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Iná Camargo
Costa
Professora de Teoria Literária
na FFLCH-USP,
autora de de A hora do teatro épico no Brasil.
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Eu peguei andando o bonde do Latão. Quando
me avisaram que a Companhia estava apresentando Ensaio
sobre o latão, corri para assistir. E já
tinha perdido o Danton.
Como antiga leitora do ensaio de Brecht, A Compra
do Latão, tinha especial curiosidade em relação
a que partes do texto o grupo teria escolhido para encenar.
E confesso que não me decepcionei. A começar
pela "composição dos motivos"
do personagem Filósofo, o Ensaio procurou mostrar
os desafios que se colocavam para o teatro de Brecht
e continuam postos para quem acredita ser possível
fazer ainda hoje um teatro relevante, capaz de dizer
alguma coisa sobre o que se passa com o mundo. A cena
de rua, criada pelo grupo a partir de uma decisiva sugestão
do texto, é um exemplo estimulante de tentativa
de análise cênica da degradada paisagem
urbana numa cidade como São Paulo.
Algum tempo depois a Companhia estreou Santa Joana
dos Matadouros, mostrando o quanto Brecht continua capaz
de revelar alguma coisa dos mistérios do mundo.
Novamente são as soluções cênicas
que mais impressionam. E fica evidente uma das maiores
qualidades do grupo: a capacidade de solucionar com
muita imaginação o problema de pôr
em cena grandes multidões com elenco numericamente
pequeno.
Com o espetáculo seguinte, O nome do sujeito,
a Companhia se declara em condições de
enfrentar o objeto que sempre interessa mais - o Brasil.
Está é provavelmente a mais importante
tentativa teatral de olhar criticamente para nossa história
desde que Vianinha escreveu Os Azeredos mais os Benevides
(às vésperas do golpe de 1964).
Mas os estragos que a ditadura e seus sucessores
provocaram em nossa vida social, econômica, cultural
e, portanto, mental foram de tal ordem que hoje um abismo
nos separa de Vianinha e do ímpeto que o levou
a escrever essa peça.
Como então entender a existência de
um grupo teatral que, sem mais aquela, retoma justo
esse fio perdido em nossa experiência dos últimos
35 anos ? Brecht explica alguma coisa, mas a sensibilidade
para os efeitos sociais da radicalização
da ignomínia desses anos recentes de triunfo
neoliberal explica muito mais.
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João Pedro
Stedile
Coordenador do MST - Movimento
dos trabalhadores rurais sem terra.
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Temos acompanhado com satisfação a
contribuição artística e cultural
desses corajosos meninos e meninas da Companhia do Latão.
Vemos neles, além do profissionalismo com que
encaram sua missão, aquela generosa dedicação,
dos que se entregam de corpo e alma e conseguem colocar
a cultura e a arte a serviço da conscientização
de nossa sociedade. Nosso movimento é grato por
ter podido receber deles a cultura de Brecht, com beleza
e tanta dedicação. Nosso país está
precisando cada vez mais de Companhias do Latão
do que das companhias a quem o governo entregou nossa
economia.
Abraços.
João Pedro Stedile, 25.02.99.
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Wolfgang Storch
Carta a Sérgio de Carvalho
Sobre tragédia, paixão e teatro político
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Caro Sérgio de Carvalho,
No verão de 2002 tivemos um encontro em Delfos
para refletir sobre a possibilidade de desenvolvermos
formas que permitissem às artes protestar publicamente
contra um processo político que não conta
com nenhum poder que se lhe opusesse como corretivo.
A rachadura que perpassa a sociedade como espaço
da arte. Consultamos artistas que, a partir de seu próprio
trabalho, procuram a confrontação com
outras artes para encontrar uma linguagem. Uma linguagem
que se transforma em argumento frente à sociedade,
porque abre a ferida.
Dois textos dominavam a nossa discussão:
a poesia Jenin, de Etel Adnan, escrita na primavera,
depois da destruição da cidade palestinense
de Jenin pelas tropas de Israel, uma paixão;
e havia Filoctetes, a tragédia do homem abandonado
que tem uma ferida no pé que não sara,
escrita por Sófocles e reescrita por Heiner Müller
no início dos anos 60.
"A ferida pode ser usada como arma", escreveu
Heiner Müller 20 anos depois para Mitko Gotscheff
após a encenação do Filoctetes
em Sofia, "porque o pé representa o buraco
na rede, a lacuna no sistema, aquele vão livre
entre o animal e o homem, que se vê continuamente
ameaçado e que precisa ser continuamente reconquistado,
no qual relampeja a utopia da comunidade humana. O pássaro
que manca desfigura o vôo" (Carta ao diretor
da estréia búlgara de Filoctetes no Teatro
Dramático de Sofia, in W. Storch (org.), Explosion
of a Memory, Berlim, 1989, p. 96). A tragédia
como arma, o argumento, a lacuna no sistema como revelação.
Com Filoctetes, Sófocles, então com
87 anos de idade, pretendia fazer um apelo aos líderes
de Atenas no sentido de encerrar a luta e de obedecer
finalmente às resoluções da assembléia
do povo que exigiam o fim de uma guerra que já
durava duas décadas e que estava arruinando Atenas.
No ano anterior realizara-se no Teatro de Dioniso uma
assembléia popular que se manifestara a favor
da conciliação. Heiner Müller estava
então com 33 anos. Os líderes políticos
da RDA tinham erguido o muro de Berlim para obrigar
o povo a se unir em torno do interesse comum. A peça
de Heiner Müller, A migrante, que tinha estreado
imediatamente após a construção
do muro, fora declarada anticomunista e, para estatuir
um exemplo, o autor foi expulso da União dos
Escritores. Por tempo indeterminado ficaria sem encomendas.
Na versão de Heiner Müller, o jovem Neoptólemo,
filho de Aquiles, que Ulisses tinha levado como chamariz,
mata Filoctetes no momento em que esse se dispõe
a matar Ulisses. Trata-se de um fato novo na tradição
do mito. "A tragédia fica de mãos
vazias", escreveu Heiner Müller. "O seu
desenrolar recusa o consolo que não passa de
um adiamento. Ele transporta o nada, talvez o início"
(Ibid.). Doze anos de reconstrução, 1949
- 1961, perdidos! Sófocles também se vê
diante do nada, diante da catástrofe da guerra
começada por Péricles. Os seus três
reis não encontram um caminho comum. É
a primeira tragédia com três protagonistas.
A medida tinha sido ultrapassada. Aparece Hércules
que manda Filoctetes seguir Neoptólemo até
Tróia. Ele pode apresentar-se: a sua base é
o coro, a antiga tripulação de Aquiles;
a intervenção de Hércules corresponde
à perspectiva e ao desejo dos marinheiros que
não tem poder algum. Os líderes de Heiner
Müller não tem contraentes, não há
coro, são políticos sem povo, estão
entre si. Entregue a si mesmo, surdo para as instruções
que recebeu, Filoctetes deixa Ulisses, que o tinha entregue,
e Neoptólemo, que procura nele o aliado contra
Ulisses, sem condições para executarem
a sua missão.
Continua...(clique
aqui para ler essa carta na íntegra)
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Valderez Perez
Espectadora desconhecida do
grupo, que nos enviou esta carta em 18 de abril de 1999.
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Queridos artistas,
Hoje foi a terceira vez que vi vocês atuarem,
e novamente comentei : "dá vergonha de ter
pago tão pouco para ver um espetáculo
tão bom !" E minha amiga comentou : "isso
sem contar que a segunda vez foi grátis !".
E aí a gente fica lamentando que tantas vezes
assiste a espetáculos com medalhões das
artes cênicas e não sai tão satisfeito
- e às vezes nem tem o que comentar.
Com vocês, ao contrário : "nossa,
aquela cena da fotografia, com todos parados e só
o que muda são as expressões do rosto
!". "E aquela moça que tanto convence
como o português avarento, quanto como uma escrava
à beira do suicídio !". "E o
padre, que na outra peça fez tão bem a
prostituta Sandra ?". "E o português
inocente, que vai se corrompendo ?". E aquela moça
que aceita a necessidade de quebrar o pescoço
do filho como antes quebrou o da galinha ?". "E
o rapaz do vozeirão, que se transforma numa velhinha
cega ?" "E aquele que já inicia a peça
lá do meio da rua ?". "E o cenário
: quanto se faz com uns paus, uns panos, e um varal
?". "E a música : nessa peça
que deu para ver bem que cantar para eles não
é apenas incidental." Enfim, tudo nos encantou.
Ficamos então comentando que, por falta de programa
da peça, a gente não sabe, nem mesmo,
os seus nomes. Sabíamos que as outras peças
eram de Brecht, mas quem era o autor desta ? O guia
da Folha diz que o texto é do grupo. Mas vocês
são artistas integrais : compõem, encenam,
cantam. E tudo isto bem !
Por isso senti essa necessidade de escrever para vocês.
Minha amiga disse que teria sido melhor se tivéssemos
pago o preço integral do ingresso. Sem pedir
o desconto oferecido contra a apresentação
dos ingressos da Santa Joana. Mas eu achei que, prejuízo
à parte, o reconhecimento também deve
ser interessante para os artistas. Aliás, sempre
acho que os aplausos para artistas teatrais são
poucos. Em espetáculos de música aplaude-se
muito mais, até que o astro se digne a conceder
o bis. Acho que no teatro também, dá vontade
de ficar olhando mais um pouquinho as pessoas, depois
de desincorporadas de seus personagens.
É realmente uma pena que a mídia e os
patrocinadores insistam sempre nos nomes já consagrados.
Porque os seus espetáculos mereciam e muito divulgação,
crítica com um monte de estrelinhas, e aqueles
programas bonitinhos com as fotos e os nomes dos artistas,
e depoimentos de ilustres que assistiram e amaram.
Espero mesmo receber a sua programação
pela mala direta. Estejam certos de que não só
não perderemos seus próximos espetáculos,
como divulgaremos para amigos, inimigos, para quem gosta
ou não de teatro.
Parabéns ! Do fundo do coração
desejo que a fama e a fortuna também (por que
não ?) não tardem. Muito sucesso para
vocês !
Valderez.
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