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Aquilo que sobrenada e se calcifica nas versões
autorizadas é, na maior parte dos casos, a versão
dos vencedores.Não é estranhável,
portanto, que os historiadores e, na esteira deles,
os artistas, estejam sempre pesquisando, resgatando
e se esforçando para devolver ao sistema venoso
da cultura as epopéias suprimidas dos movimentos
populares. Pois é chegada a hora, ao que parece,
de fazer avançar este procedimento reexaminando
o modo como se reintegra à consciência
coletiva, por meio da arte, o lado recalcado da história.
A Companhia do Latão, com o seu espetáculo
O Mercado do Gozo, centra-se não mais no fato
histórico, mas no enquadramento. Para tanto o
grupo adota, neste trabalho, mas apenas como pano de
fundo, a greve geral que, em 1917, paralisou os serviços
e o parque industrial paulista, expandindo-se até
outras regiões do País.
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Essa referência fundamental, no entanto,
aparece apenas em entreatos e é enfatizada,
com inegável impacto cênico, por
meio da reprodução de um documento
fotográfico da ocupação do
centro da cidade pela multidão grevista.
Nos três planos ficcionais que estruturam
a peça figuram o movimento operário,
acontecimentos que se desenvolvem no universo
da prostituição, e a feitura de
um filme que contem a um só tempo o universo
do bordel e da produção fabril.
O campo onde se refletem dramaticamente essas
relações compreende a vida privada,
ou seja, um bordel onde o patrão (personagem
de relevo do filme) consome as operárias
e as mulheres que vivem na fímbria da exploração
fabril. Há um foco privilegiado sobre a
cadeia produtiva da prostituição,
onde se calculam com exatidão o valor do
insumo, o custo da manutenção do
equipamento, o fluxo da oferta e da demanda e
a depreciação dos bens pelo uso.
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| Com uma comicidade
amarga o espetáculo põe em situação
de analogia a produção industrial
e o comércio sexual. Este, por sua vez, distingue-se
historicamente pela esperteza logística.
Exigindo menos capital desloca-se, no final da peça,
para o campo promissor do cinema pornográfico.
É o mesmo empresário estrategicamente
locando o capital na indústria dos "bens
culturais". |
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Juntam-se as pontas do começo e do fim do espetáculo
em um cinema capaz de enquadrar com igual proveito,
qualquer forma de mercantilização. Em
resumo, tudo pode vir a ser mercadoria: a realidade
histórica, o sexo e a própria arte. Essa
constatação, oportuna e provocativa -
pelo menos para quem ainda depende dos artistas para
conhecer a história - não seria suficiente
para garantir a especificidade da comunicação
artística. A Companhia do Latão parece
saber muito bem disso porque faz um espetáculo
sem nenhuma analogia fácil. É de natureza
do entretenimento montar aparências e, por essa
razão, as seduções da ficção
se realizam quase completamente em cena. Está
lá a operária que, depois de quatorze
horas de trabalho, se prostitui em um cemitério
para poder sobreviver. Para evitar o mergulho irremediável
em um estado compassivo a cena se repete em outro estilo:
o patético dá lugar ao grotesco. Do mesmo
modo a sexualidade perversa, a droga, a obscuridade
sedutora do mundo noturno, as relações
de humilhação, a carência inconsciente
das prostitutas e a frieza do proxeneta têm, em
cena, a sedução dos mundos entrevistos.
Mas tão logo adquirem densidade dramática
a beleza plástica uma intervenção
analítica desmonta a aparência. São
os "enquadramentos" exibindo a armadilha das
seduções mórbidas.
É um jogo de desilusão muito bem feito,
complicado, cheio de pequenas armadilhas para deixar
inquietos senão todos, pelo menos aqueles espectadores
normalmente empolgados com as representações
heróicas da vitimização. Inclui-se
nessa suspeita de sentimentalismo fútil a referência
ao movimento grevista. Admiramos com a impassibilidade
da distância a corajosa rebeldia da classe operária?
Que relação têm conosco essas imagens
da "verdade histórica?" Mais do que
isso: o que deveriam propor e não entendemos
bem? Não há nada tão eficiente
quanto o bom teatro para puxar o tapete das nossas certezas.
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