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A experiência deu origem ao espetáculo Ensaio sobre o latão (1997). Em 1998, a leitura de Santa Joana se converte numa encenação de grande repercussão que aproxima a Companhia do Latão de espectadores ligados a movimentos sociais e universitários. Mesmo trabalhando com uma dramaturgia pré-existente, as primeiras montagens da Companhia do Latão apresentam um caráter de releitura processual, espetáculos ensaísticos no sentido de uma recusa a se inserir no sistema produtivo como um “produto acabado”. As regras do jogo teatral são como que expostas, em encenações desprovidas de maiores efeitos cenográficos, centradas nos atores e música, em que o espaço da ficção surge da colaboração imaginária do espectador. Ainda no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, o grupo dá início a uma produção de dramaturgia própria, realizada na sala de ensaios de modo coletivizado, com base em improvisações dos atores e conjugada a uma pesquisa musical épica conduzida por Lincoln Antonio e Walter Garcia. O nome do sujeito, de outubro de 1998, é uma peça de feições históricas, que se passa em Recife, na segunda metade do século 19. No seu movimento crítico existe a representação de aspectos do projeto de modernização do estado na perspectiva neoliberal empreendido pelo governo brasileiro do fim dos anos 1990. A coletivização da escrita se radicaliza no espetáculo seguinte, A comédia do trabalho, que nasce de um processo de ensaios abertos, integrado a diversas oficinas teatrais e estréia no ano 2000. Concebida como peça de intervenção, em estilo de farsa de agitprop, tem pré-estréias em escolas e num assentamento do MST. A montagem amplia o intercâmbio do grupo com setores politizados do país, sendo apresentada também em sindicatos, encontros estudantis e fóruns sociais. É mantida em repertório por anos, atingindo mais de 70 mil espectadores.
Entre 2001 e 2003, a Companhia do Latão retorna ao Teatro Cacilda Becker, no bairro da Lapa, em São Paulo, onde tinha ocorrido sua pré-história com Ensaio para Danton. Ali o grupo produz suas encenações mais experimentais, também baseadas em textos próprios. Auto dos bons tratos (2002) se baseia num episódio histórico do século 16, relativo ao processo inquisitorial do capitão Pero do Campo Tourinho. A forma jurídico- processual da cena atualiza a perspectiva da peça didática. A peça é apresentada em Portugal, no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, juntamente com A comédia do trabalho.
A reflexão sobre formas de desmontagem ideológica, capazes de perturbar a confiança na narrativa cênica, marca a dramaturgia do período, influenciada também pela leitura de Machado de Assis. Em torno dos processos de manipulação e alienação da indústria cultural se constrói a forma teatral de O mercado do gozo (2003), sobreposta ao tema da prostituição, dos paraísos artificiais e do aburguesamento da cidade de São Paulo no início do século 20.
Em paralelo às grandes montagens, a Companhia do Latão realiza uma série de experimentos mais curtos, às vezes na forma de leituras cênicas, em ocasiões comemorativas: Lorca, Dali, Buñuel (apresentado no centenário de nascimento de García Lorca, 1998), Homenagem aos trabalhadores de Eldorado dos Carajás (2000, na exposição Êxodos, de Sebastião Salgado), Ensaio da Comuna (2001, nos 150 anos da Comuna de Paris), O grande circo da ideologia (2001 e 2003, no Fórum Social Mundial), entre outros. Alguns desses experimentos se tornam encenações de maior repercussão, sendo reapresentados diversas vezes. João Fausto (1999), baseado no libreto de Hanns Eisler, feito a convite do Instituto Goethe de São Paulo, é uma sátira aos intelectuais com passado de esquerda realizada na forma de uma peça-conferência. Valor de troca (2002), baseado numa notícia de jornal em que uma moça é estuprada por policiais é um experimento musical que reflete sobre o discurso da justiça e suas categorias ideais. Seria depois exibido na televisão, numa reescritura de 2007.
Com o apoio do Instituto Goethe, a Companhia do Latão realiza alguns importantes intercâmbios com artistas alemães, entre os quais Peter Palitzsch, colaborador de Brecht no Berliner Ensemble e Alexandre Stillmark, também oriundo do movimento teatral da Alemanha Oriental. Um desses trabalhos, ocorrido com o ensaísta Hans-Thies Lehmann, tem como tema a obra do dramaturgo Heiner Müller. Dá origem a Equívocos colecionados (2004), exercício de ruptura da fábula e de “diálogo com os mortos” da cultura brasileira, composto a partir de entrevistas de Müller e de temas do filme Terra em transe, de Glauber Rocha.
No mesmo ano, o grupo estréia Visões siamesas, um de seus textos mais complexos, que tem como ponto de partida um conto de Machado de Assis. A peça examina o processo social e psicológico de produção de imagens compensatórias em relação ao fracasso da experiência histórica.
As viagens da Companhia do Latão por todo o país em 2005, com um repertório de quatro espetáculos (o que não ocorria desde 1999) encerra um ciclo de trabalho do grupo. Os novos integrantes aliados a Helena Albergaria, Ney Piacentini, Martin Eikmeier e Sérgio de Carvalho dedicam-se no ano seguinte ao Projeto Companhia do Latão 10 anos, cujo objetivo é o resgate do acervo literário, iconográfico e videográfico.
A estréia em agosto de 2006 de O círculo de giz caucasiano, com direção de Sérgio de Carvalho e artistas oriundos de vários grupos de pesquisa, é mais que um retorno a Brecht. Inaugura um procedimento de cooperações e uma intensa produção de experimentos audiovisuais. O reconhecimento internacional se amplia com o convite a Sérgio de Carvalho para uma conferência na Casa Brecht de Berlim sobre a experiência em teatro dialético da Companhia do Latão. O círculo de giz caucasiano é apresentado em Havana onde obtém o prêmio Villanueva, como melhor espetáculo estrangeiro de 2007, concedido pela União dos Escritores e Artistas de Cuba. O Estúdio do Latão é inaugurado em julho do mesmo ano e passa a sediar oficinas e abrigar uma pesquisa teatral e audiovisual intitulada Ópera dos vivos, que se desdobra entre 2008 e 2009. No final de 2008 o grupo lança o livro Companhia do Latão 7 peças (Cosacnaify) e realiza o experimento videocênico Entre o Céu e a Terra. Os livros Introdução ao teatro dialético: experimentos da Companhia do Latão e Atuação crítica: entrevistas da Vintém e outras conversas (ambos editados pela Expressão Popular) assim como o sétimo número da revista Vintém, o CD Canções de Cena II e o DVD Experimentos videográficos do Latão, são lançados em 2009.
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