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ATITUDE MODERNISTA NO TEATRO BRASILEIRO
A história do teatro brasileiro do Século
Vinte registra pelo menos três ciclos de politização
da prática teatral. São momentos em que
as experiências isoladas se conjugaram. Em que
muitos artistas se interessaram em fazer peças
com conteúdos sociais manifestos. Momentos em
que uma temática nova - que mostrava no palco
não apenas indivíduos, mas também
forças sociais - não escondeu seu sentido
explicitamente politizante, o que exigiu a pesquisa
de novas formas, para além do repertório
estético dominante. Momentos em que o teatro
desejou dialogar com outro espectador, algo mais crítico
do que aquele espectador das platéias que Alcântara
Machado chamou com ironia de "burguezmente sensíveis".
De um modo geral, todos os ciclos de politização
do teatro brasileiro no século passado aconteceram
sob o signo de uma recusa modernista à sensibilidade
burguesa. E é justamente a radicalidade dessa
atitude modernista que está sendo em parte neutralizada,
neste que é o terceiro ciclo de politização
do teatro brasileiro, que ocorre no momento presente.
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Começo agradecendo às palavras
do Fernando Peixoto. Quando ouço um depoimento
como o dele, a primeira impressão, que talvez
não ocorra só a mim, é a de que
o teatro dos nossos dias é melancolicamente mais
medíocre do que o teatro nos anos 60. Ao certo
essa primeira impressão não persiste diante
de uma análise histórica mais rigorosa.
Seria possível ponderar que em muitos aspectos,
sobretudo os que se referem à técnica
cênica, a arte teatral de hoje avançou.
Mas logo o reparo particular se converte numa certeza
mais geral, de ordem não técnica mas poética:
não foi só o teatro, mas a arte como um
todo que se mediocrizou de lá para cá.
E o caso não é para melancolia, mas para
reconstrução.
Faço parte de uma geração que não
viveu sequer os efeitos das conquistas artísticas
daqueles anos, impossibilitada que foi de receber de
lá qualquer legado, exceto o que cada um, por
conta e risco, tenta desencavar de livros, artigos e
conversas. No intervalo entre eles e nós se impuseram
vários obstáculos: a repressão
política dos anos 70 e, logo na sequência,
coisa não menos terrível, a disseminação
dos valores despolitizadores da ideologia neoliberal,
que correram o mundo todo, e que no caso da arte podemos
identificar com o gosto internacionalizante, subjetivante
e tecnicista que, sob o signo de uma pretensa modernização,
passou a considerar ultrapassada e velha qualquer procura
de uma poética propriamente brasileira, ou qualquer
tentativa estética fundada em questões
sociais e políticas.
....continua
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O pensamento teatral de Bertolt Brecht
Palestra de Sérgio de Carvalho em Belém
do Pará no dia 10 de setembro de 2003
Bertolt Brecht (1898-1956) escreveu poemas, peças,
romances e teoria da arte, além de ter sido homem
da prática do teatro. Costumava publicar seus
escritos com o título de Tentativas ou Esboços,
para deixar claro o sentido processual de sua obra.
Uma obra que se construía acompanhando os movimentos
da história da Alemanha e do mundo no tempo dos
estragos irracionalistas das duas Grandes Guerras mundiais:
irracionalismo que Brecht sempre tratou como exigência
lógica do capitalismo.
Como sua obra é muito vasta e como ela pretendeu
ser uma totalidade feita de fragmentos, podemos começar
com um exemplo específico, pois cada parte do
teatro épico de Brecht contém alguma coisa
do todo.
Na primeira cena de Santa Joana dos Matadouros, uma
das mais impressionantes de suas peças de teatro,
aparece um rico industrial do ramo da carne enlatada,
um capitalista de Chicago, numa falsa crise sentimental.
Como desculpa para vender sua parte no negócio,
esse industrial das salsichas diz estar comovido com
o sofrimento de um bezerrinho que ele viu ser sacrificado
na linha de montagem. A personagem, que se chama, Mauler,
ou Bocarra, expressa sua emoção com as
seguintes palavras:
Lembra-te, ó Cridle, o dia
Em que percorrendo o matadouro - era noite -
Paramos ao pé da máquina de enlatar
presunto?
Lembra-te, ó Cridle, aquele vitelo
Que virava o olho claro, grande e obtuso para o céu
Enquanto entrava na faca? Senti como se fosse carne
da minha carne
leal amigo Cridle, como é sangrento nosso comércio.
Em chave grotesca, essa cena apresenta um dos temas
importantes do teatro de Brecht, a distância entre
os discursos humanitários da burguesia e a realidade
das suas práticas econômicas. Aqui, como
em tantos escritos de Brecht, o discurso anti-violência
e o elogio da bondade surgem na boca daqueles que promovem
os atos mais bárbaros na especulação
financeira. Em contrapartida, o discurso mais perturbador,
o da violência necessária, está
na boca daqueles que não tem escolha senão
lutar pela sobrevivência, os operários.
São muitas as peças de Brecht em que se
exige a bondade daqueles que não tem meios materiais
de ser bons. Bocarra chega a dizer que os pobres são
ruins e animalescos, cheios de traição
e covardia, numa cena absurda em que ele prova que a
culpa da miséria é deles mesmos.
Matéria negativa
Nesse pequeno exemplo podemos encontrar um procedimento
de base do pensamento teatral de Brecht: a técnica
de levar à implosão os argumentos e pontos
de vista do inimigo. O teatro épico é
feito de matéria negativa. Ele prefere desenvolver
o pior ponto de vista sobre a sociedade para que o público,
por sua conta e risco, aprenda a se opor ao que acontece
no palco. Essa negatividade de personagens, falas e
situações geram um movimento de contradições
que a tradição filosófica consagrou
com o nome de dialética.
Do ponto de vista de quem faz teatro nos dias de hoje,
num país da periferia do capitalismo, esse método
das negações com superação
das contradições - esse método
que define o pensamento teatral de Brecht e que ele
próprio descreveu como dialética materialista
a serviço do teatro - é o aspecto mais
importante de seu legado à história da
arte.
..continua.
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ENCONTRO MUNDIAL DAS ARTES CÊNICAS
CONVERSA SOBRE PRINCÍPIOS DO TRABALHO
Apontamentos sobre o tema proposto: "Princípios
da Construção Dramatúrgica do Espetáculo
Contemporâneo".
Palestra de Sérgio de Carvalho, diretor teatral
e dramaturgo integrante da Companhia do Latão,
ocorrida no Encontro Mundial de Artes Cênicas
(ECUM), em Belo Horizonte, Teatro do Sesi, entre 25
de maio e 8 de junho de 1998.
Vou tentar levantar algumas questões genéricas
para abrir o debate. Ainda que a minha referência
para esta conversa seja o trabalho com "dramaturgia
em processo" desenvolvido pela Companhia do Latão,
minha intenção não é discutir
métodos de escrita na sala de ensaios, e sim
recuperar o percurso que nos levou a determinados princípios
de trabalho. Creio que isso não nos afastará
do tema proposto para esta mesa.
Nós aqui presentes, artistas e interessados em
teatro, trabalhamos sob o signo de uma configuração
muito recente, com pouco mais de cem anos de idade,
que se chama Teatro Moderno. Seu nascimento se dá
em meio a uma nova crise, diversa de tantas outras que
esta arte viveu em sua história de ampliações
e retrações no espaço da vida social.
Este Teatro Crítico da nossa era é contemporâneo
da aparente multiplicação de valores trazida
pela era do capitalismo financeiro. Ele reflete assim
as cisões culturais e o desreferenciamento social
do tempo. Menciono um exemplo desta crise de origem.
Não é mentira dizer que nas últimas
décadas do século passado, de todas as
tensões que a arte do teatro começava
a viver, uma era especialmente complicada porque se
processava por dentro, incompatibilizando seus agentes
tradicionais da forma - o ator e o texto. Surgia um
conflito de vontades que instauraria o individualismo
no coração da mais coletiva das artes.
Dentro do quadro amplo de autonomizações
sociais, a prática teatral cindia-se. De um lado
um modelo de interpretação ainda em bases
românticas, codificado, retórico, pautado
pelos velhos tratados das paixões, sendo ainda
praticado pelos atores que queriam exibir seu talento
de artistas geniais livres. O efeito artístico
pretendido era a fascinação, alimento
do culto ao virtuosismo do grande intérprete.
De outro lado, existia uma dramaturgia com vontade de
se refinar e representar particularidades concretas,
realidades mediadas pela perspectiva psicológica,
dando foco à vontade do sujeito individualizado,
a ponto de chegar ao impasse de uma forma dramática
que encontrava seu limite toda vez que pretendia ir
além dos conflitos interpessoais originados do
entrechoque da vontade cotidiana do homem burguês.
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ECUM - Encontro Mundial das Artes Cênicas
25 de maio a 08 de junho de 1998
Centro de Cultura Nansen Araújo - Sesiminas - Belo
Horizonte/MG
Conferência: Princípios da Construção
Dramatúrgica do Espetáculo Contemporâneo
Sérgio de Carvalho
Vou tentar fazer algumas considerações
sobre o que seria o processo de dramaturgia de um espetáculo,
atendo-me ao tema proposto pela mesa, que é princípios
da construção do espetáculo, mas
a partir de uma experiência pessoal, na Cia. do
Latão.
Inevitavelmente, meu discurso vai ser mais abstrato
do que eu gostaria, porque é uma experiência
muito próxima. Talvez eu não tenha distância
crítica ideal para falar sobre ela com mais propriedade.
Então, vou estar levantando algumas dessas idéias
ao longo da minha fala, que também não
deve ser longa. Depois a gente abre para uma discussão,
que pode concretizar algumas dessas coisas.
Antes de entrar na questão da dramaturgia e
dos princípios dramatúrgicos de um espetáculo,
eu gostaria de voltar a uma questão de fundo
que me parece crucial para cada um e para todos nós
que fazemos teatro hoje: por que um grupo de pessoas
hoje se reúne para fazer um espetáculo
de teatro? A pergunta é vasta e vaga, mas me
parece que é a pergunta de fundamento. O que
reúne um grupo de pessoas para produzir um espetáculo
teatral hoje? Talvez uma pergunta mais difícil
do que essa fosse: o que reúne um outro grupo
de pessoas para assistir a um espetáculo teatral
hoje? Mas essa vamos, talvez, tangenciar. Coloco essa
questão dessa forma porque, na verdade, ela tem
uma história recente. Se fosse colocada na época
dos trágicos gregos, ela não faria muito
sentido, porque, evidentemente, e estou pensando no
instrumental aristotélico de avaliação
da tragédia, existia um motivo claro para se
fazer tragédia. Você fazia um poema trágico
para suscitar terror e piedade na platéia, emoções
ambíguas e contraditórias que se desejava
purificar. É uma categoria tão difícil
para nós quando lemos a tragédia, mas
havia um fim claro, em termos aristotélicos.
Sabia-se para que se fazia um poema trágico,
que tipo de relação se queria estabelecer
com ele.
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ENCONTRO MUNDIAL DAS ARTES CÊNICAS
From 25th May to 8th June 1998
Centro de Cultura Nansen Araújo - Sesiminas - Belo
Horizonte/MG - Brazil
Lecture: Principles of the Dramaturgic Construction
of Contemporary Spectacle
Sérgio Carvalho
In this lecture I will try to make some considerations
around what is involved in the process of production
of contemporary dramaturgy, within the theme proposed
by this table, which is 'the principles of the construction
of the spectacle', but departing from my personal experience
in the Cia. do Latão.
Inevitably, my talk will turn out to be more abstract
than I wanted it to be, because this is something that
is very close to me. Maybe I have not taken a good enough
critical distance from it to allow mw to be more objective.
So, I will raise some ideas during this talk, which
will not be long, either. Afterwards, we will discuss
the points raised, which may make these ideas into concrete
practice.
Before going on to the question of dramaturgy, and
of the dramaturgic principles of a spectacle, I would
like to return to a point that seems crucial for each
one of us and for all of us who do theatrics today:
why on earth does a group of people get together today
to put on a play? The question is at the same time comprehensive
and vague, but, for me, it seems to be a fundamental
question. What, then, brings people together today to
produce a play? Maybe a question that would even prove
more difficult to answer would be: what attracts people
to the theatre today? But we will most likely just surface
the answer to this question. I have posed his question
in this way, because, in fact, its history is very recent.
If it had been made in the times of the tragic Greek,
it would make very little sense, because, obviously,
what I have in mind is the Aristotelian tools for the
evaluation of a tragedy - there was a clear reason for
a tragedy to be put on. You wrote a tragic poem to provoke
terror and compassion in the audience, to redeem the
audience from these clashing and ambiguous emotions.
Reading a tragedy is so difficult for us, but its purpose
is clear, in Aristotelian terms. They knew exactly why
write a tragic poem and what sort of relationship it
was meant to establish.
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