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'O Nome do Sujeito' une dilemas
míticos e temas sociais
Por Mariângela Alves de Lima, O Estado de
S. Paulo, Caderno 2, 23 de outubro de 1998
Apresentada pela Companhia do Latão, a encenação
junta a base teórica a particularidades históricas
e culturais da vida brasileira; a época é
o 2º Império e o espaço ficcional,
a cidade do Recife
Sopra uma brisa tropical sobre o exercício
de dramaturgia coletiva apresentado agora pela Companhia
do Latão. Desde 1996 o grupo, que tem a ousadia
de querer refletir "sobre temas atuais da vida
social brasileira", vem utilizando como suporte
para o seu trabalho a poética brechtiana. Em
O Nome do Sujeito aclimata a base teórica a particularidades
históricas e culturais da vida brasileira. A
época é o 2º Império e o espaço
ficcional, a cidade do Recife.
Fatos são invocados para referenciar uma analogia
com a história contemporânea e, por essa
razão, a narrativa tem como pano de fundo uma
negociação entre representantes do império
britânico, d. Pedro II e a aristocracia dos engenhos.
Entra na vida econômica do País o capital
especulativo em uma escala que, segundo Gilberto Freire,
significa a "reconquista do Brasil pela Europa".
Não é entretanto dessa macroestrutura
econômica que se ocupa o espetáculo. Essas
informações são muito bem solucionadas
dramaticamente por intermédio de referências
ocasionais aos ilustres protagonistas do pacto, apenas
vislumbrados a distância pelos personagens em
cena. No centro da ação está o
povo da cidade, escravos, clero, artistas e comerciantes.
A estes últimos, emblema da pequena burguesia,
em embrião, a peça apresenta o dilema
moral da escolha de uma aliança de classe.
Inspirada ao mesmo tempo no inventário cultural
de Gilberto Freire e no tema faustiano, a narrativa
harmoniza elementos heterogêneos difíceis
de combinar como a precisão etnográfica,
de caráter documental, e a abertura simbólica
das situações míticas.
É de se supor que essa habilidade decorra do
convívio com a obra do sociólogo de Apicucos,
ele mesmo capaz de sacrificar a observação
em nome do imaginário. Assim os personagens do
espetáculo, embora inspirados em protótipos
sociais, vivem a amplitude dos dilemas míticos.
O escravo alforriado, a cativa, o mascate português
e o clérigo têm ,de diferentes formas,
a intuição de uma liberdade possível.
Em vez de um Nordeste com traços característicos
acentuados temos uma paisagem urbana do século
19 na qual se configuram um ato político na macroesfera
de poder e uma escolha ética da comunidade. Entre
os incidentes dessa narrativa bastante conseqüente
se intrometem referências a uma presença
malévola assombrando a cidade.
A voluntária brasilidade do espetáculo
não parece assim uma coisa "de raiz",
à qual é preciso retornar periodicamente.
Trata-se com muita sutileza os resquícios de
um repertório popular que ainda sobrevive na
cultura do país. Ainda assim o que sobra de ritmo
africano, de memória histórica e de tradição
especificamente teatral faz muito bem à linguagem
cênica da Companhia do Latão.
A bem da verdade os espetáculos anteriores, todos
muito bons, padeciam de uma atmosfera um pouco adensada
demais, como se acontecessem nos cabarés parisienses
do pós-guerra. Este Fausto aculturado perde a
alma tal como o do mito germânico, mas a Margarida
o espetáculo reserva, com humor, um destino menos
gracioso.
Estamos em casa.
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