ENTREVISTAS E DEPOIMENTOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte voltada para as massas.
Por Rosa Minine, Jornal A Nova Democracia,Rio De janeiro,ano 2 nº15, dezembro de 2003

Criada em 1996 por Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano, a Companhia do Latão, uma das mais bem-sucedidas trupes teatrais nacionais, difere das demais por preferir focar a sociedade aos conflitos individuais. Inspirada pelo teatro épico do dramaturgo Bertolt Brecht, ela trabalha, além dos textos de Brecht e outros, com escrita teatral própria, sempre buscando uma linguagem adequada aos problemas atuais brasileiros. O processo de criação do grupo é coletivo e trabalhado diretamente por Sérgio, que cursou Administração de Empresas, se formou em jornalismo e fez mestrado em Artes Cênicas, e Márcio, formado em Artes Cênicas na Escola de Comunicações e Artes da USP.

Quando começaram, eram somente um grupo de atores tentando realizar um espetáculo desenvolvido através de estudos de teatro dialético proposto por Brecht, com a intenção de produzir dramaturgia nacional contemporânea, que abordasse temas atuais de uma forma não dramática e mais ampla sob um ponto de vista social. Enquanto muitos grupos investiam nas emoções do público, procurando envolver as pessoas nos dramas dos protagonistas, o futuro Latão queria alguma coisa a mais do que isso.

"O nome do grupo provém do trabalho com um texto teórico de Bertolt Brecht chamado A compra do latão. Nesse texto Brecht usa a imagem de um comprador de ferro-velho que vai ouvir uma orquestra de música e sai pensando no preço do quilo da lata dos instrumentos. Existe ali um debate sobre a função da arte, em que a posição mais avançada é a materialista. A dimensão teorizante, a forma incompleta e fragmentária, bem como a proposta de um teatro dialético, serviram de base para a formação artística do nosso grupo", conta Sérgio de Carvalho.

Agente do debate

Um dos temas constantes em seus espetáculos é a política, centrada na luta de classes. Procuram sempre realizar um teatro que tenha um elemento humanizador na racionalidade humana e inteligível para o espectador. Para a Companhia do Latão um ator não é apenas um repetidor de falas e sim um agente que ajuda a fazer do teatro um meio de provocar a reflexão sobre os problemas políticos do país. Ela mostra as contradições do capitalismo, que condicionam os atos e as posturas de cada indivíduo, atores, personagens e públicos. Essas contradições são apresentadas, tornadas evidentes, sem serem resolvidas, porque, na verdade, essa resolução pede uma ação social coletiva, e não somente ação estética individual. "A Companhia do Latão conseguiu superar o sentimentalismo socializante graças ao marxismo. Sem um diálogo com o materialismo dialético e sua tradição crítica seria impossível representar as contradições do capitalismo brasileiro. Foi importante para nós perceber que preocupação social não significa tratamento crítico. Não basta mostrar a exploração com idealismo, como se bastasse citar o problema para gerar reflexão mais ampla. As imagens da desigualdade podem ser conservadoras se a forma da apresentação não for questionada. É por isso que parte do bom cinema brasileiro de hoje ainda está na fase da compaixão pelos pobres ou da descrição moralista da barbárie. São poucas as obras em que existe uma vontade de ativar os conflitos e torná-los mais claros", explica Sérgio de Carvalho.

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Grupo mostra a vida como não deveria ser
Por Tatiana Azevedo e Raquel Freitas,Jornal Brasil de Fato, de 23 a 29 de outubro de 2003

A futilidade ainda predomina no teatro comercial. A opinião é de Sérgio de Carvalho, que divide com Márcio Marciano a direção da Companhia do Latão, grupo com base no teatro dialético proposto por Bertold Brecht. O grupo, fundado em 1996, propõe-se a formar uma dramaturgia brasileira focada no social.

Brasil de Fato - Como é fazer teatro político hoje em dia?

Sérgio de Carvalho - Melhor do que há dez anos, porque a arte brasileira volta a a pensar em politização. Mas preocupação social não significa tratamento crítico. Nem toda imagem da desigualdade gera um movimento de mudança, em quem vê ou em quem faz. A Companhia do Latão conseguiu superar o "sentimento socializante" graças ao marxismo. Sem um diálogo com o materialismo dialético e sua tradição crítica seria impossível representar as contradições do capitalismo brasileiro.

BF - Como o público reage a uma proposta política no teatro?

Carvalho - Em uma sociedade dividida em classes, não se pode querer um teatro que unifique os sentimentos da platéia. Isso seria criar uma unidade falsa. Como nossa matéria artística é a contradição, não fazemos o teatro realista da vida como ela é. Importa mais mostrar a vida como ela não devia ser. Mas é sempre uma alegria encontrar platéias que tendem a uma posição antiburguesa. Há poucos dias um um grupo de 40 operárias da indústria química foi ver O mercado do gozo. No debate ficou claro que elas tiveram uma compreensão sofisticada da forma da peça porque entendem, na prática, que a exploração do trabalho não é ficção.

BF - De que forma outros grupos teatrais que atuam no campo social trabalham esse tema?

Carvalho - Hoje em dia até o teatro comercial posa de crítico do sistema. Espectadores pagam 70 reais o ingresso para lamentar a corrupção do poderosos, em chave de comédia de costumes. Isso ameniza a culpa de uma elite que acredita ser autocrítica. A notícia boa é que existem vários grupos novos tentando uma reflexão social mais ampla. Mesmo que a maioria ainda esteja na fase da compaixão pelos pobres, ou da condenação superficial da violência, existe uma vontade de ativar os conflitos e torná-los mais claros.

BF - E como a grande imprensa lida com um trabalho como o de vocês?

Carvalho - A Companhia do Latão tem um espaço excelente para um grupo que cita Marx e Engels. Mas há um paradoxo: os grandes jornais dão espaço mas fazem com que certa parte de seus empregados - a mais conservadora - venha a nos desqualificar de modo irracional. No fundo, é um pânico diante de uma posição que se assume de esquerda. O comentário mais comum se resume à fórmula esvaziadora: apesar de politizados, são bonzinhos como artistas. Fingem não ver que só praticamos essa forma artística por causa do tipo de reflexão social.

BF - O teatro pode provocar ação efetiva, ou apenas reflexão?

Carvalho - É óbvio que o teatro não tem o alcance quantitativo da indústria cultural. No entanto, a qualidade da relação teatral é muito intensa. Enquanto a televisão faz da realidade uma ficção, no teatro, a relação viva entre os atores sempre ameaça a credibilidade das imagens mistificadoras. A possibilidade de provocar reflexões é grande. E, como escreveu Marx, a teoria também pode se converter em a ação material. Em vários momentos históricos de intensa agitação política, o teatro teve participação fundamental. Um lacaio da revista Veja, templo da mediocridade nacional, praguejou antes das eleições contra a vitória do PT, com medo que ela enchesse as ruas de teatro. Se isso vier um dia a acontecer, terá que ser como conflito, não como festa: é essa a vocação do teatro - a contradição. Só por isso tem algo a produzir contra o "suave terror totalitário" da indústria cultural. É uma tarefa coletivizante, de construir um sentido comum: para quem está no palco, o teatro impõe o trabalho de equipe. Para quem vê, impõe a experiência do convívio público. Seu potencial de desalienação só se realiza coletivamente.

Sérgio de Carvalho é co-diretor da Companhia do Latão e professor da Unicamp. Como jornalista, edita a revista Vintém e O Sarrafo, periódico criado por diversos grupos teatrais que discute arte e política. Participou da origem do Arte contra a Barbárie, movimento que colaborou para implantação da Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.


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Revisitando Brecht e Marx
Por Izaías Almada, revista Caros Amigos, número 80, novembro de 2003.

O diretor da Companhia do Latão, Sérgio de carvalho, explica aqui por que o grupo ainda acredita num teatro marxista

Criado por iniciativa do dramaturgo e diretor Sérgio de Carvalho, a Companhia do Latão utiliza como suporte o teatro épico de Brecht e teorias marxistas. Está apresentando em São Paulo a peça O Mercado do Gozo. Depois de conversarmos com os grupos Folias d´Arte, Tapa, União e Olho Vivo e Engenho Teatral, agora é a vez da Companhia do Latão, nas palavras de Sérgio de Carvalho.

Grupo do Latão: quem fundou e quando?

Em 1997 convidei um grupo de pessoas para montar um espetáculo chamado Ensaio para Danton, a partir de um texto de Georg Büchner (A Morte de Danton). O Latão tem origem na montagem desse espetáculo, que nos levantou inúmeras questões de ordem estética, política e crítica. Surgiu ali a necessidade de o grupo estudar a obra de Brecht como modelo de compreensão do que significa fazer um teatro narrativo. Percebemos, durante os ensaios, que mais importante do que o produto era o processo de trabalho que despontava... É preciso destacar aqui meu encontro com o Márcio Marciano. Na ocasião, tive um projeto, no qual o Márcio veio trabalhar como dramaturgo, vencedor do edital de ocupação do Teatro de Arena de São Paulo, o Eugênio Kusnet, que nos foi cedido por um ano pela Funarte.

Que projeto era esse e por que o nome?

Um projeto de pesquisa sobre o teatro épico e que propunha o estudo da obra de Bertolt Brecht como modelo para a representação brasileira. É isso, de certo modo, o que define até hoje o trabalho da Companhia do Latão, que usa a tradição épico-dialética de teatro para pensar várias questões da sociedade brasileira no atual estágio do capitalismo... O nome da companhia surgiu por trabalharmos com dois textos naquele momento: um, dramatúrgico, "Santa Joana dos matadouros", e outro teórico, chamado " A Compra do Latão", ambos de Brecht. "A Compra do Latão" é um texto incompleto de Brecht, em que ele reúne diálogos, fragmentos teóricos, poemas, exercícios teatrais, planejados como suma do seu pensamento, de certa maneira comparado ao "Pequeno Organon para o Teatro". Chegamos a pensar em fazer desses textos um espetáculo, que se chamaria Ensaio do Latão... Com o uso cotidiano desses títulos, acabamos naturalmente por nos chamarmos de a Companhia do Latão.. um nome que na obra de Brecht sugere o interesse pelo lado material das coisas. Ele usa uma metáfora em que imagina um filósofo que chega a um grupo de atores e se compara a um comerciante de latas, de ferro velho. Esse comerciante de latão, bronze, de metais, vai assistir ao concerto de uma orquestra e fica pensando quanto custaria o quilo de metal daqueles instrumentos, sem se sensibilizar com a música que eles criavam. Trata-se de uma metáfora criada a partir de Marx, sendo que Marx está mais interessado na música e não em saber quanto custa o quilo dos metais.

 

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Companhia do Latão: por um teatro anticapitalista
Por Cecília Toledo, do Centro de Mídia Independente, 01 de agosto de 2004.

Sérgio Carvalho é diretor da Companhia do Latão, um dos grupos mais importantes do país na atualidade. Trabalha com o teatro numa perspectiva crítica anticapitalista, procurando romper com a mercantilização da cultura, que faz com que o espectador

A Companhia tem feito um trabalho inovador, procurando romper a divisão entre trabalho intelectual e material no teatro. Como se dá isso?

O primeiro desafio de um grupo teatral interessado numa reflexão anticapitalista é revolucionar a própria prática de trabalho. O discurso crítico é insuficiente se não se converter em novas formas de produzir, numa atitude coletivizante que precisa se tornar visível e partilhável pelo público. Nesses sete anos, a Companhia do Latão sempre encenou peças-processo. Algumas nós chamamos mesmo de "ensaios": incompletas e reflexivas, porque feitas para desencadear uma atividade dos sentidos, uma percepção histórica. É como se ao público fosse negada a perspectiva convencional do produto artístico pronto, que gera prazeres previsíveis. É como se estivéssemos dizendo que os processos são mais importantes que os produtos, que o valor de uso está acima do de troca. Isso só se torna uma atitude, com força artística, quando na sala de ensaio todos participam do conjunto da obra.


Esse método se adapta apenas a grupos que já conhecem as técnicas teatrais ou serve também para aqueles que nunca fizeram teatro antes?

Qualquer grupo teatral pode trabalhar em bases igualitárias. Só que isso implica uma dura e difícil negação dos padrões estéticos e dos hábitos dominantes. É preciso ir contra as expectativas de acerto burguês, descobrir imposições muitas vezes internalizadas e inconscientes, desmontar o personalismo da atuação, os idealismos autoritários da direção, o mito de que o diálogo com o público depende do agrado fácil. A mudança às vezes exige radicalização em sentido contrário, para deflagrar a contradição: pôr as ações à frente das palavras do texto, o improviso e a invenção livre acima do plano fechado, até que se encontre um método pelo qual todos caminhem juntos e reconheçam o motivo de cada escolha.


O que são as Oficinas de Teatro Dialético?

Estamos preparando para o segundo semestre algumas oficinas destinadas a integrantes de movimentos sociais. A idéia é formar "brigadas teatrais", compostas por pessoas que possam contribuir para a formação de grupos novos interessados em teatro crítico.


O que a Companhia do Latão está encenando agora?

Estamos estudando a obra de Machado de Assis, alguns de seus contos, para um novo espetáculo.
O tema ainda está em aberto, talvez uma sátira aos produtores reacionários de "cultura" em nosso país. Assim como fizemos em A Comédia do Trabalho, será uma montagem de curto-circuito entre a farsa e a tragédia, de modo que a história não esteja dada, mas fique à espera de construção. Ainda não consigo falar nada de mais concreto.



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Os Princípios de Brecht
Por Tiago Coutinho, Jornal Diário do Nordeste,Caderno 3, 28 de março de 2006
(Também publicada em Portal verdes mares, http://verdesmares.globo.com/entrevista/comversa_entrevista.asp?CodigoEntrevista=230)

Atualizado com os problemas das transformações do capitalismo e preocupado com a superação e transformação desse sistema, Sérgio de Carvalho acredita que a arte pode demarcar o espaço das lutas de classe. Por isso, ele aposta no método brechtiano de produzir teatro, desde que siga um viés histórico e transformador. Na seqüência do Simpósio Internacional "Atualidade de Brecht na Alemanha e no Brasil: um panorama crítico", o diretor e ator da Companhia Latão participa de duas mesas na programação
A primeira mesa será hoje, às 17h, com o título "Uma experiência com o Brecht no Brasil: o teatro dialético da Companhia Latão". A segunda acontece amanhã, às 14h30, na qual, ao lado des Fran Teixeira e Oswald Barroso, indaga: "Vale a pena falar de um Método-Brecht?". Na entrevista, Sérgio fala da arte como uma ferramenta de transformação social, cujo principal papel seria o de desmistificar as imagens dominantes da atual sociedade. Como não poderia deixar de ser, ele compartilha um pouco de sua experiência com a Companhia do Latão, grupo teatral que vem se consolidando nacionalmente por utilizar os princípios teatrais traçados por Brecht.

- Sua conferência tem como título "Vale a pena falar de um Método-Brecht?". Quais seriam as possibilidades desse método no contexto do século XXI?

Eu acho que vale o a pena, se for possível, ter clareza do que significa o método Brecht. Ainda que não seja um resultado sistemático, o Brecht formulou uma série de princípios de trabalho, sobretudo ao que se refere ao desmonte ideológico das imagens dominantes na nossa sociedade. O teatro dele é uma espécie de desmistificação, uma técnica de ativação do público a partir da crítica às imagens dominantes e das formas dominantes. Nesse sentido, o princípio brechtiano continua atualíssimo. Isso em qualquer teatro que esteja interessado em ler atrás das imagens. É lógico que se trata de uma crítica construída em um contexto histórico muito preciso, que é o da luta de classes da primeira quadra do século XX. Ele se atualiza no sentido de dar conta das transformações do capitalismo atual. Mas isso, de certo modo, era uma exigência que o próprio Brecht impôs. Com o Brecht, você não trabalha sem inventar alguma coisa.

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Sérgio foi uma das atrações do Curto Circuito de Idéias
Por Rose Silveira, Jornal Diário do Pará,Caderno D,17 de junho de 2004.

O dramaturgo Sérgio de Carvalho, diretor da Companhia do Latão (SP), uma das mais importantes do País, esteve em Belém, ministrando a oficina 'Dramaturgia Épica' para escritores e dramaturgos, e participando do projeto Curto Circuito de Idéias. Ele fala do modelo de dramaturgia de Brecht e dos novos trabalhos da Companhia do Latão

O que o modelo de dramaturgia de Brecht tem a oferecer como reflexão à contemporaneidade e, claro, à dramaturgia de hoje?

Em primeiro lugar, a possibilidade de continuar a pensar na função da arte. E que essa função pode ser, inclusive, colaborar com a ativação revolucionária num tempo em que isso não está no horizonte próximo e em que o capitalismo assume caras novas e terríveis. Brecht continua sendo um grande modelo para arte que tenta se opor ao imaginário dominante e que procura combater o totalitarismo da forma-mercadoria.

O que significou o advento do teatro épico de Brecht para a dramaturgia do século 20?

Brecht desenvolveu seu conceito de teatro épico no final da década de 1920 a partir de um movimento histórico iniciado décadas antes, o Naturalismo. O escritor Émile Zola já exigia da arte do teatro a mesma complexidade do romance, a liberdade de ir e vir no tempo, de transitar entre o particular e o geral. A chamada 'fatia de vida' já lançava suspeita sobre os heróis positivos. O que Brecht fez foi propor uma negação mais radical da forma dramática, opondo-se à sua ideologia individualista: para ele, o palco não deveria só mostrar a vida no mundo capitalista, mas narrá-la como transformável. Isto só é possível se a cena assume que toda representação contém um ponto de vista sobre a realidade. Só é possível se houver uma desmontagem da heroificação e do moralismo, das ideologias impostas a quem não tem condições práticas de exercê-las, de tudo aquilo que se identifica com a visão de mundo das classes dominantes.

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Trabalhadores do teatro
Guia DAQUI Lapa, nº 59, agosto de 2002

A história e a sociedade brasileira, com todas as suas mazelas e belezas, são temas dos espetáculos da Companhia do Latão, grupo de pesquisa teatral que participa do projeto de ocupação dos teatros distritais de São Paulo. Este projeto objetiva a apresentação de espetáculos e realização de oficinas, aproximando cada vez mais a comunidade do meio artístico.
Desde o início, o grupo trabalha com princípios do teatro épico e dialético aplicado à construção de uma dramaturgia própria produzida junto a cena teatral. Uma característica marcante é a "dramaturgia em processo", ou seja, o texto do espetáculo é gerado na sala de ensaios a partir de propostas dos atores. Isso faz com que as peças não sejam vistas como um produto acabado, mas como uma matéria formativa, em constante transformação.
A Companhia do Latão está apresentando "O Auto dos Bons Tratos", no teatro Cacilda Becker, na Lapa, até setembro e, nesta entrevista, o diretor e dramaturgo, Márcio Marciano, conta a trajetória da Companhia.

Há quanto tempo existe a Companhia do Latão?

Há seis anos e ela surgiu de uma iniciativa do diretor Sérgio de Carvalho, que reuniu um grupo de artistas para fazer um espetáculo chamado "Ensaio para Danton", criado a partir de um estudo do autor alemão, Georg Büchner. A peça é "A Morte de Danton". Por coincidência, esse espetáculo estreou no teatro Cacilda Becker. Eram só oito atores em cena e o tema da peça é o fracasso da representação política. Se passa durante a Revolução Francesa, no momento em que se instaura o terror e existe um combate entre Robespierre e Danton. Danton se afasta da luta política nesse instante. A peça retrata exatamente esse momento. A idéia foi fazer um paralelo entre o fracasso da representação política e o fracasso da representação teatral, uma vez que eram poucos atores para representar um universo gigantesco, que era o que Büchner propunha.

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Chão sem estrelas
Por Sérgio de Carvalho, Jornal do Brasil, revista Domingo, 1º de agosto de 1999.

Sérgio de Carvalho entrevista João Pedro Stédile

Esta conversa aconteceu no dia em que a marcha do MST rumo á Brasília saiu do Rio, começo da noite, num restaurante ainda vazio, com os garçons vendo televisão pelos cantos, perto do Campo de São Cristóvão. João Pedro Stédile chega com o rosto corado de quem vem das ruas. Ele é o principal líder do MST. Já nos conhecíamos porque ele assistiu três vezes á peça Santa Joana dos Matadouros, de Brecht, na montagem da Companhia do Latão. Parece que o humor grosso de Brecht- na sátira dos industriais de Chicago em suas negociatas na bolsa de mercadorias - ainda tem algo a dizer a homens como ele, que conhecem de perto os problemas do Brasil. A gargalhada de Stédile nas apresentações sempre aumenta nas passagens em que o comportamento sinuoso dos reis da exploração é desmascarado. Santa Joana dos Matadouros conta a história de uma crise econômica no ramo da carne enlatada. De um lado, os pobres industriais chorando a morte do bezerro. De outro, os violentos desempregados, dispostos á baderna porque não têm mais o que comer. Entre as frentes em luta, julgando-se acima do conflito, a menina Joana, voluntária religiosa que tem a ingenuidade de querer conciliar interesses contrários. A peça é um tratado sobre o funcionamento da luta de classes, com paródia de versos clássicos. Mais do que um espectador ideal, Stédile é um modelo de atuação para os integrantes da Cia. Do Latão. Sua seriedade (e bom humor) nos dá a certeza de que a transformação positiva da sociedade brasileira é uma meta possível. E que depende do trabalho crítico de todos nós.
Sérgio de carvalho, 32 anos, diretor do grupo teatral paulista Companhia do Latão.

Sérgio - Quem faz arte no Brasil está fazendo uma oposição a um campo muito forte e violento que é a indústria cultural. Existe um bombardeio em prol de um ideal de mercantilização, da ideologia de consumo, da coisificação das pessoas, e isso atinge quem não tem filtro em relação a essa realidade. Como fazer oposição a essa hegemonia dos padrões da indústria cultural?
Stédile - Quando se discute os problemas do Brasil há uma tendência de se discutir só os problemas econômicos e sociais. Nós procuramos incorporar, em nossos debates do MST, esse problema cultural. Seja do ponto de vista estrutural - pois temos uma elite colonizada que só procura reproduzir uma cultura que a metrópole envia para cá- , seja o problema do oprimido, que é tão oprimido que também copia a elite. O mais grave é que nós temos uma cultura dominada pelas elites, que têm o monopólio dos meios de comunicação. Nós debatemos principalmente como combater o monopólio dos meios de comunicação, da TV, que tem uma capacidade muito grande de massificar, idiotizar e de vender falsos valores. Buscamos descobrir formas de estimular a nossa base social a produzir, desenvolver no grupo todas as formas de manifestação cultural. Mas vocês devem ter mais dificuldades, por fazerem arte e terem que disputar no mundo mercantilizado. Como é que vocês enxergam isso?

Stédile - Quando se discute os problemas do Brasil há uma tendência de se discutir só os problemas econômicos e sociais. Nós procuramos incorporar, em nossos debates do MST, esse problema cultural. Seja do ponto de vista estrutural - pois temos uma elite colonizada que só procura reproduzir uma cultura que a metrópole envia para cá- , seja o problema do oprimido, que é tão oprimido que também copia a elite. O mais grave é que nós temos uma cultura dominada pelas elites, que têm o monopólio dos meios de comunicação. Nós debatemos principalmente como combater o monopólio dos meios de comunicação, da TV, que tem uma capacidade muito grande de massificar, idiotizar e de vender falsos valores. Buscamos descobrir formas de estimular a nossa base social a produzir, desenvolver no grupo todas as formas de manifestação cultural. Mas vocês devem ter mais dificuldades, por fazerem arte e terem que disputar no mundo mercantilizado. Como é que vocês enxergam isso?

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Arte de potencial político
Por José Corrêa Leite e Fernando Kinas*, revista Teoria e Debate, nº47, fev/mar/abr 2001


Sérgio de Carvalho é integrante da Companhia do Latão, grupo que dirige e para o qual escreve, em parceria com Márcio Marciano. A Companhia tem tido um papel de destaque na renovação do teatro político brasileiro, tendo encenado vários espetáculos, entre os quais o Ensaio sobre o Latão e Santa Joana dos Matadouros, de Brecht, e O Nome do Sujeito, criação coletiva. O mais recente é A comédia do trabalho, também criação coletiva, encenada com grande receptividade junto aos movimentos sociais. Jornalista e professor do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Campinas, Sergio de Carvalho desenvolve uma reflexão inovadora sobre as artes cênicas e sua relação com a politização, na contramão do teatro comercial.

A atuação da Companhia do Latão tem tido uma repercussão importante no cenário cultural, em particular junto à esquerda brasileira. A que você atribui esse impacto?


Se a Companhia do Latão alcançou alguma importância, eu atribuo isso à trajetória de politização que se expõe no trabalho. Nossos espetáculos sempre revelam processos, tanto os da história contada, como os da própria montagem teatral. Então, em algum nível, o caráter coletivo do trabalho passa a significar também, ganha dimensão simbólica. Acho que é por isso que temos servido de estímulo para outros grupos de teatro, que começam a recuperar uma vontade de discutir a sociedade brasileira. Isso, que tinha sido a grande novidade teatral dos anos 60, andou em descrédito programado nas décadas seguintes, quando um gosto neo-esteticista, de temas mítico-arcaizantes e com ares modernosos foi internalizado pela vanguarda. As poucas experiências teatrais ainda preocupadas com a vida social, quando não eram descartadas como ultrapassadas, ficavam isoladas nas periferias, ou se transmudaram em pedagogia e assistência psicológica. Em qualquer caso, distanciadas dos avanços estéticos. É por isso que a nossa trajetória de politização me parece a conquista mais importante do grupo. Ela foi obtida na contramão dos valores de uma época bem regressiva. O rigor estético nós já tínhamos como coordenada, única herança positiva dos anos 80. Nosso percurso foi oposto ao do Teatro de Arena. O Gianfrancesco Guarnieri e o Oduvaldo Viana Filho - Vianinha - eram filhos de integrantes do Partido Comunista e a sua procura de formas artísticas decorria de um interesse sociopolítico. Nós, ao contrário, éramos um grupo de "pesquisa de linguagem" que acabou se aproximando do pensamento marxista a partir de necessidades formais. Foi a busca de um realismo mais real - aquele que obriga a certos teatralismos como o de "mostrar o teatro em sua realidade de teatro" - que nos levou a Brecht e ao marxismo.


Mas é inegável que a qualidade estética é um fator fundamental...

Na verdade, é a complexidade artística que impede que um trabalho como o nosso seja descartado. Mesmo quem tem aversão a qualquer posicionamento de esquerda terá dificuldades em nos negar um espaço no mundo das produções "culturais" dignas de nota. Mas como operação de trabalho, como estímulo intelectual, eu acho que qualquer artista que se politiza percebe que precisa haver uma inversão na ordem dos fatores, porque ela altera sim o produto. São os problemas de assunto que passam a ser fundadores, e eles que conduzirão aos problemas da linguagem. Está no Mário de Andrade dos anos 30, em outros artistas que percorreram uma trajetória de politização. Nós só realizamos essa inversão quando percebemos que a força atual de uma peça como Santa Joana dos Matadouros, de Brecht - peça que nos aproximou de um público estudantil, dos intelectuais de esquerda e de movimentos populares -, não está apenas no riquíssimo jogo de linguagem, mas sobretudo, ainda, na tematização da "luta de classes".

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*José Corrêa Leite é editor do jornal Em Tempo e do Conselho de Redação de TD. Fernando Kinas é diretor e pesquisador teatral, responsável pela montagem em Curitiba de R, Um Artista da Fome, Carta Aberta e Tudo o que você sabe está errado, entre outras.


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A transformação pela experiência
Por Uta Atzpodien, feita originalmente para a revista Theater der Welt 1999 in Berlin / Theater der Zeit - Arbeitsbuch, Alemanha. Republicada nas revistas Azougue, na revista Humboldt 80, e IKA número 59.

A Companhia do Latão tem tido um impacto grande de crítica e nos círculos acadêmicos de S. Paulo. Isso num tempo em que o teatro não comercial sofre problemas de público. Qual o objetivo da Companhia ? Faça um esboço de sua história.

O grupo de atores que constitui a Companhia do Latão começou a trabalhar em 1996 na montagem de A Morte de Danton, de Georg Büchner. Inicialmente tínhamos apenas a vontade de encenar aquele texto que nos parecia admirável por dois aspectos : sua forma aberta, fragmentada, descontínua, que dava conta não apenas do retrato de um indivíduo mas de movimentos do conjunto de uma época; e seu sentimento de uma melancolia diante dos desacertos do tempo. No começo do processo nós tínhamos uma certeza : só seria possível conseguir que os oito atores representassem os mais de 30 personagens do texto de Buechner se nós partíssemos do pressuposto de um "fracasso fundamental" da representação. Quando não é possível "representar" no palco, talvez seja melhor revelar a provisoriedade e as contradições dessa tentativa. Estávamos caminhando, sem maior consciência disso, para uma forma épica de representação. Resolvemos, então chamar a esse espetáculo de Ensaio para Danton, porque nele deveria aparecer sobretudo a explicitação de um processo teatral. Evidentemente, isso não era apenas um jogo de metalinguagem. Aos poucos fomos percebendo as implicações críticas disso. Ao refletir sobre o processo teatral, nós estávamos, de certa forma, discutindo também a questão das representações políticas. E de seu "fracasso fundamental" quando fingem atender à totalidade dos interesses da sociedade. Mesmo antes de estrear o espetáculo, ficou claro para nós que estudar Brecht seria o passo seguinte. Precisávamos de um modelo mais complexo para compreender as relações entre forma artística e matéria social. Talvez isto explique em parte a repercussão que a Companhia do Latão vem obtendo hoje : é um grupo que mantém um projeto formativo e reflexivo que não se desvincula da montagem de espetáculos. Os espetáculos se oferecem ao público como "estudos", como tentativas de compreensão de temas e de formas atuais. Cada cena contém um processo de aprendizado que pode ser acompanhado pelo espectador.

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50 anos sem Brecht: título
Entrevista com Sérgio de Carvalho
Por Ana Cristina Petta (Tininha)

(Sérgio de Carvalho é diretor da Companhia do Latão e professor de dramaturgia e crítica teatral na Universidade de São Paulo)

Princípios -O que te levou a se aproximar do pensamento de Bertolt Brecht? Como surgiu a Companhia do Latão e a Pesquisa em Teatro Dialético, desenvolvida pelo grupo?

Sérgio de Carvalho - A Cia. do Latão começou como qualquer outro jovem grupo de teatro interessado em pesquisa de linguagem. Aproximamo-nos do teatro de Brecht quando percebemos que não existe linguagem neutra e que as formas da arte traduzem visões de mundo. Quer dizer, percebemos que um grupo artístico interessado em assuntos sociais deve ser também grupo de trabalho interessado em formas críticas novas de representar a sociedade. Uma das lições que o marxismo nos dá é que os pensamentos dominantes de uma época são os pensamentos da classe dominante. Podemos estender o raciocínio e verificar que as formas dominantes de uma época são as formas da classe dominante. Nos padrões visuais, rítmicos, naquilo que os olhos e ouvidos percebem, nos jeitos de nos emocionarmos, existem padrões que se associaram historicamente a pontos de vista de classe. Então, a tarefa de um artista marxista passa a ser, também, desmontar a ideologia dominante tal qual ela aparece e se esconde nas formas. Às vezes é mais fácil perceber a ideologia dominante nos discursos - perceber que esse discurso é falso na sua promessa de universalidade - do que perceber isso no campo das formas sensíveis. Para isso, Brecht é uma ferramenta fundamental: sua crítica não incide só sobre os assuntos, mas sobre a própria representação. É um artista que coisas difíceis de juntar: interesse social, político e experimentação formal.

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Palestra de Sérgio de Carvalho na Casa Brecht em Berlim.

Entre os dias 05 e 09 de fevereiro de 2007, o diretor teatral Sérgio de Carvalho participou, como palestrante convidado, do Seminário Internacional "Brecht Tage 2007: Die Zukunnft der Nachgeborenen" organizado pelo Fórum Literário da Casa Brecht de Berlim. Foi nessa casa que Brecht viveu seus últimos anos de vida, de 1953 a 1956. E o espaço, atualmente, congrega parte de seu acervo e promove diversas atividades culturais ligadas ao pensamento e à prática artística do autor. Na medida em que o Berliner Ensemble se tornou um teatro estatal de feições conservadoras, a Brecht-Haus é hoje o espaço crítico mais importante de reflexão sobre a obra de Brecht.

Durante os 5 dias de atividades, quatro mesas de exposições teóricas foram organizadas, quase todas conduzidas por filósofos das melhores universidades alemãs. Entre os trabalhos apresentados no Brecht Tage 2007, podem ser mencionados os dos seguintes professores: Jan Robert Bloch (filho de Ernest Bloch, que discutiu aspectos do pensamento de seu pai que tratam do sentido da utopia); Norbert Bolz (cientistas social, estudioso de Adorno de tendência pós-estruturalista, que apresentou os conceitos críticos fundamentais na nova sociologia alemã em contraponto à perspectiva de Brecht); Friedrich Dieckmann (crítico literário, filósofo e dramaturgista, analisou diversos poemas de Brecht relativos ao tema do futuro); Marianne Streisand (crítica literária, expôs a visão de pedagogia de Brecht com base em descrições biográficas).

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