Iná Camargo Costa
João Pedro Stedile
Wolfgang Storch
Valderez Perez
 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 




Iná Camargo Costa

Professora de Teoria Literária na FFLCH-USP,
autora de de A hora do teatro épico no Brasil.

Eu peguei andando o bonde do Latão. Quando me avisaram que a Companhia estava apresentando Ensaio sobre o latão, corri para assistir. E já tinha perdido o Danton.

Como antiga leitora do ensaio de Brecht, A Compra do Latão, tinha especial curiosidade em relação a que partes do texto o grupo teria escolhido para encenar. E confesso que não me decepcionei. A começar pela "composição dos motivos" do personagem Filósofo, o Ensaio procurou mostrar os desafios que se colocavam para o teatro de Brecht e continuam postos para quem acredita ser possível fazer ainda hoje um teatro relevante, capaz de dizer alguma coisa sobre o que se passa com o mundo. A cena de rua, criada pelo grupo a partir de uma decisiva sugestão do texto, é um exemplo estimulante de tentativa de análise cênica da degradada paisagem urbana numa cidade como São Paulo.

Algum tempo depois a Companhia estreou Santa Joana dos Matadouros, mostrando o quanto Brecht continua capaz de revelar alguma coisa dos mistérios do mundo. Novamente são as soluções cênicas que mais impressionam. E fica evidente uma das maiores qualidades do grupo: a capacidade de solucionar com muita imaginação o problema de pôr em cena grandes multidões com elenco numericamente pequeno.

Com o espetáculo seguinte, O nome do sujeito, a Companhia se declara em condições de enfrentar o objeto que sempre interessa mais - o Brasil. Está é provavelmente a mais importante tentativa teatral de olhar criticamente para nossa história desde que Vianinha escreveu Os Azeredos mais os Benevides (às vésperas do golpe de 1964).

Mas os estragos que a ditadura e seus sucessores provocaram em nossa vida social, econômica, cultural e, portanto, mental foram de tal ordem que hoje um abismo nos separa de Vianinha e do ímpeto que o levou a escrever essa peça.

Como então entender a existência de um grupo teatral que, sem mais aquela, retoma justo esse fio perdido em nossa experiência dos últimos 35 anos ? Brecht explica alguma coisa, mas a sensibilidade para os efeitos sociais da radicalização da ignomínia desses anos recentes de triunfo neoliberal explica muito mais.



















João Pedro Stedile

Coordenador do MST - Movimento dos trabalhadores rurais sem terra.

Temos acompanhado com satisfação a contribuição artística e cultural desses corajosos meninos e meninas da Companhia do Latão. Vemos neles, além do profissionalismo com que encaram sua missão, aquela generosa dedicação, dos que se entregam de corpo e alma e conseguem colocar a cultura e a arte a serviço da conscientização de nossa sociedade. Nosso movimento é grato por ter podido receber deles a cultura de Brecht, com beleza e tanta dedicação. Nosso país está precisando cada vez mais de Companhias do Latão do que das companhias a quem o governo entregou nossa economia.
Abraços.

João Pedro Stedile, 25.02.99.








 






Wolfgang Storch

Carta a Sérgio de Carvalho
Sobre tragédia, paixão e teatro político

Caro Sérgio de Carvalho,

No verão de 2002 tivemos um encontro em Delfos para refletir sobre a possibilidade de desenvolvermos formas que permitissem às artes protestar publicamente contra um processo político que não conta com nenhum poder que se lhe opusesse como corretivo. A rachadura que perpassa a sociedade como espaço da arte. Consultamos artistas que, a partir de seu próprio trabalho, procuram a confrontação com outras artes para encontrar uma linguagem. Uma linguagem que se transforma em argumento frente à sociedade, porque abre a ferida.

Dois textos dominavam a nossa discussão: a poesia Jenin, de Etel Adnan, escrita na primavera, depois da destruição da cidade palestinense de Jenin pelas tropas de Israel, uma paixão; e havia Filoctetes, a tragédia do homem abandonado que tem uma ferida no pé que não sara, escrita por Sófocles e reescrita por Heiner Müller no início dos anos 60.

"A ferida pode ser usada como arma", escreveu Heiner Müller 20 anos depois para Mitko Gotscheff após a encenação do Filoctetes em Sofia, "porque o pé representa o buraco na rede, a lacuna no sistema, aquele vão livre entre o animal e o homem, que se vê continuamente ameaçado e que precisa ser continuamente reconquistado, no qual relampeja a utopia da comunidade humana. O pássaro que manca desfigura o vôo" (Carta ao diretor da estréia búlgara de Filoctetes no Teatro Dramático de Sofia, in W. Storch (org.), Explosion of a Memory, Berlim, 1989, p. 96). A tragédia como arma, o argumento, a lacuna no sistema como revelação.

Com Filoctetes, Sófocles, então com 87 anos de idade, pretendia fazer um apelo aos líderes de Atenas no sentido de encerrar a luta e de obedecer finalmente às resoluções da assembléia do povo que exigiam o fim de uma guerra que já durava duas décadas e que estava arruinando Atenas. No ano anterior realizara-se no Teatro de Dioniso uma assembléia popular que se manifestara a favor da conciliação. Heiner Müller estava então com 33 anos. Os líderes políticos da RDA tinham erguido o muro de Berlim para obrigar o povo a se unir em torno do interesse comum. A peça de Heiner Müller, A migrante, que tinha estreado imediatamente após a construção do muro, fora declarada anticomunista e, para estatuir um exemplo, o autor foi expulso da União dos Escritores. Por tempo indeterminado ficaria sem encomendas. Na versão de Heiner Müller, o jovem Neoptólemo, filho de Aquiles, que Ulisses tinha levado como chamariz, mata Filoctetes no momento em que esse se dispõe a matar Ulisses. Trata-se de um fato novo na tradição do mito. "A tragédia fica de mãos vazias", escreveu Heiner Müller. "O seu desenrolar recusa o consolo que não passa de um adiamento. Ele transporta o nada, talvez o início" (Ibid.). Doze anos de reconstrução, 1949 - 1961, perdidos! Sófocles também se vê diante do nada, diante da catástrofe da guerra começada por Péricles. Os seus três reis não encontram um caminho comum. É a primeira tragédia com três protagonistas. A medida tinha sido ultrapassada. Aparece Hércules que manda Filoctetes seguir Neoptólemo até Tróia. Ele pode apresentar-se: a sua base é o coro, a antiga tripulação de Aquiles; a intervenção de Hércules corresponde à perspectiva e ao desejo dos marinheiros que não tem poder algum. Os líderes de Heiner Müller não tem contraentes, não há coro, são políticos sem povo, estão entre si. Entregue a si mesmo, surdo para as instruções que recebeu, Filoctetes deixa Ulisses, que o tinha entregue, e Neoptólemo, que procura nele o aliado contra Ulisses, sem condições para executarem a sua missão.

Continua...(clique aqui para ler essa carta na íntegra)


 

 

 

 

 

 

 


Valderez Perez

Espectadora desconhecida do grupo, que nos enviou esta carta em 18 de abril de 1999.

Queridos artistas,

Hoje foi a terceira vez que vi vocês atuarem, e novamente comentei : "dá vergonha de ter pago tão pouco para ver um espetáculo tão bom !" E minha amiga comentou : "isso sem contar que a segunda vez foi grátis !". E aí a gente fica lamentando que tantas vezes assiste a espetáculos com medalhões das artes cênicas e não sai tão satisfeito - e às vezes nem tem o que comentar.
Com vocês, ao contrário : "nossa, aquela cena da fotografia, com todos parados e só o que muda são as expressões do rosto !". "E aquela moça que tanto convence como o português avarento, quanto como uma escrava à beira do suicídio !". "E o padre, que na outra peça fez tão bem a prostituta Sandra ?". "E o português inocente, que vai se corrompendo ?". E aquela moça que aceita a necessidade de quebrar o pescoço do filho como antes quebrou o da galinha ?". "E o rapaz do vozeirão, que se transforma numa velhinha cega ?" "E aquele que já inicia a peça lá do meio da rua ?". "E o cenário : quanto se faz com uns paus, uns panos, e um varal ?". "E a música : nessa peça que deu para ver bem que cantar para eles não é apenas incidental." Enfim, tudo nos encantou.
Ficamos então comentando que, por falta de programa da peça, a gente não sabe, nem mesmo, os seus nomes. Sabíamos que as outras peças eram de Brecht, mas quem era o autor desta ? O guia da Folha diz que o texto é do grupo. Mas vocês são artistas integrais : compõem, encenam, cantam. E tudo isto bem !
Por isso senti essa necessidade de escrever para vocês. Minha amiga disse que teria sido melhor se tivéssemos pago o preço integral do ingresso. Sem pedir o desconto oferecido contra a apresentação dos ingressos da Santa Joana. Mas eu achei que, prejuízo à parte, o reconhecimento também deve ser interessante para os artistas. Aliás, sempre acho que os aplausos para artistas teatrais são poucos. Em espetáculos de música aplaude-se muito mais, até que o astro se digne a conceder o bis. Acho que no teatro também, dá vontade de ficar olhando mais um pouquinho as pessoas, depois de desincorporadas de seus personagens.
É realmente uma pena que a mídia e os patrocinadores insistam sempre nos nomes já consagrados. Porque os seus espetáculos mereciam e muito divulgação, crítica com um monte de estrelinhas, e aqueles programas bonitinhos com as fotos e os nomes dos artistas, e depoimentos de ilustres que assistiram e amaram.
Espero mesmo receber a sua programação pela mala direta. Estejam certos de que não só não perderemos seus próximos espetáculos, como divulgaremos para amigos, inimigos, para quem gosta ou não de teatro.
Parabéns ! Do fundo do coração desejo que a fama e a fortuna também (por que não ?) não tardem. Muito sucesso para vocês !

Valderez.