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| Arte Contra a Barbárie
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Os grupos teatrais Companhia do Latão, Folias
D'Arte, Parlapatões, Pia Fraus, Tapa, União
e Olho Vivo, Monte Azul e os artistas Aimar Labaki,
Beto Andretta, Carlos Francisco Rodrigues, César
Vieira, Eduardo Tolentino, Fernando Peixoto, Gianni
Ratto, Hugo Possolo, Marco Antonio Rodrigues, Reinaldo
Maia, Sérgio de Carvalho, Tadeu de Sousa e Umberto
Magnani, vêm a público declarar sua posição
em relação à questão Cultural
no Brasil:
O Teatro é uma forma de arte cuja especificidade
a torna insubstituível como registro, difusão
e reflexão do imaginário de um povo.
Sua condição atual reflete uma situação
social e política grave.
É inaceitável a mercantilização
imposta à Cultura no país, na qual predomina
uma política de eventos.
É fundamental a existência de um processo
continuado de trabalho e pesquisa artística.
Nosso compromisso ético é com a função
social da arte.
A produção, circulação
e fruição dos bens culturais é
um direito constitucional, que não tem sido respeitado.
Uma visão mercadológica transforma a
obra de arte em produto "cultural". E cria
uma série de ilusões que mascaram a realidade
da produção cultural no Brasil de hoje.
A atual política oficial, que transfere a responsabilidade
do fomento à produção cultural
para a iniciativa privada, mascara a omissão
que transforma os órgãos públicos
em meros intermediários de negócios.
A aparente quantidade de eventos faz supor uma efervescência,
mas, na verdade, disfarça a miséria dos
investimentos culturais de longo prazo que visem à
qualidade da produção artística.
A maior das ilusões é supor a existência
de um mercado. Não há mecanismos regulares
de circulação de espetáculos no
Brasil. A produção teatral é descontínua
e no máximo gera subemprego.
Hoje, a política oficial deixou a Cultura restrita
ao mero comércio do entretenimento. O Teatro
não pode ser tratado sob a ótica economicista.
A Cultura é o elemento de união de um
povo que pode fornecer-lhe dignidade e o próprio
sentido de nação. É tão
fundamental quanto a Saúde, o Transporte e a
Educação. É, portanto, prioridade
do Estado.
Torna-se imprescindível uma política
cultural estável para a atividade teatral. Para
isso, são necessárias, de imediato, ações
no sentido de:
Definição da estrutura, do funcionamento
e da distribuição de verbas dos órgãos
públicos voltados à Cultura.
Apoio constante a manutenção dos diversos
grupos de Teatro do país.
Política regional de viabilização
de acesso do público aos espetáculos.
Fomento à formulação de uma dramaturgia
nacional.
Criação de mecanismos estáveis
e permanentes de fomento à pesquisa e experimentação
teatral.
Recursos e políticas permanentes para a construção,
manutenção e ocupação dos
Teatros públicos.
Criação de programas planejados de circulação
de espetáculos pelo país.
Este texto é expressão do compromisso
e responsabilidade histórica de seus signatários
com a idéia de uma prática artística
e política que se contraponha às diversas
faces da barbárie - oficial e não oficial
- que forjaram e forjam um país que não
corresponde aos ideais e ao potencial do povo Brasileiro.
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| MANIFESTO PELA LEI
DE FOMENTO |
A suspensão
do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade
de São Paulo anunciada pela atual Secretaria de
Cultura não é só um ato de regressão
autoritária, mas um símbolo da miséria
das políticas culturais no país. Vem reforçar
a imagem da Cultura como desperdício, como desnecessidade,
direito exclusivo dos que podem por ela pagar.
Em nome de um formalismo jurídico sobre a dotação
orçamentária e sem nenhum amparo no debate
público, a suspensão descabida da Lei de
Fomento revoga uma decisão unânime do Legislativo,
sancionada pelo Executivo, e desmonta uma conquista histórica
do teatro paulistano. Aceita as ordens esterilizantes
da razão financeira e fecha os olhos a um dos raros
florescimentos artísticos de nossa época.
Em sua breve existência, a Lei de Fomento é
um exemplo único de ação do Estado
no campo da cultura. É direta, sem qualquer dirigismo:
delega aos coletivos de trabalho a liberdade e a autonomia
da formulação poética. É descentralizadora
mas nunca populista: estimula a ampla circulação
da qualidade. É transparente e tem foco nítido:
seu critério de valor é a pesquisa coletiva
de quem se dispõe ao diálogo entre arte
e sociedade.
Na comparação com outras leis para o setor
- como as de incentivo através da renúncia
fiscal - a verba destinada ao Programa de Fomento ao Teatro
é muito pequena. No entanto é ela que garante
a liberdade e a autonomia dos artistas, não a dos
patrocinadores. É ela que beneficia a formação
de espectadores, não de consumidores. É
ela que expressa interesses sociais, avaliados e cobrados
pelo Poder Público, numa inversão total
do privatismo empresarial que impera no uso das verbas
públicas.
Filha do movimento de grupos teatrais de São Paulo
- corporificado nos anos 70 e retomado nos anos 90 - a
Lei de Fomento entende a Cultura como um processo de longa
duração, não como somatória
de produtos eventuais. Não é por acaso que
se tornou um modelo para todo o Brasil. Não é
por acaso que as outras categorias artísticas,
motivadas por seu exemplo, têm procurado superar
a fragmentação e a competitividade impostas
pelo mundo do trabalho precarizado para reinvindicar a
mesma atenção pública.
As acusações feitas à Lei de Fomento
resultam da ignorância quanto a seu funcionamento
ou da sujeição completa à mercantilização
da vida. As suspeitas quanto à sua honestidade
resultam da incapacidade em compreender a ação
do Estado fora dos mecanismos do compadrismo, do estrelismo
e do mando autoritário.
Contra o predomínio das abstrações
financeiras, contra o esvaziamento do debate político
da Cultura e contra as descontinuidades eleitoreiras e
seu princípio perverso da tábula rasa, o
movimento dos grupos teatrais de São Paulo vem
a público exigir:
que a Lei de Fomento seja imediatamente aplicada;
que seu exemplo leve à criação de
novos programas públicos de Cultura nas esferas
municipal, estadual e federal;
que o Estado assumas suas responsabilidades.
A Arte, entre outras tarefas, está aqui para
nos lembrar que nosso tempo e nossa vida são
agora.
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| Por um teatro materialista
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Por Márcio Marciano e Sérgio de Carvalho
A Companhia do Latão tem debatido internamente
algumas questões que dizem respeito à sua
utilidade como produtora de representações.
Para se opor aos modos hegemônicos da atividade
artística numa sociedade orientada pela lógica
do Capitalismo tardio (cujo corolário é
a transformação perene da cultura em mercadoria
e da mercadoria em cultura) essa reflexão deve
provir de uma ação cultural como prática
política. Procuramos resumir os temas debatidos
nos itens expostos a seguir:
O que dá sentido político ao teatro é
a forma como se organizam suas relações
de produção
É na sala de ensaios que tem início o processo
de politização do Teatro. O modo como se
organizam as relações de trabalho entre
os integrantes do grupo determina o caráter político
da encenação. O esforço para que
seja superada a divisão entre trabalho material
e trabalho espiritual na construção da cena
deve se estender, numa segunda fase, à relação
com o público. A politização do ensaio
contagia a forma do espetáculo e abre uma nova
perspectiva de recepção crítica.
A forma processual da obra - decorrente da atitude coletivizante
do trabalho - suprime as hierarquias entre os artistas
no palco, desmistifica a imagem artística, e busca
tornar companheiros de jornada simbólica os homens
do palco e os da platéia.
O que determina o valor da produção artística
é seu valor de uso
Submetida aos padrões do mundo da mercadoria, a
produção artística é levada
a alienar sua utilidade em favor da pura circulação.
Como uma sandália que não se destina mais
ao pé, mas feita para ser vendida, o artista passa
a trabalhar para ser reconhecido como artista, gasta sua
energia produtiva e econômica para aparecer nos
jornais, para ser valorizado como mercadoria da cultura.
Torna estética não sua obra, mas sua condição
de mercadoria. Afasta-se dos conteúdos da arte
e estetiza, em abstrato, seu modo de ser. Comporta-se
como as mercadorias, cuja aura construída pouco
provém do conteúdo do produto e muito das
emoções genéricas que lhe são
atribuídas. O artista, assim constrangido, persegue
toscas imagens da celebridade enquanto lamenta idealisticamente
a corrupção dos valores artísticos.
A crítica ao império da circulação
é, contudo, insuficiente. Pode levar à defesa
da arte absoluta, de que a obra encontra seu fim no seu
sentido puramente estético. Para nós, não
se deve ter medo do debate sobre a função
da arte. Consideramos legítimas quaisquer utilizações
pedagógicas, assistenciais e humanitárias
da arte, ainda que nossa pesquisa seja de ordem estética.
Estética naquele limiar em que a estética
deixa de ser estética: nosso interesse artístico
é a reativação da luta de classes.
É necessária a invenção de
alternativas de circulação
A lógica da circulação impregna e
confunde os produtores da arte. Inocula nos organismos
da cultura doenças como o marquetismo, o personalismo,
o agradismo hedonista. A crítica à mercantilização
da arte é inoperante se o trabalho artístico
continua preso aos ditames de uma imprensa cujo critério
de verdade provém das pesquisas de mercado. De
outro lado, a produção que conta com o apoio
estatal não está preservada da influência
mercantil quando apenas - no desejo de corresponder ao
sentido público de sua missão - confere
aparência "social" aos seus produtos,
sem alterar conteúdos e práticas teatrais.
Os produtos da cultura devem servir a processos coletivos,
e não o contrário. Por isso, novos modos
precisam ser inventados: associações de
espectadores, contatos com movimentos sociais, intercâmbios
entre grupos. Cabe também aos artistas a organização
de novos sistemas de circulação de suas
obras. Não basta a interlocução isolada
entre produtores culturais, à margem da sociedade.
É preciso produzir formas capazes de incluir a
sociedade como um todo numa perspectiva revolucionária.
Anticapitalismo, pesquisa estética e revolução
A pesquisa estética terá sensibilidade revolucionária
quando desenvolvida por produtores empenhados em um projeto
coletivo anticapitalista.
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