O MERCADO DO GOZO

APRESENTAÇÃO
Latão cria inquietante jogo de desilusão
"É um jogo de desilusão muito bem feito (...) cheio de pequenas armadilhas para deixar inquietos senão todos, pelo menos aqueles espectadores normalmente empolgados com as representações heróicas da vitimização. (...) Não há nada tão eficiente quanto o bom teatro para puxar o tapete das nossas certezas."


(Mariângela Alves de Lima, O Estado de S. Paulo, 19 de setembro de 2003.)
A dialética do fetichismo
"Em O Mercado do Gozo, Companhia do Latão satiriza as seduções do espetáculo e conjuga antes uma dramaturgia histórica brasileira que uma cartilha brechtiana."

(Hélio Ponciano, Revista Bravo, outubro de 2003.)


O Mercado do Gozo
"Ao estabelecer a mulher e as suas relações com a sociedade mercantil desenvolvida nos trópicos como o centro de gravidade da dramaturgia, O Mercado do Gozo (...) exige da ação uma reordenação formal capaz de contemplar os dilemas e contradições provocadas pela modernização brasileira. (...) E isso é mais um ganho da excelente montagem da Companhia do Latão a respeito das particularidades de nossa condição."

(João Carlos Guedes Fonseca, O Sarrafo, agosto de 2003.)



"No melhor estilo brechtiano, os personagens são caracterizados de maneira a repelir a adesão da platéia aos seus pontos de vista e às suas posições. Longe de opor oprimidos contra opressores, heróis contra vilões, O Mercado do Gozo apresenta seus personagens como homens, como portadores tanto de misérias quanto de virtudes, submetidos indiscriminadamente a uma sociabilidade mercantil que os faz de reféns (...)."

(Adriano Blattner e Mariana Flesch, do site Luta Socialista, outubro de 2003)






 

 















Latão cria inquietante jogo de desilusão

Por Mariângela Alves de Lima. O Estado de São Paulo, 19 de setembro de 2003

'O Mercado do Gozo' é bom teatro, feito para puxar o tapete de nossas certezas


A história dos movimentos sociais tem sido objeto de reconstituição paciente uma vez que as fontes que registravam a ação dos que querem mudar a ordem social foram sistematicamente suprimidas nos relatos dos que combatiam os transtornos da ordem vigente.

 

Aquilo que sobrenada e se calcifica nas versões autorizadas é, na maior parte dos casos, a versão dos vencedores.Não é estranhável, portanto, que os historiadores e, na esteira deles, os artistas, estejam sempre pesquisando, resgatando e se esforçando para devolver ao sistema venoso da cultura as epopéias suprimidas dos movimentos populares. Pois é chegada a hora, ao que parece, de fazer avançar este procedimento reexaminando o modo como se reintegra à consciência coletiva, por meio da arte, o lado recalcado da história. A Companhia do Latão, com o seu espetáculo O Mercado do Gozo, centra-se não mais no fato histórico, mas no enquadramento. Para tanto o grupo adota, neste trabalho, mas apenas como pano de fundo, a greve geral que, em 1917, paralisou os serviços e o parque industrial paulista, expandindo-se até outras regiões do País.

Essa referência fundamental, no entanto, aparece apenas em entreatos e é enfatizada, com inegável impacto cênico, por meio da reprodução de um documento fotográfico da ocupação do centro da cidade pela multidão grevista. Nos três planos ficcionais que estruturam a peça figuram o movimento operário, acontecimentos que se desenvolvem no universo da prostituição, e a feitura de um filme que contem a um só tempo o universo do bordel e da produção fabril. O campo onde se refletem dramaticamente essas relações compreende a vida privada, ou seja, um bordel onde o patrão (personagem de relevo do filme) consome as operárias e as mulheres que vivem na fímbria da exploração fabril. Há um foco privilegiado sobre a cadeia produtiva da prostituição, onde se calculam com exatidão o valor do insumo, o custo da manutenção do equipamento, o fluxo da oferta e da demanda e a depreciação dos bens pelo uso.

Com uma comicidade amarga o espetáculo põe em situação de analogia a produção industrial e o comércio sexual. Este, por sua vez, distingue-se historicamente pela esperteza logística. Exigindo menos capital desloca-se, no final da peça, para o campo promissor do cinema pornográfico. É o mesmo empresário estrategicamente locando o capital na indústria dos "bens culturais".

Juntam-se as pontas do começo e do fim do espetáculo em um cinema capaz de enquadrar com igual proveito, qualquer forma de mercantilização. Em resumo, tudo pode vir a ser mercadoria: a realidade histórica, o sexo e a própria arte. Essa constatação, oportuna e provocativa - pelo menos para quem ainda depende dos artistas para conhecer a história - não seria suficiente para garantir a especificidade da comunicação artística. A Companhia do Latão parece saber muito bem disso porque faz um espetáculo sem nenhuma analogia fácil. É de natureza do entretenimento montar aparências e, por essa razão, as seduções da ficção se realizam quase completamente em cena. Está lá a operária que, depois de quatorze horas de trabalho, se prostitui em um cemitério para poder sobreviver. Para evitar o mergulho irremediável em um estado compassivo a cena se repete em outro estilo: o patético dá lugar ao grotesco. Do mesmo modo a sexualidade perversa, a droga, a obscuridade sedutora do mundo noturno, as relações de humilhação, a carência inconsciente das prostitutas e a frieza do proxeneta têm, em cena, a sedução dos mundos entrevistos. Mas tão logo adquirem densidade dramática a beleza plástica uma intervenção analítica desmonta a aparência. São os "enquadramentos" exibindo a armadilha das seduções mórbidas.

É um jogo de desilusão muito bem feito, complicado, cheio de pequenas armadilhas para deixar inquietos senão todos, pelo menos aqueles espectadores normalmente empolgados com as representações heróicas da vitimização. Inclui-se nessa suspeita de sentimentalismo fútil a referência ao movimento grevista. Admiramos com a impassibilidade da distância a corajosa rebeldia da classe operária? Que relação têm conosco essas imagens da "verdade histórica?" Mais do que isso: o que deveriam propor e não entendemos bem? Não há nada tão eficiente quanto o bom teatro para puxar o tapete das nossas certezas.

 

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