JOÃO FAUSTO
Leitura Cênica
APRESENTAÇÃO
João Fausto
Latão satiriza discurso acadêmico







 

 

 

 

 

 

 



João Fausto
Por P.C. 13/10/2000. Caderno 2 - O Estado de São Paulo

Após uma temporada de sucesso da peça A Comédia do Trabalho, a Companhia do Latão retoma hoje, às 21 horas, no Instituto Goethe, as leituras públicas de João Fausto. Serão duas apresentações do que chamam de "trabalho em progresso". "Nunca estreamos algo totalmente pronto, sempre fazemos leituras públicas ou ensaios abertos", lembra Ney Piacentini, um dos membros da companhia. Isso aconteceu com João Fausto entre outubro e novembro do ano passado, quando, à convite do mesmo Instituto Goethe, foram realizadas sete leituras da peça, por ocasião das comemorações dos 250 anos do filósofo alemão. "O que faremos agora, não serão leituras frias, mas apresentações em que já há elementos cênicos e muita música",adianta Piacentini. A peça , do compositor alemão Hanns Eisleir, é uma ópera que não chegou a ser musicada por conta da polêmica causada na época que foi escrita. Em meio ao regime comunista na República Democrática Alemã, (a extinta Alemanha Oriental), o compositor, parceiro constante de Bertolt Brecht, escreveu uma peça que discute, por meio da sátira, o papel do intelectual na sociedade. "Os burocratas alemães devem ter se visto no personagem", especula Piacentini.
No campo - Não é para menos. Utilizando-se do mito de Fausto, que vende sua alma ao diabo em troca de sabedoria universal, o autor atravessa momentos importantes da história da Alemanha. Um deles é a revolta camponesa ocorrida em 1525, em que o camponês Thomas Münzer enfrentou o todo-poderoso líder religioso Martinho Lutero, lutando por terras. "Isso nos remete à luta que ocorre em nosso país e da qual estamos muito próximos, por causa do nosso contato com o MST", lembra Piacentini. O João Fausto do título da peça é um camponês, que conhece Münzer, depois morto junto com seus companheiros e também com seu célebre opositor. Com o passar do tempo, o protagonista torna-se um intelectual conceituado, quatro vezes doutor e vira as costas para a sua origem popular. Sua jornada culmina no pacto que faz com o diabo, para que seja famoso sem ter que estudar muito. "A partir dessa trajetória, satirizamos o intelectual que se afasta de seu papel social", conta o ator. Para isso fazem uma leitura cênica em forma de conferências. "Até porque decidimos não montar a peça da maneira tradicional, pois aqui a forma está muito de acordo com o conteúdo", garante. Apesar da referência do mito de Fausto ser sempre o filósofo alemão Johann W. Goethe, esse era um personagem recorrente da cultura popular alemã. Antes de o livro de Goethe - que tinha obsessão pelo tema, tendo-o escrito entre 1797 a 1832, quando morreu - ser lançado, outros vários autores já descreviam o mito. Um dos livros mais famosos anteriores a Goethe é o do autor inglês Thomas Marlowe, que escreveu A Trágica História do Doutor Fausto, em 1588. Essa peça também foi estudada pela Companhia do Latão para a atual montagem. Foi com base em todo esse arsenal teórico que Hanns Eisler escreveu sua obra, em 1952, quando voltou do exílio nos Estados Unidos. Mas o que mais lhe inspirou foi o livro Doutor Fausto de seu amigo Thomas Mann, cuja elaboração Eisler acompanhou de perto.
Não é a primeira vez que a Companhia do Latão trata do mito de Fausto. Em outra peça de autoria do grupo, O Nome do Sujeito, eles já tinham se utilizado da idéia do homem que faz um pacto com o diabo em troca de sabedoria. "Ali utilizamos de Fausto para tratar de um tema eminentemente brasileiro em um texto criado por nós", ressalta Piacentini. "Até pensamos em não trabalharmos este texto por causa da coincidência do tema, mas nos apaixonamos por ele, principalmente por sua força política", afirma.

Pesquisa - Mesmo sendo "um trabalho em progresso" o grupo segue com João Fausto a pesquisa que realiza sobre os métodos de criação do dramaturgo alemão Bertold Brecht. "Esse é o nosso norte, sempre aprofundamos essa pesquisa, em todos os nossos trabalhos", garante o ator. Na atual montagem, a questão do espaço para que o público crie junto com os atores a ação que se desenrola no palco é trabalhada de maneira profunda, já que a encenação deixa muitas brechas para isso. "Não faremos algo chato, em volta de uma mesa. O que se verá é o resultado de muito estudo e da forma como nos apropriamos do texto após as leituras do ano passado", diz Piacentini. "Se não fosse algo minimamente pronto não teria sentido apresentar para o público", garante Piacentini.

Depois dessas duas semanas a companhia retoma a temporada da peça A Comédia do Trabalho na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no fim do mês com entrada gratuita e segue para uma turnê pelo interior de São Paulo e Nordeste do país. No anos que vem, estarão de volta à cidade com a peça, em temporada popular.
 








Latão satiriza discurso acadêmico

Por Gustavo Fioratti. Revista da Folha, Folha de S. Paulo, 13 de outubro de 2000.

Tempo houve para ensaios. Mas, por opção, a Companhia do Latão estréia, no Instituto Goethe, um "espetáculo-leitura". Com a inusitada mistura (partes lidas, partes encenadas), o grupo apresenta "João Fausto", montagem originada a partir do libreto para ópera "Johann Faustus", do compositor alemão Hanns Eisler. A obra de Eisler baseia-se em histórias populares sobre um Fausto anterior à obra-prima de Goethe. Seu enredo transcorre no século 16, centralizado nas narrações do protagonista sobre um levante camponês liderado pelo teólogo Thomas Münzer. O Latão compôs um prólogo para introduzir melhor o contexto. A trama parte, enfim, para uma série de ironias e sátiras dirigidas aos intelectuais. Os diretores Sérgio de Carvalho e Marcio Marciano sublinham o sarcasmo do texto, escrito em 1952, que recai principalmente sobre os pensadores que deixaram de ser esquerdistas.

A obra foi traduzida por Irene Aron para ser encenada especialmente pelo Latão. Tem "tom acadêmico", segundo o diretor Sérgio de Carvalho. "E o fato de estar sendo encenada no Instituto Goethe torna isso mais engraçado", completa.
 

 

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