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Crítica ataca os diretores do grupo, e não suas convicções estéticas
Por Sérgio de Carvalho e Marcio Marciano, Folha de São Paulo, Ilustrada, 11 de abril de 2002.
A CRÍTICA ideológica ao trabalho da Companhia do Latão não é novidade na história do grupo. Haveria mesmo algo de errado se um trabalho artístico como o nosso, posicionado politicamente à esquerda, não desencadeasse reações contrárias em certo jornalismo cultural comprometido com a idéia de que toda obra de arte é, acima de tudo, mercadoria, e deve ser só discutida do ponto de vista de seu espectro de consumo. Nunca respondemos essas críticas pois sempre vieram como esforço de reduzir nosso trabalho ao campo do reconhecível e do superado.
O texto publicado neste jornal sobre o espetáculo "Auto dos Bons Tratos" ("Latão usa monocórdico contra o cordial", pág. E8, 29/3) caberia nesse perfil se não contivesse algo inédito: sua agressividade descabida, o que evidencia ainda mais sua ausência de reflexão e sua adesão ao sonho da circulação. Apesar de novato, o sr. Salvia Coelho já deixou clara sua visão sobre a arte no dia em que comparou um musical norte-americano com o prazer de dirigir um Rolls-Royce. Por outro lado, ao depreciar nosso trabalho como se fosse simples veículo de uma "tese", retoma um estereótipo contra o teatro dialético que, no fundo, esconde uma dificuldade de compreender o sentido da tese supostamente encenada.
O inusitado no texto do sr. Salvia foi sua recusa em se confrontar com o espetáculo como objeto de análise. Preferiu julgar o comportamento da platéia e não as relações do palco. Escolheu atacar pessoalmente os diretores da Companhia do Latão, e não suas convicções estéticas. Nos dois casos faltou com a verdade.
Se de fato, na estréia em Curitiba, uma pequena parcela de espectadores, num teatro de 700 lugares, abandonou a sala, isso precisa ser contextualizado no ambiente concorrencial de um evento em que a maioria daqueles que explicitaram seu desgosto não eram espectadores pagantes, mas convidados do festival, como indicavam os crachás.
Com isso não isentamos a peça de ter desagradado a alguns, ou alegrado àqueles que gritaram "bravo", divisão compreensível em face de seu assunto e forma. A falsificação tosca é confundir o juízo crítico com a reportagem imprecisa, de modo a amparar a opinião ideológica numa falsa quantificação. Se o critério fosse adotado na segunda noite, quando ninguém deixou o teatro, não haveria má crítica a fazer.
No que se refere ao ataque pessoal, somente a má-fé pode sustentar a afirmação de que os diretores da Companhia do Latão "costumam ostentar um certo menosprezo por outras linhas de teatro". Se enunciamos nossos pontos de vista sempre que algum veículo de imprensa nos convida, é por acreditar nas possibilidades do argumento e na importância de um debate público sobre o teatro. Nunca desqualificamos o trabalho alheio, nem menosprezamos a inteligência do interlocutor, mesmo porque, como espectadores, admiramos estilos de teatro muito diversos do nosso. Atribuir-nos uma "ortodoxia brechtiana" é desconhecer o sentido de um projeto que tomou a obra de Brecht como um modelo heterodoxo para o teatro dialético no Brasil atual. Quem acompanha nossas experiências conhece os procedimentos de uma cena que não suporta senão a contradição.
De resto, cabe lamentar no texto publicado também a superficialidade dos elogios. Destacar, de modo abstrato, o trabalho dos atores, ou a "elegante cenografia", ou o "texto poético", como se não fizessem parte do conjunto, como se não fossem concebidos coletivamente, é outro sinal de sua incapacidade em discutir e respeitar um projeto artístico na contramão do imaginário dominante.
Talvez a única opinião justa do sr. Salvia tenha se dado quando considerou a "trama desinteressante". Não fosse pelo desconhecimento técnico do ofício, seria um acerto conceitual. Numa peça de organização épica, a condução do olhar não se faz através do interesse pela "trama", mas pela análise dos acontecimentos significativos. A rigor, nem existe "trama" no sentido dramático. Mas essa é uma discussão estética demais para um caso em que a tentativa de agressão não foi só de ordem pessoal, mas política.
Márcio Marciano e Sérgio de Carvalho são diretores da Companhia do Latão |
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Erros que resistem às décadas
Por Sérgio de Carvalho, O Globo, 20 de setembro de 2006.
Foram comentários desimportantes aqueles que a crítica do Globo escreveu sobre o espetáculo "O Círculo de Giz Caucasiano", peça de Brecht encenada pela Companhia do Latão. A rigor não mereceriam resposta. Não discutem a concepção do espetáculo, não relacionam as partes criticadas ao todo, não se preocupam em argumentar antes de sentenciar. Seguem, em geral, a técnica de desamor de Bárbara Heliodora. E contra sua opinião de que a dramaturgia de Brecht "não resistiu às décadas" bastaria o desmentido do público no teatro. O que vale a pena, entretanto, responder são suas opiniões sobre o teatro épico, estereótipos banais com os quais Brecht já convivia nos anos 30. "É preciso defender o teatro épico contra qualquer suspeita de se tratar de um teatro desagradável, tristonho e fatigante" escreveu Brecht após os ataques conservadores contra seus primeiros trabalhos.
O arrazoado de Bárbara Heliodora sobre o que lhe parece "a menos satisfatória das grandes peças de Brecht" se baseia nos seguintes pontos: considera o texto "catequético", julga os "episódios repetitivos" e afirma que tudo está ali para propiciar um "bê-a-bá" de politização, que acaba por ser explicativo demais. Por esses motivos, o texto, apesar de alguns "momentos brilhantes" (sabe-se lá quais), não passa numa "prova de qualidade real" (elaborada, evidentemente, por ela) cujo examinador é o senhor Tempo. Todos os lugares-comuns sobre o teatro de Brecht são evocados: racionalismo, frieza, didatismo.
Caso a senhora Heliodora tivesse se dado conta da complexidade do texto saberia que a técnica usada por Brecht em "O Círculo de Giz" está no extremo oposto da teatralidade missionária ou religiosa. Brecht não faz uso da alegoria, não ilustra mensagens, não encerra o significado da peça no palco, ao mesmo tempo em que faz gracejos paródicos com a Bíblia. Era um artista que não suportava, senão, a contradição. Imagino que o incômodo manifestado pela jornalista em relação à explicitação temática no Prólogo e no Epílogo da peça se deva a uma dificuldade de ler a novidade formal de "O Circulo de Giz". Nela, como em nenhuma outra peca, Brecht concretiza em cena a figura coletiva de um Narrador, como o concebia Walter Benjamin, alguém disposto à troca de experiências, alguém que vivencia o tempo das múltiplas renarrações porque sua fala se dirige à memória do ouvinte, alguém, enfim, que não vê problemas em dar conselhos porque sabe que a boa narrativa carrega consigo sua utilidade.
Outro exemplo da incompreensão crítica da Sra. Heliodora é a descrição do juiz Azdak. Ela o considera um arquétipo da "espontaneidade camponesa", encarnação da "ingênua verdade de um bobo de deus". Esquece que se trata de um escrivão que se define nos seguintes termos: "Não sou uma boa pessoa, sou um intelectual!". Não entende que Azdak "faz o diabo" para manipular as leis e assim dar ganho de causa aos pobres porque se comporta como um ambíguo "Justo" das fábulas antigas. Brecht o considerava um ser "amoral e egoísta", mas sobretudo alguém "decepcionado com o fato de que a queda dos velhos senhores não trouxe um novo tempo, mas um tempo de novos senhores".
Quando vivia na Republica de Weimar, Brecht conhecia bem os praticantes da critica culinária e sua técnica de desqualificar a novidade, afirmando-a ultrapassada, insistindo que já foi feita sabe-se lá quando. O argumento historicista surgia na boca de quem não tinha perspectiva histórica, incapaz de comparar épocas. Muitos anos de profissão, infelizmente, não conferem ao critico um olhar atento à historia, como demonstra a Sra. Heliodora. Suas opiniões visam neutralizar qualquer qualidade que lhe pareça incapturável em categorias estáveis de gênero. O pressuposto é uma desqualificação prévia de qualquer atitude transformadora da arte, sobretudo se politizante. Orientar-se por preconceitos é coisa que muitos críticos fazem: pintar sempre a própria imagem nos gostos e desgostos tem algo de patético e vendável; mas falsificar as linhas gerais do trabalho alheio e assim induzir o leitor ao erro está bem longe de ser uma tarefa intelectual nobre. O surpreendente é o quanto esse tipo de personalismo caricatural ainda tenha valor de circulação no mundo da cultura, como uma espécie de movimento agônico de uma profissão em vias de extinção. Na arte que vale a pena, entretanto, a coisa é diferente. A maior qualidade de uma obra que sobrevive não é a duração, mas sua mutabilidade.
SÉRGIO DE CARVALHO, diretor da Companhia do Latão e professor de dramaturgia e crítica teatral na Universidade de São Paulo.
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