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Companhia do Latão 7 peças
(Cosacnaify, 2008, 416 p.)
O livro reúne o melhor da produção dramatúrgica do Latão: as peças O nome do sujeito, A comédia do trabalho, Auto dos bons tratos, O mercado do gozo, Visões siamesas, Ensaio para Danton e Equívocos colecionados. Prefácio da pesquisadora Iná Camargo Costa.
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Leia artigos sobre Companhia do Latão 7 peças:
De matriz brechtiana, grupo reata com prática dos anos 60
Por Silvia Fernandes, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 11 de agosto de 2008.
Uma dramaturgia para o teatro político
Por Kil Abreu.
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De matriz brechtiana, grupo reata com prática dos anos 60
Por Silvia Fernandes, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 11 de agosto de 2008.
A publicação de sete peças da Companhia do Latão permite ao leitor conhecer uma das experiências mais radicais de dramaturgia brasileira empreendidas nas últimas décadas. Resultantes do processo colaborativo de criação que define a escritura do teatro de grupo dos anos 90, os textos reunidos no volume foram criados ou adaptados em sala de ensaio a partir das improvisações dos atores e funcionam como modelo das formas mais recentes de produção de uma dramaturgia cênica coletivizada. A Companhia São Jorge de Variedades, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, o Teatro da Vertigem e o Grupo XIX de Teatro são outros exemplos dessa prática teatral que revolucionou a cena paulista nos últimos anos.
Mas, sem dúvida, o diferencial do trabalho da companhia é a opção pela pesquisa do teatro épico-dialético, de matriz brechtiana, em que a crítica política das formas de representação é o meio de viabilizar o desmonte dos modos de operação do capitalismo periférico. Talvez por isso a temática das peças seja recorrente, ainda que o objeto varie, como observa a ensaísta Iná Camargo Costa no prefácio esclarecedor. Nesse sentido, a criação de "Visões Siamesas" e "Equívocos Colecionados", em 2004, dá continuidade às reflexões de "O Mercado do Gozo" (2003), "O Auto dos Bons Tratos" (2002) e "A Comédia do Trabalho" (2000), textos prenunciados, de certa forma, pela primeira dramaturgia coletiva do Latão, "O Nome do Sujeito" (1998), estreada dois anos depois da criação do grupo, em 1996, com "Ensaio para Danton", que adaptava o texto de Georg Büchner.
Retomada
Na tematização do movimento operário, do universo da prostituição, da mercantilização das relações, da escravização da mão-de-obra ou da ascensão do capitalismo financeiro, os textos apresentam os destinos individuais imbricados às forças coletivas, e o jogo de transição entre o íntimo e o público exige dos dramaturgos-diretores, Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano, um desenho quase coreográfico de apartes, interrupções e alterações de chave estilística.
Ao reatar conexões com a prática teatral dos anos 60, especialmente do Teatro de Arena e do CPC, o Latão reconhece o esgotamento do modelo nacional-popular diante das novas relações de trabalho e da penetração da indústria cultural. E, visando a retomada crítica, é responsável por uma reviravolta nas propostas do teatro político de perfil mais tradicional, em que a "mensagem" revolucionária é a prioridade. Apóia-se especialmente nas reflexões de Walter Benjamin e Theodor Adorno, na teoria do drama moderno de Peter Szondi, nos ensaios iluminados de Anatol Rosenfeld e nas críticas de Fredric Jameson ao pós-modernismo para esclarecer os mecanismos nem sempre ocultos de determinação das relações sociais em circunstâncias históricas específicas.
Regras do Jogo
É visível, na sucessão dos textos, a paulatina radicalização da simbiose entre a pesquisa formal e a reflexão histórica, especialmente quando as articulações do processo social sedimentam-se na estrutura dramatúrgica e expõem, em suas soluções, aquilo que a temática procura explicitar. No sentido próprio do estranhamento brechtiano, é espantoso constatar, desde "O Nome do Sujeito", a inteligência de mecanismos de construção certeiros como o da invisibilidade proposital do aristocrata que espolia e assassina os subalternos, mas permanece como personagem ausente de uma narrativa protagonizada por escravos, artistas, clérigos e comerciantes da cidade de Recife no 2º Império.
As "diversas modalidades de comércio entre os homens" reaparecem em "Mercado do Gozo", que mobiliza três planos ficcionais para criticar as manipulações da imagem na sociedade do espetáculo. A greve geral que paralisou a indústria paulista em 1917, o mundo urbano da prostituição e o filme que associa fábrica e bordel à mesma cadeia produtiva contracenam num jogo cinematográfico de corte e repetição, que expõe os pontos de vista da companhia.
Essa exposição das regras do jogo aparece, com clareza, em todos os textos, especialmente nas cenas que se contradizem internamente, ao contrapor procedimentos de literatura e palco, palavra e imagem, e não é casual que registrem rubricas com indicações cênicas detalhadas. Também não é gratuita a construção fragmentada de "Equívocos Colecionados", inspirado em entrevistas e escritos teóricos do dramaturgo Heiner Müller. Nem a opção pelo tema da migração em "Visões Siamesas", que traduz no deslocamento geográfico as mudanças históricas do país e aproxima a companhia da melhor dramaturgia brasileira contemporânea de Luís Alberto de Abreu, Gero Camilo e Newton Moreno.
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Uma dramaturgia para o teatro político
Por Kil Abreu*
Companhia do Latão lança livro, exposição fotográfica e apresenta espetáculos que comemoram os dez anos do grupo
A Coleção Dramática, que já publicou clássicos de Gil Vicente, J.W. Goethe e Bertolt Brecht em edições com aparato crítico e rico material iconográfico, afirma com este Companhia do Latão-7 peças seu compromisso com a inovação do teatro brasileiro e da dramaturgia contemporânea, colocando as grandes obras na perspectiva das inquietações do presente.
Os textos publicados no volume são o registro do trabalho de um dos mais importantes grupos do teatro brasileiro nos últimos dez anos. Resultado da criação compartilhada entre atores, diretores, dramaturgos e outros artistas envolvidos, os textos têm versão final de Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano e são a um só tempo a síntese artística da Companhia do Latão e um exemplo da produção teatral em grupo, prática que volta a ser recorrente na cena brasileira a partir dos anos 1990 e que se mostra aqui em um dos seus momentos mais conseqüentes.
No livro é possível atestar que a tarefa assumida pela Companhia do Latão, a de dar continuidade à linhagem de um teatro crítica, é acompanhada rigorosamente pela preocupação com a qualidade poética, sem a qual os fins do projeto artístico não seriam efetivos. Inspirados no marxismo como princípio filosófico e em Brecht como modelo de um sistema teatral capaz de problematizar a vida em sociedade, os integrantes da Companhia do Latão escreveram uma dramaturgia que guarda na própria forma o espírito do processo que a gerou.
A intervenção viva dos atores através dos improvisos, procedimentos que estimulou boa parte da escritura, é implícita à dinâmica das peças e indica claramente a origem do material – o trabalho em sala de ensaio - e a sua vocação: o palco. A colaboração variada não dispensa o esmerado acabamento literário a que se dedicaram a dupla de diretores-dramaturgos e corresponde sempre ao propósito fundamental do grupo, a que servem este e todos os outros meios poéticos empregados: o de representar o mundo como coisa transformável, sendo a transformação da realidade vista como fruto do esforço coletivo.
PROCESSO CRIATIVO E FORMA ARTÍSTICA
A leitura das peças da Companhia do Latão explica em muito a maneira como o grupo se irmana à tradição do teatro engajado brasileiro, colhendo com seu trabalho o reconhecimento local e internacional – no inicio de 2008 a montagem de O Círculo de Giz Caucasiano recebeu o prêmio Villanueva de melhor espetáculo estrangeiro de 2007 da UNEAC, em Cuba. Se por um lado permanecem os propósitos que justificam um teatro empenhado na transformação social, por outro o grupo não se nega a fazer do processo criativo o laboratório de experiências que em outra época provavelmente seriam tomadas como mero formalismo.
É que o caráter experimental da criação, no caso, não se confunde com o esteticismo aleatório. Toma o lugar de método através do qual se busca contrastar os movimentos do capitalismo hoje em modos críticos de representação. É isto que qualifica artisticamente e que singulariza uma posição no panorama do teatro, em comparação ao passado e no momento atual. E é isto o que justifica a publicação destas sete peças, referências obrigatórias não só para o teatro adjetivado como “político”, mas para a própria arte do teatro.
*Kil Abreu é jornalista, crítico e pesquisador de teatro. Atualmente, compõe o júri do Premio Shell, é curador do Festival de Teatro de Recife e coordena o Núcleo de Estudos do Teatro Contemporâneo na Escola Livre de Teatro de Santo André.
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