinte ao dia da estréia dessa Santa
Joana dos Matadouros, pela Cia. Do Latão, 500
mil evangélicos realizaram na cidade de São
Paulo a Marcha para Jesus, enquanto o desemprego batia
seu pico na capital industrial-financeira do país.
Do lado deste, nenhuma reação coletiva
propriamente organizada, embora o desespero estoure
aqui e ali, e o descontentamento ameace concentrar-se.
A situação dá um pouco a medida
da atualidade possível da peça de Brecht
e da oportunidade de sua encenação.
Coo se sabe, a Santa Joana leva ao auge da exasperação
e do sarcasmo a representação do conflito
de interesses entre o capital industrial e financeiro
e os trabalhadores - expondo a conseqüência
mais trivial e mais desagregadora que sobra para estes
últimos: o desemprego em massa. Na peça,
a consciência das massas à deriva é
disputada pela doutrinação religiosa e
pelos comunistas, cabendo a estes a palavra da razão
e o justo caminho. Atualíssima, seja pelo lado
da indiferença capitalista pelo destino dos despossuídos,
seja pela vertiginosa expansão atual do conformismo
esotérico-religioso, a Santa Joana se apoia no
vazio pela outra ponta - aquela que se liga à
doutrinação comunista e ao projeto revolucionário,
hoje aparentemente afastados de todo horizonte visível.
Esse descompasso está na base de um sentimento
incontornável que hoje se tem perante o teatro
de Brecht: sua pertinência e seu interesse continuam
inteiros, ao mesmo tempo que, perdida sua interlocução
imediata, ele agora brilha também como "
um astro sem atmosfera" . Em termos sumaríssimos,
eis o dilema que tem de enfrentar toda encenação
inteligente da peça de Brecht: como pôr
em cena um teatro inteiramente presente, mas, ao mesmo
tempo, como que inacessível?
Creio que os jovens encenadores da Cia. Do Latão
enfrentaram esse dilema de maneira no mínimo
admirável. Se não estiver enganado, é
um sentimento agudo dessa dualidade que responde por
várias das opções centrais da encenação.
Em primeiro lugar, o seu rigor quase ostensivo: as marcações
milimétricas, a atuação hiperestilizada,
a iluminação cerebral, não-espetacular,
as sonoridades secas e contidas, etc. - ao mesmo tempo
que sublinham a validade absoluta do que é dito,
tratam de mantê-lo como que aprisionado em um
cristal de formalização rigorosa e cortante,
intangível. Não se trata de formalismo,
entretanto, porque com essa cristalização
se conjuga o caráter irônico da montagem:
ela não só mantém e explora várias
das virtualidades distanciadoras e sarcásticas
previstas no texto de Brecht, mas lhes acrescenta alguma
coisa- um tom falsamente resignado, afinal jocoso, de
quem realizasse um puro exercício intelectual,
desligado de toda dimensão prática ou
de conseqüência real, destinado apenas à
dita "contemplação desinteressada"
. Ora, como o interesse dos temas - e a peça
o sublinha - é o maior possível, o efeito
final é de ironia e auto-ironia, apontando de
novo para a atual dualidade brechtiana mencionada acima.
Em vista disso, torna-se difícil aceitar algumas
das opções feitas para o início
da encenação - tanto o cortejo dos boinas-pretas
pelo saguão do teatro, quanto as cenas de exterior,
iluminadas a fogo e acompanhadas pelo público,
nas quais foram antecipadas as
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| falas dos operários
diante das indústrias fechadas: essa interação
mais desenvolta de palco e platéia - que parece
pagar um tributo aos anos 70 - não destoa das opções
até rigoristas da encenação e do
ethos que parece dirigi-las? Mas, felizmente, essas opções
mais rigorosas levam a melhor e regem de fato essa bela
Santa Joana. |
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Grupo faz oportuna montagem de texto
de Brecht
Por Mariângela Alves de Lima. O Estado de
São Paulo. Caderno 2, 12 de junho de 1998
Bertolt Brecht escreveu Santa Joana dos Matadouros
em 1930, no momento em que a economia mundial vivia
sob o impacto da onda de choque provocada pela queda
da Bolsa de Nova York. É um período de
infelicidade histórica, mas, também, é
preciso convir, de extrema felicidade didática.
Nunca ficou tão claro o modo como a vida de milhões
de pessoas podia ser afetada concretamente por decisões
tomadas na esfera abstrata da especulação
financeira.
Desde então, a persistência desse fenômeno
em um sistema econômico baseado no lucro se tornou
mais familiar. Assim sendo, um dos objetivos da peça,
o de demonstrar de que forma a abundância da mercadoria
justifica o desemprego e a conseqüente miséria
dos trabalhadores, talvez tenha perdido a sua força
original. Por sua perversa incidência, o fenômeno
tornou-se mais conhecido, embora não menos absurdo.
É provável que o espetáculo feito
pela Companhia do Latão e dirigido por Sérgio
de Carvalho tenha considerado a aula sobre o modelo
econômico capitalista que a peça de Brecht
proporciona menos importante do que o exame das três
vertentes ideológicas configuradas e discutidas
por meio da representação do capital,
do trabalho e do grupo religioso salvacionista.
No espetáculo, a esfera do capital, na qual se
movem os espectadores, os industriais e os produtores
rurais, é reduzida para que se identifiquem as
causas do fenômeno, sem muitos detalhes. A ênfase
dramática recai sobre o grupo assistencialista
e sobre o vácuo ideológico que possibilita
a manipulação da massa trabalhadora.
Para obter esse efeito há, de início,
uma alteração na sucessão das cenas.
Em vez de começar no âmbito recluso dos
especuladores, o espetáculo surge "da rua",
ou seja, com os trabalhadores concentrados diante da
fábrica parada e assediados pelo proselitismo
religioso da seita à qual pertence Joana Dark,
a ardente mártir desse conflito. São esses
os personagens que conduzem o público às
entranhas da superestrutura capitalista.
Empatia - No primeiro plano da encenação,
envolvendo o público, estão o desabrigo,
a fome e a inquietação da massa humana.
Nenhum sentido se perde com essa inversão e,
ao contrário, parece mais lógico obter
a adesão dos espectadores fazendo com que se
integrem aos efeitos antes de questionar as causas.
A transição de Joana, desprendendo-se
desse agrupamento para enfrentar o espectador, é
também, do ponto de vista da situação
espacial do espetáculo, um movimento que os espectadores
também fazem ao segui-la pelo interior do edifício
teatral. Estabelece-se assim, sutilmente, um vínculo
de empatia endereçado não à personagem,
mas ao movimento que ela faz para identificar e tentar
combater seu adversário.
Há muitos modos de se aproximar dessa peça
complexa, na qual se interseccionam vários planos
narrativos, e a escolha da Companhia do Latão,
atribuindo maior ênfase à formação
da consciência crítica de Joana Dark, parece
especialmente oportuna. É por meio de sua transformação
que o espetáculo contraria a eternização
do modelo capitalista, no qual, nas palavras do especulador,
"tudo continua igual, tanto no ciclo dos astros
quanto no das mercadorias".
Em alguns momentos do espetáculo faz falta uma
intervenção mais inteligente e reflexiva
de Bocarra. Brecht desenha-o realmente com os traços
grossos da caricatura, mas atribui-lhe dinamismo.
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| Essa insaciável
mandíbula também muda no decorrer da peça,
ou seja, adota novas estratégias para contornar
obstáculos à acumulação. Do
modo como a personagem é representada nessa encenação,
exasperadamente lenta, evidentemente hipócrita
e, de um modo geral, repulsiva, se perde esse traço
de esperteza e oportunismo. |
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Santa Joana critica vida de gado
(Sem assinatura) O Diário, Mogi das Cruzes,
14 de junho de 1998
Companhia do Latão atualiza peça de Brecht
talento e técnica de jovens atores
São Paulo - Antes do espetáculo, o público
aglomera-se no saguão do Teatro João Caetano.
A procissão dos "soldados de Deus"
surge no meio da multidão; Depois de breve discurso,
apresenta-se Joana, a líder carismática.
Os "soldados" então convidam os espectadores
a entrar pela lateral externa do teatro, via porta e
corredor estreitos. O aperto, ombro a ombro, transmite
a sensação de que a massa é conduzida
para um abatedouro, feito gado. A propósito,
é assim que começa "Santa Joana dos
Matadouros", a nova montagem da Companhia do Latão.
Escrita a quase 70 anos, a peça de Bertolt Brecht
(1898-1956) guarda uma atualidade impressionante com
os tempos que correm. O autor, cujo centenário
de nascimento é lembrado este ano, tomou alguns
clássicos da literatura universal - como Goethe,
Hõlderlin e Schiller - para construir uma paródia
do ideal humanista à época, ainda sob
efeito do crash de Nova Iorque em 1929 - aliás,
quando a peça começou a ser escrita.
Aqui, Joana está a serviço do Exército
de Salvação, entidade de cunho evangélico.
Ela prega a não-violência no embate entre
operários famintos e patrões que dominam
a indústria de carne enlatada na Chicago forrada
de gangsters.
O discurso gandhiano de Joana é levado à
exaustão. No afã de "mostrar a eles
que eles não são maus", referindo-se
aos patrões, ela chega ao ponto de trair seus
companheiros boinas-pretas em uma greve. Mas depois
é "canonizada" pela opção
pelos pobres.
Pedro Paulo Bocarra, o rei da carne industrializada
- ele não dá um passo sem o aval dos "amigos
de Nova Iorque" - é o antagonista da história.
Mesmo preferindo o cheiro de cavalo ao do "populacho",
vê seu dique capitalista rompido pela "santa"
Joana, mulher que lhe provoca certo encanto.
No jogo duplo jogo entre a contemplação
da porta-voz dos operários e a manipulação
desta em favor do próprio bolso - não
cede uma nesga sem que lhe seja revertido em dobro -
Bocarra é a perfeita tradução daquela
meia dúzia de cérebros que operam a máquina
capitalista com frieza ímpar.
A atualização de "Santa Joana dos
Matadouros" é certamente um dos atributos
que levam o pesquisador e tradutor Roberto Schwarz a
classificá-la como uma das peças mais
importantes do século. Alude, por exemplo, no
Brasil, aos recentes saques de alimentos pela população
carente aos conflitos pela terra.
Na montagem da Companhia do Latão, a história
ganha tratamento farsesco, como o dramaturgo alemão
sugere. Sobretudo nas interpretações,
sempre a recriar o conceito de distanciamento tão
propagado pelo Brecht diretor
Gustavo Bayer capta muito bem o perfil apatetado de
Bocarra. O sentimento de araque, a resignação
dissimulada, enfim, um personagem erguido no limite
entre a comédia desbragada e o nonsense. O vilão,
por assim dizer, é convertido em bufão.
A empatia está em ser ridículo no pódio
do poder.
A vocação de mártir de Joana, edulcorada
pela condição de mulher, operária
e pobre, fica patente na voz clerical da atriz Débora
Lobo e na postura corporal um tanto alquebrada, como
se carregasse um fardo, uma cruz, ao longo do espetáculo.
Cega em sua crença, a via-crúcis da protagonista
lembra Jô em sua perseverança.
O elenco, ressalta-se comete uma atuação
uniforme. O vigor, a técnica e o talento são
inerentes em cada um dos jovens atores do Latão.
A direção conjunta de Sérgio de
Carvalho e Márcio Marciano empresta uma dinâmica
de espaço que transcende ao palco italiano. "Santa
Joana dos Matadouros" inventa o seu espaço
total, físico e imaginário. As cenas itinerantes
se passam no saguão, do lado de fora, ao ar livre
(iluminadas pelas chamas do fogo), no palco propriamente
e na platéia. A inversão de papéis
culmuna com a entrada do público pela cochia,
já captando, in loco, a tensão e o sarcasmo
que pontuam a encenação.
Márcio Medina reflete atemporalidade na cenografia
e nos figurinos. O tom predominantemente cinza das roupas
e correntes suspensas retratam o processo de desumanização
sublimado no texto. A iluminação de Wagner
Pinto e a música da dupla Walter Garcia e Lincoln
Antônio complementam a densidade que se quer atingir
por trás de cada esgar, de cada riso.
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Talvez seja
esta uma boa definição para a Companhia
do Latão. Como nos espetáculos anteriores,
"Ensaio para Danton" e "Ensaio sobre o
Latão", o entretenimento não vem mastigado.
A erudição cede para um cadinho de coloquialismo,
deixando fluir o prazer da representação.
Os atores estão à vontade e não perdem
o vigor do início ao fim. Disciplina e maturidade
raras, diga-se, para criticar a "vida de gado"
com veemência.
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