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Revista VINTÉM
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Surgida em 1998, a revista Vintém
é um projeto editorial da Companhia do Latão,
grupo de pesquisa teatral de São Paulo interessado
em temas atuais da vida social brasileira. A revista
dá continuidade à reflexão
cênica do grupo e se apresenta como um lugar
de discussão crítica sobre teatro,
literatura, política e pensamento de esquerda.
Em sua sexta edição (a contar do número
zero), com periodicidade irregular, a publicação
- editada pela própria Companhia do Latão,
com o apoio do Programa Municipal de Fomento ao
Teatro para a Cidade de São Paulo - será
agora semestral. Estará à venda nas
principais livrarias da cidade, nos teatros onde
a Companhia estiver se apresentando, e pode ser
encomendada pela internet, no e-mail: vintem@uol.com.br.
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A revista é um espaço fundamental de divulgação dos estudos sobre teatro dialético, que definem a Companhia do Latão. Chega ao seu sexto número e conta com um Dossiê Brecht, composto por textos de tradução inédita, além de entrevistas com Ismail Xavier e Jorge Grespan.
Se encontra a venda por R$10,00, em São Paulo, nos seguintes espaços: Livraria Cultura, Livraria da Vila, Livraria do Espaço Unibanco de Cinema, Livraria Humanitas e Mercearia São Pedro.
A revista está também disponível em nossa sede, por R$ 5,00. Para saber como adquirí-la, basta ligar (11) 38141905.
No Rio de Janeiro pode ser encontrada na Livraria Leonardo da Vinci.
Para as demais regiões do país, podemos enviar pelo correio. Para as cidades onde existe Livraria Cultura, existe a possibilidade de se encomendar a revista de São Paulo para a cidade em questão.
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Artigo:
Revista "Vintém" discute rumos do
teatro
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Caderno
de Apontamentos
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A COMÉDIA DO TRABALHO
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"O
teatro precisa, portanto, mesmo simbolicamente, reativar
a luta de classes, e a teoria do teatro se tornará
uma alegoria do próprio processo (...)"
(Fredric Jameson) |
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VINTÉM #0
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Editorial
Embora nasça ligada a
um projeto teatral, e seu próprio nome indique
uma filiação brechtiana mais que escancarada,
Vintém se propõe a ser uma publicação
independente, voltada tanto para a arte e cultura
brasileiras (seção Brasiliana), como
para os estudos teatrais em geral (seção
Teatrada).
Apesar dessa bipartição, cada número
de Vintém procura - na variável medida
do possível e do indicável- se guiar
por uma diretriz temática central, que orienta
seções como Memória (de textos
inéditos ou pouco conhecidos) e a Entrevista
que abre o periódico.
Até mesmo para superar a mencionada filiação
brechtiana, e se desapegar dela, este número
zero é dedicado à obra do poeta alemão
Bertolt Brecht. De certa forma, é um movimento
semelhante ao que a Companhia do latão pretende
realizar no seu período de ocupação
do Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em São
Paulo, ao utilizar o pensamento teatral de Brecht
como ponto de partida para sua própria reflexão.
O desenvolvimento do trabalho da Companhia do latão
- vencedora do edital da Funarte / Ministério
da Cultura para ocupação do teatro -
será registrado no final de cada edição
de Vintém, onde há um relato sobre as
atividades do projeto (Pesquisa em Teatro Dialético),
que incluem conferências, leituras dramáticas,
shows, espetáculos e oficinas.
Como todo número zero, esta edição
de Vintém tem um sentido experimental. Críticas
e sugestões são bem-vindas. A publicação
só existe graças ao patrocínio
da Editora Hucitec e à colaboração
generosa das pessoas que se dispuseram a escrever
e publicar seus artigos nas páginas que se
seguem. Agradecimentos a todos.
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Índice
Entrevista
Gerd Bornheim 2
Brasiliana
O Jovem Poeta e a Carapuça
Heitor Ferraz 9
Cantando a Uma Só Voz
Walter Garcia 11
Documentário Brasileiro:uma Aproximação
Cláudia Mesquita 15
Teatrada
Brecht/ Brasil/ 1997
José Antonio Pasta Jr. 20
Meu Amigo Brecht...
Fernando Peixoto 23
Brecht: Aproximações e Distanciamentos
Márcio Aurélio 26
Aspectos da Representação Brechtiana
Sérgio de Carvalho 28
Memória
O primeiro Ensaio de Brecht em Berlim
Egon Monk 33
Livros
Kil Abreu 36
A Companhia do
Latão
Primeiros Movimentos
Márcio Marciano 38
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VINTÉM #1
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Editorial.
O primeiro número de Vintém
coincide com o centenário de nascimento de
Brecht. No ano em que o mundo reavalia sua obra, procuramos
registrar a reflexão de alguns artistas e intelectuais
representativos da continuidade do pensamento brechtiano.
O diretor Mathias Langhoff, colaborador do Berliner
Ensemble no inicio dos anos 60, é hoje um dos
encenadores que melhor compreende o potencial critico
do teatro, ao revelar a materialidade da cena a partir
da perspectiva de sua impermanência. Quando
refuta a atual orientação do grupo fundado
por Brecht, parece corresponder as inquientações
despertadas pela passagem do espetáculo A resistivel
ascensão de Arturo Ui pelo Brasil, repercutida
no dossiê desta edição.
A seção Memória presta homenagem
à obra de dois homens de teatro de origem italiana.
Giorgio Strehler, morto no final do ano passado, um
dos grandes encenadores modernos, é apresentado
em texto de Bernard Dort, inédito em português,
reproduzido do dicionário de Michel Corvin.
O outro, Ruggero Jacobbi, diretor e crítico
admirável, é lembrado num artigo de
Fernando Peixoto, ilustrado por um texto em que Jacobbi,
em 1959, antevê as dificuldades da entrada de
Brecht no teatro brasileiro.
Vintém publica ainda, na seção
Documento, aquela que talvez seja a mais importante
reflexão sobre a atualidade de Brecht feita
por ocasião das comemorações
de seu centenário: a conferência do crítico
Roberto Schwarz, realizada após a leitura de
Santa Joana dos Matadouros pela Companhia do Latão,
na qual dimensiona de modo dialético o desafio
de tornar eficaz uma arte crítica da sociedade
contemporânea.
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Índice
Cartas
2
Entrevista
Mathias Langhoff 3
Teledramaturgia
Ilusões Mexicanas
Bosco Brasil 9
Teatrada
Realismo americano e dramaturgia brasileira
Maria Silvia Betti 15
Quem tem medo do realismo?
Depoimento de José Celso Martinez Corrêa
18
Dossiê
Teatro e política em tempos de crise
Fernando César Kinas 22
"Escrever sobre Brecht significa para mim
tirar de um amontoado de lembranças alguma
coisa"
Márcio Aurélio 25
Documento
A atualidade de Brecht
Roberto Schwarz 29
Memória
Ruggero Jacobbi, aqui, hoje
Fernando Peixoto 38
Sobre um texto de Brecht
Ruggero Jacobbi 41
Giorgio Strehler
Bernard Dort 42
Livros
Kil Abreu 45
A Companhia do Latão
Ensaio sobre o Latão: um quadro histórico
Márcio Marciano 49
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VINTÉM #2
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Editorial
A separação entre o espetáculo
e o texto dramático faz pouco sentido no teatro
contemporâneo. A peça literária,
quando escrita no gabinete, tende a estar descompassada
das exigências da cena atual, e o teatralismo
absoluto, por outro lado, ao ignorar o problema da
escrita cênica, tende a uma relação
superficial com seu tempo histórico.
A dramaturgia, neste quadro, se apresenta de novo
como problema de base do fenômeno teatral: agora
tomada em sua relação direta com o palco.
É nessa direção que Vintém
discute possíveis caminhos para a formação
de um modelo dramatúrgico que sirva ao teatro
brasileiro atual.
A conversa com Ariano Suassuna, um dos grandes dramaturgos
em atividade no país, descreve uma escrita
nascida do confronto entre as matrizes dramáticas
do renascimento e do barroco ibérico, com os
temas da cultura popular brasileira, tal como enunciados
na poesia oral da literatura de cordel. Seu exemplo
de retomada do parâmetro clássico é
bem diverso, por exemplo, da proposta pedagógica
análoga de Luis Alberto de Abreu, que faz uso
de uma original tipologia mítica para a geração
das histórias.
Em sua visão, que tem se revelado um excelente
método de formação de jovens
dramaturgos, o caráter precede a ação,
numa inversão da hierarquia aristotélica,
em que a boa ordenação do mito é
poeticamente superior à configuração
das personagens. O mesmo diálogo com Aristóteles
aparece na reflexão sobre o ofício de
ensinar dramaturgia (e a tarefa de aprender) feita
pela poetisa e autora Renata Pallottini.
Na seção dedicada à escrita para
o cinema e televisão, o depoimento de Rodrigo
Lacerda e o de Jean-Claude Bernardet indicam preocupações
semelhantes, amplificadas pela questão das
expectativas de aceitação mercadológica,
que delimitam o espaço de atuação
do roteirista, bem como a da necessidade de superar
o condicionamento da imaginação a certos
padrões identificatórios.
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Índice
Entrevista
Ariano Suassuna 2
Aprendizado do Roteiro
Uma experiência na oficina de roteiro na Globo
Rodrigo Lacerda 9
Para uma dramaturgia radical
Entrevista com Jean-Claude Bernardet 13
Aprendizado do texto teatral
Ensinar talvez seja isto
Renata Pallottini 20
Eppur si muovel
Luís Alberto de Abreu 26
Dramaturgismo
A escrita cênica de Nélson Rodrigues:
modelo e invenção
Beti Rabetti 32
Memória
García Lorca: o fogo romperá as portas
Kil Abreu 38
A tragédia do instinto
Entrevista a Ricardo Luengo (1935) 41
Livros 44
A Companhia do Latão
Propostas brechtianas para um teatro no centro de
São Paulo
Sérgio de Carvalho 45
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VINTÉM #3
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Editorial
Este número dá início
a uma nova fase da revista Vintém: abrigada
agora pela Editora Hedra, com uma reformulação
do projeto gráfico e seu subtítulo alterado
para "teatro e cultura brasileira".
A mudança não implica abandono da vontade
original de discutir perspectivas do teatro dialético.
Acompanhando as transformações da Companhia
do Latão, a orientação dialética
do trabalho ganha maior concretude ao priorizar o
Brasil como assunto fundamental.
Assim, Vintém abre espaço para novas
seções. A cada número, a revista
trará entrevistas ou ensaios ligados à
reflexão política sobre problemas brasileiros.
Nesta edição inaugural, o sociólogo
Francisco de Oliveira nos dá elementos para
compreender o processo de destruição
simbólica do indivíduo que vem sendo
levado adiante pela política econômica
neoliberal do governo Fernando Henrique Cardoso.
Na intenção de estimular o debate sobre
o pensamento teatral no Brasil, a revista publica
uma entrevista com a professora Iná Camargo
Costa, uma das poucas vozes à esquerda em nosso
ensaísmo teatral, e com certeza a mais atuante
delas, como se pode ver também em seu estudo(escrito
em colaboração com José Fernando
de Azevedo) sobre duas historiografias do teatro brasileiro.
O artigo sobre o diretor e ator João das Neves,
feito por Cláudio Mesquita, bem como a homenagem
dos editores ao grande teatrólogo Hermilo Borba
Filho, direcionam Vintém para a reflexão
conseqüente sobre temas que não costumam
fazer parte das referências habituais da imprensa
cultural. Por suas escolhas de assunto, Vintém
se posiciona com independência diante das exigências
de circulação impostas pela economia
de mercado. Por seu aberto posicionamento de esquerda,
Vintém se distancia da média das publicações
academias. Seu maior compromisso é com a história
viva do trabalho teatral no Brasil.
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Índice
Pensamento político
entrevista com Francisco de Oliveira 04
Teatro Brasileiro
entrevista com Iná Camargo Costa 12
Teatro do Mundo
depoimento de Yoshi Oida 19
Modo de produção
teatro documentário de João das Neves
por Cláudia Mesquita 22
Memória
Hermilo Borba Filho 25
Ensaio
Duas histórias do teatro Brasileiro
por Iná Camargo Costa e José Fernando
de Azevedo 29
Livros
lançamento de obras teatrais 38
Companhia do Latão
oficinas dos diretores alemães Peter Palitzsch
e Alexander Stillmark
Manifesto
arte contra a barbárie 46
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VINTÉM #4
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Editorial
Quase toda feita de entrevistas e conversas, esta
edição de Vintém marca uma fase
em que a revista passa a ser editada exclusivamente
pela Companhia do Latão, dando corpo a um projeto
que recebe o nome de "Edições do
Latão". De novo reformulada do ponto de
vista gráfico e editorial, a publicação
assume sua vocação política sem
abandonar a intenção inicial de debater,
em perspectiva dialética, caminhos para a produção
artística brasileira contemporânea.
Com este intuito, importantes temas são levantados
nas seções Pensamento Político
e Economia Política, em depoimento que abrem
espaço para a compreensão de alguns
problemas cruciais da realidade social do Brasil hoje.
O cientista social Fernando Haddad chama a atenção
para uma nova oportunidade da esquerda dentro do atual
embate das forças econômicas e políticas,
e estabelece novos princípios para uma necessária
redefinição do conceito de classes sociais.
O depoimento do economista José Luís
Fiori nos permite compreender os antecedentes históricos
da opção conservadora do governo FHC,
esclarecendo por que o país chegou ã
situação atual de miséria física,
moral e política. E a entrevista do crítico
literário José Antônio Pasta Jr.
examina as contraditórias relações
entre arte brasileira e matéria social, através
de uma inovadora tese sobre o processo de "formação
supressiva do sujeito brasileiro, por meio do qual
o aniquilamento da voz do "outro" e o esmagamento
do juízo autônomo se tornam procedimentos
recorrentes. dialogando à distância com
esta entrevista, a seção Memória
apresenta um depoimento histórico de um dos
maiores críticos de teatro e literatura que
este país conheceu, o alemão Anatol
Rosenfeld.
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Índice
Editorial 2
Entrevista
José Antônio Pasta Jr. 4
Pensamento Político
Uma oportunidade para a esquerda
Fernando Haddad 14
Economia Política
O momento totalitário
José Luís Fiori 21
Palhaçada
O palhaço de cada época
Ermíria Silva 26
A formação do palhaço Picolino
Roger Avanzi 30
Memória
Depoimento de Anatol Rosenfeld 33
Livros
O método Brecht, de Fredric Jameson
Maria Tendlau 41
Aprendizado Teatral
A dramaturgia de Sinisterra
Márcio Marciano 45
Companhia do Latáo
Do riso no mundo selvagem
Fernando Peixoto 52
Companhia do Latão vai além da questão
ética
Mariângela Alves de Lima 54
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VINTÉM #5
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Índice
Um inédito de Paulo Lins 3
Entrevista com Vinícius Dantas: A crítica
como intervenção 10
Mídia e poder
Raimundo Pereira: o jornalismo como instituição
burguesa 19
Mino Carta: os sabujos da imprensa brasileira 20
Eugênio Bucci: o capitalismo da produção
da imagem 22
Dossiê Heiner Müller
Entrevista com Heiner Müller: Necrofilia é
amor ao futuro 25
Entrevista com Heiner Müller: Para sempre em
Hollywood 37
Conversa com Hans-Thies Lehmann: No coração
das trevas 44
Hans-Thies Lehmann e Uta Atzpodien: E (quem são)
os nossos mortos? 47
Wolfgang Storch: Carta a Sérgio de Carvalho
49
Sérgio de Carvalho: Apontamentos sobre Müller
55
Companhia do Latão
Mariângela Alves de Lima:
Latão cria inquientante jogo de desilusão
56
Hélio Ponciano: A dialética do fetichismo
58
João Carlos da Fonseca: O mercado do gozo 59
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VINTÉM
#6
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Editorial
Quase dois anos depois, a Vintém volta a ser
editada, como espaço fundamental de divulgação
dos estudos sobre teatro dialético que definem
a Companhia do Latão desde sua origem. Os materiais
aqui reunidos traduzem diversos aspectos de uma prática
artística que se alimenta da reflexão
sobre a história produzida dentro do Projeto
Companhia do Latão 10 anos e também
de outras frentes de trabalho: a pesquisa de formas
cinematográficas e videográficas de
representação épica, o intercâmbio
com outros grupos interessados na obra de Brecht como
modelo crítico (o que ocorreu na montagem de
O Círculo de Giz Caucasiano) e com intelectuais
interessados no marxismo como método de ação
e pensamento.
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Índice
Editorial 2
IMPULSOS CRÍTICOS DO CINEMA MODERNO
Entrevista com Ismail Xavier 4
FORMAS DA CRISE CAPITALISTA
Entrevista com Jorge Grespan 16
O TEATRO FORA DO CENTRO
Por Marília Carbonari 24
Dossiê: Brecht Diretor
Particularidades do Berliner Ensemble, Bertolt Brecht
30
A atitude do diretor, Bertolt Brecht 31
A direção de Brecht, por colaboradores
do Berliner Ensemble 33
Notas de ensaio no Berliner Ensemble 36
Discussão com Brecht sobre O Círculo
de Giz Caucasiano 37
Trabalho de Peter Palitzsch com a Companhia do Latão
41
Companhia do Latão
Visões Siamesas: uma dramaturgia do limite,
por Márcio Marciano 44
Companhia do Latão ganha ao unir Machado e
Brecht, por Mariângela Alves de Lima 47
O projeto Companhia do Latão 10 anos 50
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Revista "Vintém"
discute rumos do teatro
Por Antonio Gonçalves Filho,
O Estado de São Paulo,11 de fevereiro de 1998
Como montar Brecht numa sociedade que
rejeitou o socialismo e adotou como sinônimo
de experimentalismo o jogo de moedas nas bolsas de
valores? Como conciliar os interesses capitalistas
do novo Berliner Ensemble com a tradição
do teatro brechtiano? São perguntas difíceis
que o primeiro número de Vintém pretende
responder com a ajuda do professor e crítico
Roberto Schwarz e do diretor alemão Mathias
Langhoff, dois grandes nomes reunidos pelos editores
da revista teatral que será lançada
hoje, às 19 horas, no Teatro de Arena Eugênio
Kusnet (Rua Teodoro Baima, 94, 256-9463).
Idealizada pelo crítico e diretor teatral Sérgio
de Carvalho, Vintém surge como uma opção
inteligente para o vazio ensaístico sobre os
rumos do teatro contemporâneo, um espaço
de reflexão sobre os modos de produção
e a obra de dramaturgos, diretores e atores.
Ao lado de artigos assinados por encenadores brechtianos
sobre o teatro dialético, comemorando o centenário
de nascimento do autor, o primeiro número de
Vintém traz um sincero depoimento do diretor
José Celso Martinez Corrêa sobre o realismo,
no qual critica a infantilização do
palco brasileiro.
Do teatro "sala de visitas" criticado por
José Celso a um dossiê sobre o Berliner
Ensemble por dois especialistas em Brecht (os diretores
Fernando Kinas e Márcio Aurélio), a
revista reserva espaço para dois grandes encenadores
mortos, o veneziano Ruggero Jacobbi (1920-1981), que
contribuiu para a modernização do teatro
brasileiro, e Giorgio Strehler (1921-1997), o criador
do Piccolo Teatro di Milano, um dia definido por Brecht
como o perfeito tradutor de suas idéias na
Itália.
Entre os artigos publicados por Vintém, o do
crítico literário Roberto Schwarz sobre
a atualidade de Brecht é o mais impressionante.
Reprodução integral de uma palestra
realizada em julho, após uma leitura da peça
Santa Joana dos Matadouros, o artigo tenta sugerir
que a técnica de distanciamento, adotada por
Schwarz como a síntese do universo de Brecht,
"tinha como coordenada uma sociedade tradicional".
Para ele, é impossível encenar Brecht,
hoje, sem considerar as profundas mudanças
provocadas pela queda do mundo socialista. Não
basta ao ator rejeitar a ordem burguesa para inventar
uma nova ordem, segundo Schwarz. O gesto de distanciamento,
que para a geração do crítico
era suficiente, carece de sentido para a nova geração.
Artigo polêmico - Polêmico, Schwarz diz
que um grupo brechtiano tradicional só reafirma
verdades "que servem para o grupo não
se dissolver, mas não têm nada mais a
ver com a experiência da sociedade contemporânea".
Colocando mais lenha na fogueira, ele conclui o artigo
definindo o epílogo de Santa Joana dos Matadouros
como manifestação poética de
caráter espiritual, invertida e transformada
em discurso político por força de uma
perversão de Brecht. Um ato de coragem de um
homem de esquerda que ama Brecht.
A revista Vintém é publicada pela Editora
Hucitec. Os pedidos podem ser feitos pelo telefone
(011) 240-9318 ou pelo fax (011) 530-5938, por intermédio
de Jota Rodrigues. O contato editorial da revista
é seu diretor Sérgio de Carvalho: telefone
(011) 3662-2702. O preço do exemplar, que tem
56 páginas, é R$ 5,00.
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APRESENTAÇÃO
DO CADERNO
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De janeiro a julho de 2000,
em paralelo à montagem de A Comédia
do Trabalho, os integrantes da Companhia do Latão
coordenaram uma série de oficinas dentro do
projeto Residência Artística da Oficina
Cultural Oswald de Andrade, da Secretaria de Estado
da Cultura. Muito mais do que alunos de um processo
pedagógico, os participantes das oficinas colaboraram
trazendo idéias e discutindo a criação
deste novo espetáculo.
Para isso, os coordenadores das oficinas estimularam
os seus participantes a criar propostas de cenas,
levantar material de pesquisa, participar das discussões
sobre a escrita da dramaturgia.
No processo de criação da Companhia
do Latão as cenas surgem da improvisação
dos atores, de sugestões cenográficas
e de iluminação, assim como, do material
das pesquisas, das observações de rua
e entrevistas realizadas pelo grupo. A idéia
é que, durante o processo, nenhum dos componentes
da Companhia se restrinja a uma especialidade, e sim
participe do conjunto da montagem.
Em algumas oficinas, os participantes trabalharam
de maneira direta, participando do planejamento de
cenários e figurinos, discutindo a elaboração
da luz, recolhendo material em vídeo nas ruas
de São Paulo. Um dos resultados da Oficina
de Vídeo-documentário é a produção
de um documentário crítico sobre este
estudo do tema do trabalho. Este caderno de Apontamentos,
por exemplo, é resultado do trabalho da Oficina
de Teoria Crítica, que também organizou
debates e palestras no decorrer desses meses.
A oficina de trabalho de ator e a de direção
além de contribuir no processo da Comédia
do Trabalho, geraram um material que ganhou autonomia.
Foram cenas de intervenção política
direta, que abriram uma nova frente de atuação
da Companhia do Latão. Uma delas foi apresentada
na exposição de fotografias Êxodos,
de Sebastião Salgado, retratando a morte de
um integrante do MST no estado do Paraná. Esta
cena chegou a ser apresentada no Encontro de Movimentos
Populares e na Faculdade de Filosofia da USP. Uma
outra cena, também elaborada em conjunto com
os diretores da Companhia, foi apresentada no acampamento
do MST, em Rio Bonito do Iguaçu, Paraná,
e discutia a construção de uma cidade
modelo, trabalho feito a convite do escritório
de arquitetura Usina.
Não apenas um documento sobre o processo, este
Caderno de Apontamentos é a concretização
de discussões e debates acontecidos na construção
radicalmente coletiva de A Comédia do Trabalho.
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APONTAMENTOS
DA SALA DE ENSAIO
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| PROCESSO
DE APRENDIZADO
MARIA - A Companhia do Latão se mantém
como grupo porque tem um projeto. O trabalho vai
para frente porque olha numa perspectiva maior que
a do espetáculo. Dentro da sala de ensaios
existe também um caráter pedagógico,
para nós e para as pessoas que acompanham
o processo. Cada vez que fazemos um trabalho, aprendemos
certos assuntos, afinamos um olhar sobre a realidade.
OPÇÃO PELO CÔMICO
SÉRGIO - Nossa intenção
em A Comédia do Trabalho era um espetáculo
que tivesse um ponto de vista popular. Isso pode
ser um ponto de partida perigoso por evocar o populismo
da facilitação das coisas, do barateamento
das questões. Ou pode sugerir também
aquela vontade esforçada de se aproximar
do povo que é típica de uma burguesia
mais progressista, mas que ainda está presa
ao padrão paternalista do viajante endinheirado
que objetualiza com simpatia as formas populares.
Sem ilusões quanto a isso, nossa vontade
era antes de tudo técnica, no sentido de
um diálogo mais direto com públicos
não acostumados ao teatro, e de poder realizar
apresentações em qualquer espaço.
E só conseguiríamos alguma precisão
nessa "popularização" da
narrativa se ela proviesse da nossa experiência
pessoal com a sociabilidade das relações
de trabalho. Decidimos por um estudo de comédia
para caminharmos para o lado contrário dos
nossos antigos trabalhos. Precisávamos romper
com toda expectativa aurática ainda importante
na avaliação dos nossos outros espetáculos,
ainda sustentados pelo halo de coisa bem-feita,
de obra espiritual, belas no sentido sacro do termo.
Foi por isso que escolhemos um gênero pobre,
a comédia. E mais miserável ainda
quando tende para a farsa. As pessoas até
hoje tem preconceito com esse gênero considerado
menor. Algumas pessoas vieram nos alertar para os
riscos da tradição cômica, no
mais das vezes conservadora, acostumada a moralismos
preconceituosos com grupos que não tem força
social que os proteja contra a coisificação.
Mas mesmo esses alertas continham um preconceito
estético contra o mau gosto. A atitude cômica
não é conservadora em si, pelo contrário,
é altamente reflexiva e está ligada
ao pensamento bruto, pensamento pesado. São
certas cristalizações dessa atitude
que se tornaram conservadoras. As formas populares
nunca estão desacompanhadas de comicidade.
DRAMATURGIA NA SALA DE ENSAIO
MÁRCIO - Os atores já têm
uma certa experiência em pensar a cena com
suporte dramatúrgico. Isso facilita o nosso
trabalho de condução da dramaturgia
em processo. Em um primeiro momento, quando ainda
se estão estabelecendo as linhas gerais da
fábula, com base nos conteúdos que
queremos discutir na cena, o papel do encenador
não se distingue do papel do dramaturgo.
Temos a incumbência de observar de fora a
matéria gerada na sala de ensaios e dar a
ela uma organização mínima.
A partir daí, sugerimos certas orientações
que são postas a prova pelos atores no trabalho
de improvisação. Em O Nome do Sujeito,
a encenação ficou muito colada à
dramaturgia, porque o processo de criação
dramatúrgica foi longo. Com a Comédia
do Trabalho, foi diferente. Procuramos estabelecer
uma primeira versão do texto com um mínimo
de antecedência em relação à
estréia, para termos tempo de atuar como
encenadores com autonomia diante da matéria
dramatúrgica. Como trabalhamos com a perspectiva
de formação, cada novo trabalho guarda
semelhança com os anteriores, porque os procedimentos
são os mesmos. A diferença é
que hoje temos mais consciência deles. No
início era algo intuitivo, havia apostas
e trabalhávamos com tentativa e erro. A reflexão
sobre esses procedimentos nos permitiu a radicalização
do espetáculo, não só do ponto
de vista formal, mas, principalmente, do ponto de
vista do conteúdo. Os temas que escolhemos
estão ligados às nossas necessidades
no momento. Decidimos estudar a questão do
trabalho porque está na ordem do dia. A complexidade
do assunto fez com que retomássemos assuntos
anteriores, principalmente, no que se refere à
dialética e ao marxismo. Isso se reflete
na dramaturgia. O dado novo foi abrir o processo,
desde o início, por conta das oficinas .
O que colocou a experiência em outro patamar.
O trabalho com vários núcleos impôs,
além da reflexão sobre os procedimentos
da construção da dramaturgia, a necessidade
de um discurso preciso que possibilitasse a prática
de uma pedagogia. Isso não quer dizer que
não existam pontos de vista diferentes e
contradições que mantêm o trabalho
em movimento. Hoje temos uma coisa que não
tínhamos tempos atrás que é
o reconhecimento de uma experiência coletiva.
A partir da negação sistemática
da especialização que gera a alienação
do artista, o grupo conseguiu dotar os atores, os
diretores, os artistas reunidos no processo de um
critério e de uma autonomia estética
determinantes no que a Companhia está apresentando
hoje. Esta autonomia, esta apropriação
traduz na prática este conceito de trabalho
não personalizado, não individualizado.
O que não impede que cada um reconheça,
no todo, sua autoria. O projeto artístico
é coletivo.
MEDINA - A dramaturgia é constituída
aos poucos. A cenografia entra nesse processo propondo
elementos aos atores. O que eu acho bom é
que quando você propõe um objeto, os
atores e diretores sabem usá-lo inteligentemente,
transformá-lo, tirar som, brincar com ele.
MARIA - O que difere o nosso trabalho de
improvisação do trabalho feito em
outros grupos é que nós temos uma
ação mais clara dentro da dramaturgia,
a improvisação é voltada para
a elaboração dramatúrgica .
Lógico que a construção cênica
das personagens aparece com isso, mas nunca construímos
uma personagem antes de traçar um caminho
que depende do todo.
ALESSANDRA - É um processo em que
o ator escreve mesmo, quer dizer, são improvisos
em que tentamos dar uma base dramatúrgica
precisa para os outros atores. Eu acho que acaba
gerando um resultado interessante. Tanto é
que muito dos textos foram aproveitados para essa
versão de agora, mesmo modificados.
HEITOR - Mesmo sem a dramaturgia no papel,
nós já tínhamos o sentido de
cada personagem, a atmosfera já havia sido
capturada, estava na mão dos atores desde
as discussões. O resultado dessas improvisações,
no entanto, é sempre uma surpresa.
ADRIANA - Escrevíamos muito nos ensaios.
Para mim, que sou nova no grupo, foi um treino imenso.
Eu pedia socorro o tempo todo, principalmente nessa
questão da dialética, de você
trazer contradições para uma cena.
SÉRGIO - Escrevemos o texto durante
os ensaios, sem certeza de onde a história
ia dar. Experimentamos no início com situações,
hipóteses de narrativa, ações
isoladas. A principal dificuldade de condução
deste processo é fazer com que as pessoas
raciocinem no mesmo sentido, fazer com que o coletivo
avance em bloco, que o grupo pense conjuntamente
nos problemas e tente imaginar soluções
a partir de premissas comuns. Quando você
consegue deixar claro o problema comum, qual assunto
está em jogo, o que nem sempre é fácil,
as coisas começam a andar. Numa etapa seguinte,
conforme os atores geram material cênico,
imagens que podem dar numa peça, é
preciso rediscutir os novos caminhos. Nós
como diretores não pegamos as ações
geradas pelos atores e manipulamos de fora, até
chegar a uma montagem. Nós procuramos só
deixar claro o ponto de vista pelo qual os atores
podem observar o seu próprio trabalho, para
que eles mesmos continuem como sujeitos da cena
sem dispersão ou desvio de propósitos.
Seria o fim da picada um espetáculo que critica
a alienação do trabalho ter sido ensaiado
com qualquer espécie de alienação.
E uma das nossas principais conquistas como grupo
me parece ser essa: o conhecimento de causa do grupo
sobre o sentido da história que está
sendo contada. Todos sabem a origem de cada palavra
no texto, de cada imagem, do porquê da proposta
de um tema. Mas esse tipo de dramaturgia em processo
só é possível com um grupo
de atores que raciocine de modo semelhante do ponto
de vista metodológico. Me refiro a um jeito
de olhar os acontecimento sob a perspectiva dialética.
Este processo funciona muito melhor com atores versados,
ou pelo menos dispostos a pensar a contrapelo, a
olhar na contra-mão, a enunciar pelo reverso.
Nas situações reais da vida, raras
vezes a expressão corresponde à vontade
interior. Para usar uma idéia de Stanislavski,
a dramaticidade da vida é feita de ações
transversas, em que há distância e
às vezes oposição entre intenção
e gesto. No improviso teatral, contudo, existe uma
tendência à revelação
dos desejos, à má explicitação
dos objetivos. É um treinamento do bom teatro
realista aprender a agir pelo ocultamento e não
pelo desvelamento. Mas esta dialética da
ação realista é um primeiro
passo que se dá no plano do indivíduo.
O segundo passo, que corresponde a uma questão
poética de superação do dramático
pelo épico, é considerar que entre
indivíduos que atuam de modo transversal
existem também padrões sociais de
relações transversais. As vontades
individuais também se ligam a causas sociais
mais amplas e visões de classe que muitas
vezes não se mostram como tal. Cabe à
cena épica mostrar esses vínculos
pelo qual o destino individual se liga a destinos
coletivos. Outra questão a considerar neste
tipo de processo é a de que toda cena contém
- por mais imparcial que pareça - um ponto
de vista valorativo, ainda que não seja o
único (as boas cenas contém uma ambigüidade
fundamental, se contradizem internamente, contrapõem
imagem e discurso etc.). O fato é que nenhuma
representação é neutra. A forma
escolhida já contém juízos.
E por que é importante discutir isso? Para
que nós procuremos trabalhar realmente com
o ponto de vista - vou usar outro termo antigo -
mais "progressista" da história.
Porque no fundo a questão da escolha formal
é política.
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IMPROVISAÇÃO
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NEY - Conseguimos estabelecer, ao longo
dos quatro anos de Companhia, um modo de construção
dialética das personagens. Um exemplo disso
é a personagem do chefe de polícia.
Quando se começou a improvisar esta personagem,
as meninas improvisavam aquela figura autoritária
que dá as regras convencionais etc. Para
mim, a mensagem seria mais forte se a personagem
dissesse coisas coerentes, falasse em direitos humanos
e direitos civis, mas, internamente, se contradissesse.
Então, a grande clareza de construção
de personagem, de cena também, foi isso:
pensar dialeticamente. Verbalizar o contrário
da ação cênica. Talvez por saber,
antecipadamente, que iríamos fazer este espetáculo
ao ar livre, em circos, ginásios, preocupou-me
muito a forma escancarada, direta. Qualquer exercício
que caísse no psicologismo, eu rechaçava.
Pra mim, tinha que ter uma forma mais grandiloqüente,
nunca contida, pequena. Noventa por cento das coisas
que você faz são jogadas fora. Ao invés
de fazermos um exercício de construção
do personagem, de pesquisarmos a sua gênese,
onde ela nasceu, qual a cor da parede da sua casa,
como ela anda, como ela se veste, quem são
seus pais, qual seu universo social, nós
temos que criar situações para a personagem.
Ao criar estas situações, varremos
o seu universo. Os diretores insistiram muito nos
conceitos de trabalho do ator relativos à
narrativa, clareza, ação transversa,
pensar dialeticamente. Todos na Companhia do Latão
aprendem a partilhar de um mesmo princípio
de trabalho.
MARIA - O treino diário de improvisação
é muito importante. Pois não se treina
só a disponibilidade, mas, também,
o exercício do olhar. Primeiro, nos acostumamos
com a idéia de improvisar em cima de ações
e não de sentimentos, o que é difícil,
afinal, os atores estão habituados a fazer
drama. Em seguida, tentamos fazer com que essa ação
seja dialética, isto é, tenha uma
contrapartida. Em terceiro, elaboramos uma cena
que, como um todo, tenha um ponto de vista acentuado
ou mais de um. Conscientes, no entanto, de quando
estamos apontando estes pontos de vista. Por fim,
buscamos uma cena que abra um flanco para a continuação
do improviso. Todo mundo deve jogar no mesmo time.
Às vezes, você quer realizar uma idéia
e a outra pessoa quer outra. Isso requer um treino
entre as pessoas que estão improvisando.
Mas é difícil, já que ainda
trabalhamos com elaboração da dramaturgia.
Tem de existir uma disponibilidade para abrir mão
de suas idéias em favor do coletivo.
ADRIANA - O Sérgio e o Márcio
no começo desse processo funcionavam como
um filtro, assistindo, anotando e deixando os atores
colocarem tudo ali. Uma idéia que surgia
era acompanhada de uma necessidade de executá-la.
Mesmo que ficasse uma droga, havia essa necessidade.
O desenvolvimento de cenas é uma questão
de treino da musculatura criativa, você vai
desenvolvendo, com o aprendizado das improvisações.
HEITOR - Nós sempre tivemos uma noção
do todo no decorrer de cada fase de ensaios do espetáculo.
Mesmo sem a estrutura dramatúrgica definida,
havia a noção de um todo. Sempre que
fazíamos uma cena de improviso, sabíamos
do que e para quê estávamos falando.
SÉRGIO - A discussão conceitual
ocorre em um primeiro momento dos improvisos. Depois,
vem a hora de outro registro mental, o da imaginação,
o da produção de imagens. A teorização
pode ser paralisante se ela não se der na
perspectiva do produtor.
ALESSANDRA - O fato de ser uma comediona
faz com que façamos coisas absurdas. Temos
que esquecer o superego. Ficamos muito tempo na
questão formal de como representar os gêmeos:
se seria com dois atores ou não. Nessa época,
a Adriana trouxe a história de uma concordata,
e começamos a fazer cenas em que tudo se
baseava em fatos reais: os empregados da firma que
se juntavam e ofereciam o FGTS para salvar a empresa,
os empregados que se juntavam para reclamar e o
patrão dava um saco de arroz e feijão,
etc. Os diálogos com os alunos da oficina
foi importante para os atores. Porque eles também
realizavam cenas ligadas ao tema do trabalho, e
assim nós tínhamos um espelhamento.
Sobre o modo de criação de cenas,
no começo existiram dois processos: no primeiro
os diretores sugeriam um tema e nós nos juntávamos
para fazer uma cena coletiva. Depois, buscou-se
um outro sistema: cada ator, a partir de uma fonte
ou sugestão, elaborava uma cena sozinho e
depois ensaiava com as outras pessoas, que acabavam
interferindo, dando palpite e modificando a cena,
mas a partir de uma base mais concreta.
MÁRCIO - Queríamos representar
forças coletivas e, ao mesmo tempo, destinos
individuais. Durante muito tempo, isto foi discutido
na sala de ensaio com os atores. É evidente
que, a opção pelo gênero cômico
faz com que, nas improvisações, apareça
o tipo em primeiro lugar. O tipo tem certa autonomia
em relação à história,
ele se define por uma mecanização
do comportamento, pela repetição de
uma obsessão. Isto facilitou o trabalho de
improvisação dos atores porque eles
não precisavam ter tanta clareza sobre a
trajetória destas personagens. O problema
surgia quando queríamos dar conta do destino
individual, representar o indivíduo no recorte
desta tipificação. Era difícil
dar credibilidade a estas trajetórias. Por
outro lado, trabalhar com o gênero cômico
tornou tudo muito mais despojado. Isto deu aos atores
autonomia para buscar soluções sem
compromisso durante o processo de improvisação.
Se o ator precisava fazer duas personagens ao mesmo
tempo, fazia sem o menor constrangimento porque
até o gênero cômico e a narrativa
épica permitem isso. Desde os primeiros ensaios,
os atores evitavam improvisar num registro naturalista.
Dificilmente, viam-se cenas com começo, meio
e fim de uma situação cotidiana. Os
atores improvisavam fazendo o recorte do que era
realmente necessário, eliminando as arestas
do que é circunstancial, com o cuidado de
amplificar a forma.
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MEDINA - Devido à necessidade das
trocas serem muito rápidas, os adereços
é que dão o código das personagens.
Isso determinou, no figurino, muitos bolsos, zíperes,
aberturas, enfim diferentes possibilidades para
o ator ter uma base de trabalhador e conter todos
as outras personagens nele mesmo.
ALESSANDRA - Desde o começo, estabelecemos
que trabalharíamos com tipos. Eu, particularmente,
resolvi carregar muito na tinta desses tipos para
poder diferenciar, porque eu teria que fazer muitas
personagens e depois, se fosse necessário,
humanizaria, tiraria os exageros.
ADRIANA - No início das montagens,
cada um foi para área que tinha proximidade.
Fomos para a rua, entrevistamos pessoas, pesquisamos
em livros e jornais e assistimos ao material gerado
pela oficina de vídeo-documentário.
As personagens nasceram dessa pesquisa.
HEITOR - Eu fui para rua, fiz uma observação
no Largo 13 de Maio, para ver como aquilo funciona,
ver aquela realidade que é diferente para
mim. Lá, você vê o sujeito trabalhando,
as relações de trabalho acontecendo,
o patronato no cotidiano das pessoas. Eu levei máquina
fotográfica, gravador para tentar registrar.
Essa observação ficou, ela veio para
as cenas. Outra que eu fui fazer, uma pesquisinha
minha, é que eu fui tentar o emprego de engenheiro
civil --eu sou formado em engenharia-- para rever
como é essa experiência de procurar
um emprego.
MARIA - A Liu-Liu é uma mistura de
um monte de coisas. Principalmente das idéias
idiotas do Domenico de Masi. Estávamos tão
voltados para a elaboração dramatúrgica
que a construção dela ficou atrelada
à própria dramaturgia. Isso é
interessante, pois se trata do trabalho épico
e da composição do gestus, que são
as ações das personagens, mais importantes
no contexto geral do que no delas próprias.
NEY - Em relação às
personagens dos proprietários, havia no começo
uma dificuldade vocabular muito grande. Quando íamos
improvisar, faltava vocabulário. Falava-se
em reengenharia , em terceirização
genericamente, não sabíamos quais
eram as matrizes desses termos. Desde a entrevista
com o João Sayad, depois com o Bresser, com
o Haddad e com o material bibliográfico sobre
gerenciamento, começou a aparecer um vocabulário
mais concreto. A entrevista com meu irmão,
que também é empresário, foi
muito importante. Nós estávamos construindo
uma cena um dia, e eu resgatei todo o vocabulário
desta entrevista: "não produzir, apenas
intermediar, terceirizar, sejamos futuristas, sejamos
vanguardistas, o próximo passo é ser
virtual não ter patrimônio físico".
No caso das personagens populares, a tendência
dos atores é fazer clichê. Nós
fazemos personagens da classe alta e da classe média,
mas quando é de classe baixa, não
sabemos fazer. Fazemos uma coisa estereotipada,
falsa, que o público não aceita. Por
isso, foi importante a captação direta
que tivemos no material da Oficina de Vídeo
e nas nossas observações de rua. Uma
personagem quando ela quer alguma coisa, ela não
vai dizer o que quer, talvez ela vá dizer
o contrário. Mas a forma como ela está
dizendo explicitará o que ela deseja.
SÉRGIO - Nosso maior problema foi
com as personagens dos trabalhadores e dos excluídos.
Isso já ocorreu nos outros espetáculos
porque a dificuldade das representações
de forças populares não é só
do palco, mas da sociedade atual. Pelo menos conseguimos
pôr em cena a discussão sobre o antagonismo
de classes de uma forma realista em relação
aos dias de hoje. Não é a forma clássica
do operariado contra os capitalistas, mas conseguimos
não ser negativistas nem mistificadores,
sem deixar de mostrar nossa convicção
numa potência revolucionária ainda
existente no conflito entre ricos e pobres. É
no que se refere à formalização
cênica disso que essa peça é
avançada na história da Companhia
do Latão e nos joga para a frente. Um outro
plano importante é a das personagens-atores.
De novo assumimos no prólogo e em diversos
apartes que tudo não passa de teatro, porque
o que interessa está para além do
teatro. Isso foi feito para afastar qualquer chance
de confusão entre ficção e
realidade e para mostrar que a história da
peça foi construída, e que seus construtores
estão ali presentes. É aquela confiança
antiga no prazer da produtividade. Está meio
fora de moda falar nisso, mas eu acho que é
preciso elogiar a produtividade bem aventurada da
não-alienação. Essa atitude
construtiva dos atores fala tanto ou mais do que
os próprios enunciados do espetáculo.
O público respeita essa atitude. Não
existe prazer isolado no ato da construção
do espetáculo. Os atores são também
trabalhadores. E são trabalhadores que podem
confundir o espectador, porque como artistas estão
expostos em alto grau ao mundo da mercadoria e impregnados
de uma relação de culto, de uma projeção
mistificadora. Então as personagens-atores
teriam que fazer a crítica de si próprias
e se apresentar como um trabalhador tão comum
como um serralheiro, um médico, e ao mesmo
tempo incomum, não pela aura de artista,
mas pelo fato de ter conquistado o direito de ser
responsável pela produção de
sua própria história.
MÁRCIO - O caráter da personagem
só interessa na medida em que se revela em
uma determinada situação, porque assim
você tem como extrair um julgamento que leve
em conta o confronto de visões e as contradições
de classe. O principal não é dizer
que a sua personagem é uma personagem circunspecta,
melancólica, isto é bobagem. É
preciso colocar um problema em cena que permita
ver homens tentando resolvê-lo. É a
partir da ação que a personagem mostra
quem de fato é. É importante abordar
as personagens em suas várias faces, nas
suas contradições. Isto não
tem nada a ver com incoerência. Ela pode até
agir de uma forma em uma cena e agir de forma contrária
na cena seguinte. É preciso deixar claro
que a situação impunha um determinado
comportamento e ela, consciente ou inconscientemente,
agiu de determinado modo. Acaba sendo um marco,
quando o ator começa a pensar como apresentar
esta personagem de forma dialética, contraditória.
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REPRESENTAÇÃO DE COLETIVOS
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NEY - Quanto a representação
de classes sociais, o espetáculo tem uma
grande influência do Brecht, um grande aprendizado
com Santa Joana do Matadouros. Percebemos que, quando
ele põe em cena os miseráveis, os
operários ou o lúmpen, ele nunca coloca
uma personagem sendo auto-comiserativa. Brecht sempre
mostra uma contradição muito forte.
A Alessandra Fernandez resolveu a formalização
das cenas de coletivo. Ela propôs este formato
quadrangular de deslocamento. Bando de desempregados
para cá, bando de num sei quê para
lá, foi ela que formalizou isso. Chegou um
momento em que os atores, mal ou bem, chegaram a
um denominador comum. A Alessandra veio com essa
possibilidade de formalização muito
importante para a peça, porque possibilitava
a gente virar de costas e dar um recadinho, diretamente
para o público. Deslocar-se do coletivo e
criar o individual.
ADRIANA - Nas improvisações,
tentamos captar o pensamento geral do grupo representado,
por meio de músicas ou coros. Nas cenas de
coletivo, quando alguém se dirige à
platéia, transforma-se em indivíduo,
depois vira e volta para o grupo. É uma tentativa
de se estabelecer um jogo de transição
entre o pensamento individual e o coletivo.
ALESSANDRA - Em alguns momentos, representamos
os coletivos com o som ou os atores se organizam
em bloco. Por exemplo, nas multidões que
olham para cima, usamos coros formais, musicados
mesmo. Existe uma sonoridade para esses grupos que
também são anunciados na narrativa.
SÉRGIO - Eu acho que a representação
de coletivos exige um olhar coreográfico,
embora isso tenha que ser submetido à crítica,
porque a formalização coreográfica
pode chamar a atenção do espectador
para uma organização exterior à
cena e prejudicar a compreensão do que é
vivo na história. Um antídoto para
isso é a impureza que mostra que os atores
construíram as coreografias com base em necessidades
coletivas e individuais. Falar em coro, por exemplo,
dá um trabalho danado porque você tem
que marcar as mesmas tônicas, seguir a mesma
respiração. Mas de um modo geral acho
excelente o fato de nós usarmos procedimentos
como coros, apartes, interrupções,
parábases, todos os recursos do teatro clássico.
MÁRCIO - Nosso maior desafio foi
representar forças coletivas sem desviar
a atenção do público do conteúdo
da cena para seu caráter meramente formal.
Caracterizar coletivos como uma massa de desempregados,
por exemplo, com apenas cinco atores impunha a formalização.
O recurso a alguma convenção. A questão
era encontrar a justa medida para que os coros e
sua movimentação não impedissem
a construção do sentido da cena.
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WALTER - A falta de padrão do espetáculo
se deve ao caráter coletivizado da composição
musical. Os diferentes gêneros musicais da
peça vão muito em função
do que sugeriam as cenas. Eu acho que a música
do espetáculo radicaliza a idéia do
trabalho coletivo na Companhia. Nesta peça,
estamos conseguindo despersonalizar a música.
A música popular sempre parte deste comportamento.
Daí, vem a idéia dos vários
gêneros musicais no decorrer da peça.
Afinal, a história se passa em um universo
fragmentado, a cidade, que não tem uma cara
só. Os sons são vários e representativos
das situações apresentadas pelo espetáculo.
LINCOLN - A idéia inicial é
que não teria um região e nem um espaço
pré-determinado como em O Nome do Sujeito.
O que, de certa maneira dificultou a pesquisa. Passamos
a trabalhar com os atores e o material era desenvolvido
por eles a partir de propostas e discussões.
O processo foi simples, de experimentação.
No Latão, eu tenho procurado trabalhar com
o mínimo de elementos possíveis nos
arranjos. A música não é isolada
e, com isso, eu tento potencializar a cena, o assunto.
MÁRCIO - A música, assim como
o espetáculo, não tem uma cara muito
definível. Nos outros trabalhos da Companhia,
a pesquisa era mais orientada. Em O Nome do Sujeito,
por exemplo, nós tínhamos referências
históricas e fontes musicais para a criação
e transformação da cena. Em A Comédia
do Trabalho, o pessoal da música, cogitou
o uso dos cantos de trabalho, porque nascem de uma
necessidade coletiva. Mas é um tipo de expressão
muito localizada. Pensamos, então, nos sambas
que faziam apologia do trabalho na época
de Getúlio Vargas. Os músicos trouxeram
alguns para nos familiarizarmos com aquela sonoridade,
principalmente com a sua forma quase falada de cantar.
De algum modo, isto aparece espetáculo, mas
não era suficiente para definir um padrão.
A música foi criada a partir da necessidade
da narrativa, como forma de organização
da cena. Como não tínhamos clareza
sobre a forma do espetáculo, a música,
por um lado se ressentiu disso. Por outro, deu maior
liberdade para os atores comporem. O desejo de estabelecer
um padrão angustiou durante um tempo. Depois,
percebemos que isso nã | | | |