PESQUISA EM TEATRO DIALÉTICO
A Companhia do Latão é um grupo teatral de
São Paulo que desenvolve desde julho de 1997 uma pesquisa
artística voltado para a reflexão crítica
sobre a sociedade atual. Esse trabalho inclui a encenação
de espetáculos, a edição da revista Vintém
bem como uma série de experimentos cênicos, musicais
e teorizantes.
A origem do grupo está ligada à ocupação
do Teatro de Arena Eugênio Kusnet da Funarte em São
Paulo, entre 1997 e 1998, quando se consolida seu estudo da
obra de Bertolt Brecht como um modelo para o teatro épico-dialético
no Brasil. Desde então, o grupo produz dramaturgia
própria, interessada na realidade histórica
do país bem como na crítica política
das formas estéticas de representação.
Suas montagens são "peças-processo"
sobre movimentos contraditórios de uma sociedade imersa
nas determinações do capitalismo mundial.
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Foto: Lenise Pinheiro |
O caráter
processual faz com que cada espetáculo da Companhia do
Latão não se insira no sistema produtivo como
um "produto acabado", mas antes como matéria
formativa, em constante transformação, aberta
à interferência crítica do público.
Os espetáculos da Companhia do Latão procuram
evidenciar sua construção por um jogo teatral
claro, com regras expostas. Trabalham com a relação
direta entre atores e público, de uma forma anti-ilusionista,
desprovida de maiores efeitos cenográficos. O espaço
da ficção depende da colaboração
imaginária do espectador, é construído
como experiência compartilhada. |
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Os primeiros trabalhos do coletivo teatral Companhia do Latão
foram adaptações de obras de Brecht. O conjunto
de textos teóricos de A Compra do Latão deu
origem ao espetáculo Ensaio sobre o Latão (1997).
E o texto Santa Joana dos Matadouros recebeu uma encenação
livre, em parte itinerante pelo espaço teatral. Foram
projetos que deram seqüência a uma pesquisa iniciada
em 1996 com a montagem de A Morte de Danton de Büchner,
na livre versão intitulada Ensaio para Danton, que,
dirigida por Sérgio de Carvalho, aproximou alguns dos
artistas que formariam o grupo no ano seguinte.
O primeiro trabalho inteiramente autoral, feito com base no
método de dramaturgia coletiva da Companhia do Latão,
foi O Nome do Sujeito, texto de 1998, com versão final
dos diretores e dramaturgos Sérgio de Carvalho e Márcio
Marciano, e publicado no ano seguinte. Esse trabalho, feito
a partir de improvisações, abriu caminho para
a produção de uma escrita épico-dialético
contemporânea, do ponto de vista de uma crítica
aos modos de operação violentos do capitalismo
na periferia da globalização econômica.
Essa coletivização da escrita assumiu caminhos
muito radicais no espetáculo seguinte, A Comédia
do Trabalho, que estreou no ano 2000. Na medida em que procura
trabalhar suas construções teatrais na perspectiva
da crítica à mercantilização da
cultura e da transformação da sociedade, a Companhia
do Latão atraiu o interesse de diversos grupos politizados
do país e passou a realizar, desde 1999, intercâmbios
com platéias ligadas a movimentos sociais organizados,
como o MST, sindicatos, frentes estudantis, além de
dialogar com cientistas políticos ligados à
universidade. Entre 2001 e 2003 o grupo ocupou o Teatro Cacilda
Becker, no Bairro da Lapa, em São Paulo, onde produziu
mais espetáculos baseados em textos próprios,
como Auto dos Bons Tratos e O Mercado do Gozo. Em 2004 apresenta
Equívocos Colecionados, a partir da obra de Heiner
Muller e Visões Siamesas, criação original
épica inspirada vagamente num conto do escritor Machado
de Assis. Em 2006, a Companhia, juntamente com artistas convidados,
provenientes de vários grupos de pesquisa, encena O
Círculo de Giz Caucasiano, de Bertolt Brecht. O trabalho
da Companhia do Latão é uma mostra viva da possibilidade
de utilização contemporânea do pensamento
de Marx e Engels como ferramenta estética.
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