O NOME DO SUJEITO
APRESENTAÇÃO
Companhia do Latão se despede em grande estilo

"Valendo-se de uma dinâmica que sugere o distanciamento proposto por Brecht- ao invés de buscar o envolvimento emocional do espectador, os atores agem de forma a estimulá-lo a refletir sobre a realidade exposta,- os diretores obtém um resultado da maior expressividade. E isto ocorre porque a materialização dos conteúdos propostos se dá através de um desenho cênico de grande apuro formal, repleto de soluções criativas e invariavelmente imprevistas."


(Lionel Fischer, Tribuna da Imprensa, 26 de agosto de 1999.)

'O Nome do Sujeito' une dilemas míticos e temas sociais


"A voluntária brasilidade do espetáculo não parece assim uma coisa "de raiz", à qual é preciso retornar periodicamente. Trata-se com muita sutileza os resquícios de um repertório popular que ainda sobrevive na cultura do país. Ainda assim o que sobra de ritmo africano, de memória histórica e de tradição especificamente teatral faz muito bem à linguagem cênica da Companhia do Latão."


(Mariângela Alves de Lima, O Estado de São Paulo, Caderno 2, 23 de outubro de 1998.)




 

 




 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

 

 

 




 

 

 

 

 

 

 

 

 


Companhia do Latão se despede em grande estilo

Por Lionel Fischer. Tribuna da Imprensa, 26 de agosto de 1999.

Tendo como principais fontes o livro "Assombrações do Recife Valho", de Gilberto Freyre, e o poema dramático "Fausto", de Goethe, a Companhia do Latão, de São Paulo, encerra no próximo domingo sua temporada carioca com "O nome do Sujeito" (Teatro II do CCBB).Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano assinam o texto e a direção da montagem, que tem no elenco Edgar Castro, Georgette Fadel, Gustavo Bayer, Maria Tendlau, Otávio Martins e Ney Piacentini.
Estruturado a partir de narrativas comerciais no século XIX, o texto oferece uma visão implacável do processo de entrada no país do capital estrangeiro. Este, supostamente destinado a gerar progresso coletivo, acaba sendo de tal forma manipulado pelos que detêm o poder que, à imensa maioria, só resta contentar-se com as migalhas de um banquete para o qual jamais será convidada. Valendo-se de uma dinâmica que sugere o distanciamento proposto por Brecht- ao invés de buscar o envolvimento emocional do espectador, os atores agem de forma a estimulá-lo a refletir sobre a realidade exposta,- os diretores obtém um resultado da maior expressividade. E isto ocorre porque a materialização dos conteúdos propostos se dá através de um desenho cênico de grande apuro formal, repleto de soluções criativas e invariavelmente imprevistas.
Quanto ao elenco, este exibe um preparo técnico - e certamente intelectual - muito acima da média. É realmente gratificante constatar a competência e seriedade com que todos se lançam à tarefa de defender idéias da maior relevância, numa época em que o teatro -ao menos no Rio - parece

cada vez mais condenado a converter-se em lamentável vitrine de mediocridades que nada têm a dizer.Na equipe técnica, são irrepreensíveis a cenografia de Márcio Medina (também responsável pelos ótimos figurinos), a luz de Paulo Heise e Wagner Pinto - sobretudo quando trabalha a relação claro/escuro - e a trilha sonora de Lincoln Antonio.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


'O Nome do Sujeito' une dilemas míticos e temas sociais

Por Mariângela Alves de Lima, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 23 de outubro de 1998

Apresentada pela Companhia do Latão, a encenação junta a base teórica a particularidades históricas e culturais da vida brasileira; a época é o 2º Império e o espaço ficcional, a cidade do Recife

Sopra uma brisa tropical sobre o exercício de dramaturgia coletiva apresentado agora pela Companhia do Latão. Desde 1996 o grupo, que tem a ousadia de querer refletir "sobre temas atuais da vida social brasileira", vem utilizando como suporte para o seu trabalho a poética brechtiana. Em O Nome do Sujeito aclimata a base teórica a particularidades históricas e culturais da vida brasileira. A época é o 2º Império e o espaço ficcional, a cidade do Recife.
Fatos são invocados para referenciar uma analogia com a história contemporânea e, por essa razão, a narrativa tem como pano de fundo uma negociação entre representantes do império britânico, d. Pedro II e a aristocracia dos engenhos. Entra na vida econômica do País o capital especulativo em uma escala que, segundo Gilberto Freire, significa a "reconquista do Brasil pela Europa".
Não é entretanto dessa macroestrutura econômica que se ocupa o espetáculo. Essas informações são muito bem solucionadas dramaticamente por intermédio de referências ocasionais aos ilustres protagonistas do pacto, apenas vislumbrados a distância pelos personagens em cena. No centro da ação está o povo da cidade, escravos, clero, artistas e comerciantes. A estes últimos, emblema da pequena burguesia, em embrião, a peça apresenta o dilema moral da escolha de uma aliança de classe.
Inspirada ao mesmo tempo no inventário cultural de Gilberto Freire e no tema faustiano, a narrativa harmoniza elementos heterogêneos difíceis de combinar como a precisão etnográfica, de caráter documental, e a abertura simbólica das situações míticas.
É de se supor que essa habilidade decorra do convívio com a obra do sociólogo de Apicucos, ele mesmo capaz de sacrificar a observação em nome do imaginário. Assim os personagens do espetáculo, embora inspirados em protótipos sociais, vivem a amplitude dos dilemas míticos. O escravo alforriado, a cativa, o mascate português e o clérigo têm ,de diferentes formas, a intuição de uma liberdade possível.
Em vez de um Nordeste com traços característicos acentuados temos uma paisagem urbana do século 19 na qual se configuram um ato político na macroesfera de poder e uma escolha ética da comunidade. Entre os incidentes dessa narrativa bastante conseqüente se intrometem referências a uma presença malévola assombrando a cidade.
A voluntária brasilidade do espetáculo não parece assim uma coisa "de raiz", à qual é preciso retornar periodicamente. Trata-se com muita sutileza os resquícios de um repertório popular que ainda sobrevive na cultura do país. Ainda assim o que sobra de ritmo africano, de memória histórica e de tradição especificamente teatral faz muito bem à linguagem cênica da Companhia do Latão.
A bem da verdade os espetáculos anteriores, todos muito bons, padeciam de uma atmosfera um pouco adensada demais, como se acontecessem nos cabarés parisienses do pós-guerra. Este Fausto aculturado perde a alma tal como o do mito germânico, mas a Margarida o espetáculo reserva, com humor, um destino menos gracioso.
Estamos em casa.

E a identidade de classe não é aqui o único elemento realmente importante do espetáculo. Há outro tema e sobre ele Gilberto Freire já discorreu com a maior simplicidade: Há perigos reais, não perigos de nações contra nações - estes são transitórios - nem o Estado contra Estado - estes são mais transitórios ainda; e sim os perigos de culturas contra culturas; sim, as ameaças de imposição violenta da parte de grupos tecnicamente mais fortes a grupos tecnicamente mais fracos(...)"

 

 

 

 

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