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Caderno
de Apontamentos |
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A COMÉDIA DO TRABALHO
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"O
teatro precisa, portanto, mesmo simbolicamente, reativar
a luta de classes, e a teoria do teatro se tornará
uma alegoria do próprio processo (...)"
(Fredric Jameson) |
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APRESENTAÇÃO
DO CADERNO
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De janeiro a julho de 2000,
em paralelo à montagem de A Comédia
do Trabalho, os integrantes da Companhia do Latão
coordenaram uma série de oficinas dentro do
projeto Residência Artística da Oficina
Cultural Oswald de Andrade, da Secretaria de Estado
da Cultura. Muito mais do que alunos de um processo
pedagógico, os participantes das oficinas colaboraram
trazendo idéias e discutindo a criação
deste novo espetáculo.
Para isso, os coordenadores das oficinas estimularam
os seus participantes a criar propostas de cenas,
levantar material de pesquisa, participar das discussões
sobre a escrita da dramaturgia.
No processo de criação da Companhia
do Latão as cenas surgem da improvisação
dos atores, de sugestões cenográficas
e de iluminação, assim como, do material
das pesquisas, das observações de rua
e entrevistas realizadas pelo grupo. A idéia
é que, durante o processo, nenhum dos componentes
da Companhia se restrinja a uma especialidade, e sim
participe do conjunto da montagem.
Em algumas oficinas, os participantes trabalharam
de maneira direta, participando do planejamento de
cenários e figurinos, discutindo a elaboração
da luz, recolhendo material em vídeo nas ruas
de São Paulo. Um dos resultados da Oficina
de Vídeo-documentário é a produção
de um documentário crítico sobre este
estudo do tema do trabalho. Este caderno de Apontamentos,
por exemplo, é resultado do trabalho da Oficina
de Teoria Crítica, que também organizou
debates e palestras no decorrer desses meses.
A oficina de trabalho de ator e a de direção
além de contribuir no processo da Comédia
do Trabalho, geraram um material que ganhou autonomia.
Foram cenas de intervenção política
direta, que abriram uma nova frente de atuação
da Companhia do Latão. Uma delas foi apresentada
na exposição de fotografias Êxodos,
de Sebastião Salgado, retratando a morte de
um integrante do MST no estado do Paraná. Esta
cena chegou a ser apresentada no Encontro de Movimentos
Populares e na Faculdade de Filosofia da USP. Uma
outra cena, também elaborada em conjunto com
os diretores da Companhia, foi apresentada no acampamento
do MST, em Rio Bonito do Iguaçu, Paraná,
e discutia a construção de uma cidade
modelo, trabalho feito a convite do escritório
de arquitetura Usina.
Não apenas um documento sobre o processo, este
Caderno de Apontamentos é a concretização
de discussões e debates acontecidos na construção
radicalmente coletiva de A Comédia do Trabalho.
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APONTAMENTOS
DA SALA DE ENSAIO
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| PROCESSO
DE APRENDIZADO
MARIA - A Companhia do Latão se mantém
como grupo porque tem um projeto. O trabalho vai
para frente porque olha numa perspectiva maior que
a do espetáculo. Dentro da sala de ensaios
existe também um caráter pedagógico,
para nós e para as pessoas que acompanham
o processo. Cada vez que fazemos um trabalho, aprendemos
certos assuntos, afinamos um olhar sobre a realidade.
OPÇÃO PELO CÔMICO
SÉRGIO - Nossa intenção
em A Comédia do Trabalho era um espetáculo
que tivesse um ponto de vista popular. Isso pode
ser um ponto de partida perigoso por evocar o populismo
da facilitação das coisas, do barateamento
das questões. Ou pode sugerir também
aquela vontade esforçada de se aproximar
do povo que é típica de uma burguesia
mais progressista, mas que ainda está presa
ao padrão paternalista do viajante endinheirado
que objetualiza com simpatia as formas populares.
Sem ilusões quanto a isso, nossa vontade
era antes de tudo técnica, no sentido de
um diálogo mais direto com públicos
não acostumados ao teatro, e de poder realizar
apresentações em qualquer espaço.
E só conseguiríamos alguma precisão
nessa "popularização" da
narrativa se ela proviesse da nossa experiência
pessoal com a sociabilidade das relações
de trabalho. Decidimos por um estudo de comédia
para caminharmos para o lado contrário dos
nossos antigos trabalhos. Precisávamos romper
com toda expectativa aurática ainda importante
na avaliação dos nossos outros espetáculos,
ainda sustentados pelo halo de coisa bem-feita,
de obra espiritual, belas no sentido sacro do termo.
Foi por isso que escolhemos um gênero pobre,
a comédia. E mais miserável ainda
quando tende para a farsa. As pessoas até
hoje tem preconceito com esse gênero considerado
menor. Algumas pessoas vieram nos alertar para os
riscos da tradição cômica, no
mais das vezes conservadora, acostumada a moralismos
preconceituosos com grupos que não tem força
social que os proteja contra a coisificação.
Mas mesmo esses alertas continham um preconceito
estético contra o mau gosto. A atitude cômica
não é conservadora em si, pelo contrário,
é altamente reflexiva e está ligada
ao pensamento bruto, pensamento pesado. São
certas cristalizações dessa atitude
que se tornaram conservadoras. As formas populares
nunca estão desacompanhadas de comicidade.
DRAMATURGIA NA SALA DE ENSAIO
MÁRCIO - Os atores já têm
uma certa experiência em pensar a cena com
suporte dramatúrgico. Isso facilita o nosso
trabalho de condução da dramaturgia
em processo. Em um primeiro momento, quando ainda
se estão estabelecendo as linhas gerais da
fábula, com base nos conteúdos que
queremos discutir na cena, o papel do encenador
não se distingue do papel do dramaturgo.
Temos a incumbência de observar de fora a
matéria gerada na sala de ensaios e dar a
ela uma organização mínima.
A partir daí, sugerimos certas orientações
que são postas a prova pelos atores no trabalho
de improvisação. Em O Nome do Sujeito,
a encenação ficou muito colada à
dramaturgia, porque o processo de criação
dramatúrgica foi longo. Com a Comédia
do Trabalho, foi diferente. Procuramos estabelecer
uma primeira versão do texto com um mínimo
de antecedência em relação à
estréia, para termos tempo de atuar como
encenadores com autonomia diante da matéria
dramatúrgica. Como trabalhamos com a perspectiva
de formação, cada novo trabalho guarda
semelhança com os anteriores, porque os procedimentos
são os mesmos. A diferença é
que hoje temos mais consciência deles. No
início era algo intuitivo, havia apostas
e trabalhávamos com tentativa e erro. A reflexão
sobre esses procedimentos nos permitiu a radicalização
do espetáculo, não só do ponto
de vista formal, mas, principalmente, do ponto de
vista do conteúdo. Os temas que escolhemos
estão ligados às nossas necessidades
no momento. Decidimos estudar a questão do
trabalho porque está na ordem do dia. A complexidade
do assunto fez com que retomássemos assuntos
anteriores, principalmente, no que se refere à
dialética e ao marxismo. Isso se reflete
na dramaturgia. O dado novo foi abrir o processo,
desde o início, por conta das oficinas .
O que colocou a experiência em outro patamar.
O trabalho com vários núcleos impôs,
além da reflexão sobre os procedimentos
da construção da dramaturgia, a necessidade
de um discurso preciso que possibilitasse a prática
de uma pedagogia. Isso não quer dizer que
não existam pontos de vista diferentes e
contradições que mantêm o trabalho
em movimento. Hoje temos uma coisa que não
tínhamos tempos atrás que é
o reconhecimento de uma experiência coletiva.
A partir da negação sistemática
da especialização que gera a alienação
do artista, o grupo conseguiu dotar os atores, os
diretores, os artistas reunidos no processo de um
critério e de uma autonomia estética
determinantes no que a Companhia está apresentando
hoje. Esta autonomia, esta apropriação
traduz na prática este conceito de trabalho
não personalizado, não individualizado.
O que não impede que cada um reconheça,
no todo, sua autoria. O projeto artístico
é coletivo.
MEDINA - A dramaturgia é constituída
aos poucos. A cenografia entra nesse processo propondo
elementos aos atores. O que eu acho bom é
que quando você propõe um objeto, os
atores e diretores sabem usá-lo inteligentemente,
transformá-lo, tirar som, brincar com ele.
MARIA - O que difere o nosso trabalho de
improvisação do trabalho feito em
outros grupos é que nós temos uma
ação mais clara dentro da dramaturgia,
a improvisação é voltada para
a elaboração dramatúrgica .
Lógico que a construção cênica
das personagens aparece com isso, mas nunca construímos
uma personagem antes de traçar um caminho
que depende do todo.
ALESSANDRA - É um processo em que
o ator escreve mesmo, quer dizer, são improvisos
em que tentamos dar uma base dramatúrgica
precisa para os outros atores. Eu acho que acaba
gerando um resultado interessante. Tanto é
que muito dos textos foram aproveitados para essa
versão de agora, mesmo modificados.
HEITOR - Mesmo sem a dramaturgia no papel,
nós já tínhamos o sentido de
cada personagem, a atmosfera já havia sido
capturada, estava na mão dos atores desde
as discussões. O resultado dessas improvisações,
no entanto, é sempre uma surpresa.
ADRIANA - Escrevíamos muito nos ensaios.
Para mim, que sou nova no grupo, foi um treino imenso.
Eu pedia socorro o tempo todo, principalmente nessa
questão da dialética, de você
trazer contradições para uma cena.
SÉRGIO - Escrevemos o texto durante
os ensaios, sem certeza de onde a história
ia dar. Experimentamos no início com situações,
hipóteses de narrativa, ações
isoladas. A principal dificuldade de condução
deste processo é fazer com que as pessoas
raciocinem no mesmo sentido, fazer com que o coletivo
avance em bloco, que o grupo pense conjuntamente
nos problemas e tente imaginar soluções
a partir de premissas comuns. Quando você
consegue deixar claro o problema comum, qual assunto
está em jogo, o que nem sempre é fácil,
as coisas começam a andar. Numa etapa seguinte,
conforme os atores geram material cênico,
imagens que podem dar numa peça, é
preciso rediscutir os novos caminhos. Nós
como diretores não pegamos as ações
geradas pelos atores e manipulamos de fora, até
chegar a uma montagem. Nós procuramos só
deixar claro o ponto de vista pelo qual os atores
podem observar o seu próprio trabalho, para
que eles mesmos continuem como sujeitos da cena
sem dispersão ou desvio de propósitos.
Seria o fim da picada um espetáculo que critica
a alienação do trabalho ter sido ensaiado
com qualquer espécie de alienação.
E uma das nossas principais conquistas como grupo
me parece ser essa: o conhecimento de causa do grupo
sobre o sentido da história que está
sendo contada. Todos sabem a origem de cada palavra
no texto, de cada imagem, do porquê da proposta
de um tema. Mas esse tipo de dramaturgia em processo
só é possível com um grupo
de atores que raciocine de modo semelhante do ponto
de vista metodológico. Me refiro a um jeito
de olhar os acontecimento sob a perspectiva dialética.
Este processo funciona muito melhor com atores versados,
ou pelo menos dispostos a pensar a contrapelo, a
olhar na contra-mão, a enunciar pelo reverso.
Nas situações reais da vida, raras
vezes a expressão corresponde à vontade
interior. Para usar uma idéia de Stanislavski,
a dramaticidade da vida é feita de ações
transversas, em que há distância e
às vezes oposição entre intenção
e gesto. No improviso teatral, contudo, existe uma
tendência à revelação
dos desejos, à má explicitação
dos objetivos. É um treinamento do bom teatro
realista aprender a agir pelo ocultamento e não
pelo desvelamento. Mas esta dialética da
ação realista é um primeiro
passo que se dá no plano do indivíduo.
O segundo passo, que corresponde a uma questão
poética de superação do dramático
pelo épico, é considerar que entre
indivíduos que atuam de modo transversal
existem também padrões sociais de
relações transversais. As vontades
individuais também se ligam a causas sociais
mais amplas e visões de classe que muitas
vezes não se mostram como tal. Cabe à
cena épica mostrar esses vínculos
pelo qual o destino individual se liga a destinos
coletivos. Outra questão a considerar neste
tipo de processo é a de que toda cena contém
- por mais imparcial que pareça - um ponto
de vista valorativo, ainda que não seja o
único (as boas cenas contém uma ambigüidade
fundamental, se contradizem internamente, contrapõem
imagem e discurso etc.). O fato é que nenhuma
representação é neutra. A forma
escolhida já contém juízos.
E por que é importante discutir isso? Para
que nós procuremos trabalhar realmente com
o ponto de vista - vou usar outro termo antigo -
mais "progressista" da história.
Porque no fundo a questão da escolha formal
é política.
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IMPROVISAÇÃO
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NEY - Conseguimos estabelecer, ao longo
dos quatro anos de Companhia, um modo de construção
dialética das personagens. Um exemplo disso
é a personagem do chefe de polícia.
Quando se começou a improvisar esta personagem,
as meninas improvisavam aquela figura autoritária
que dá as regras convencionais etc. Para
mim, a mensagem seria mais forte se a personagem
dissesse coisas coerentes, falasse em direitos humanos
e direitos civis, mas, internamente, se contradissesse.
Então, a grande clareza de construção
de personagem, de cena também, foi isso:
pensar dialeticamente. Verbalizar o contrário
da ação cênica. Talvez por saber,
antecipadamente, que iríamos fazer este espetáculo
ao ar livre, em circos, ginásios, preocupou-me
muito a forma escancarada, direta. Qualquer exercício
que caísse no psicologismo, eu rechaçava.
Pra mim, tinha que ter uma forma mais grandiloqüente,
nunca contida, pequena. Noventa por cento das coisas
que você faz são jogadas fora. Ao invés
de fazermos um exercício de construção
do personagem, de pesquisarmos a sua gênese,
onde ela nasceu, qual a cor da parede da sua casa,
como ela anda, como ela se veste, quem são
seus pais, qual seu universo social, nós
temos que criar situações para a personagem.
Ao criar estas situações, varremos
o seu universo. Os diretores insistiram muito nos
conceitos de trabalho do ator relativos à
narrativa, clareza, ação transversa,
pensar dialeticamente. Todos na Companhia do Latão
aprendem a partilhar de um mesmo princípio
de trabalho.
MARIA - O treino diário de improvisação
é muito importante. Pois não se treina
só a disponibilidade, mas, também,
o exercício do olhar. Primeiro, nos acostumamos
com a idéia de improvisar em cima de ações
e não de sentimentos, o que é difícil,
afinal, os atores estão habituados a fazer
drama. Em seguida, tentamos fazer com que essa ação
seja dialética, isto é, tenha uma
contrapartida. Em terceiro, elaboramos uma cena
que, como um todo, tenha um ponto de vista acentuado
ou mais de um. Conscientes, no entanto, de quando
estamos apontando estes pontos de vista. Por fim,
buscamos uma cena que abra um flanco para a continuação
do improviso. Todo mundo deve jogar no mesmo time.
Às vezes, você quer realizar uma idéia
e a outra pessoa quer outra. Isso requer um treino
entre as pessoas que estão improvisando.
Mas é difícil, já que ainda
trabalhamos com elaboração da dramaturgia.
Tem de existir uma disponibilidade para abrir mão
de suas idéias em favor do coletivo.
ADRIANA - O Sérgio e o Márcio
no começo desse processo funcionavam como
um filtro, assistindo, anotando e deixando os atores
colocarem tudo ali. Uma idéia que surgia
era acompanhada de uma necessidade de executá-la.
Mesmo que ficasse uma droga, havia essa necessidade.
O desenvolvimento de cenas é uma questão
de treino da musculatura criativa, você vai
desenvolvendo, com o aprendizado das improvisações.
HEITOR - Nós sempre tivemos uma noção
do todo no decorrer de cada fase de ensaios do espetáculo.
Mesmo sem a estrutura dramatúrgica definida,
havia a noção de um todo. Sempre que
fazíamos uma cena de improviso, sabíamos
do que e para quê estávamos falando.
SÉRGIO - A discussão conceitual
ocorre em um primeiro momento dos improvisos. Depois,
vem a hora de outro registro mental, o da imaginação,
o da produção de imagens. A teorização
pode ser paralisante se ela não se der na
perspectiva do produtor.
ALESSANDRA - O fato de ser uma comediona
faz com que façamos coisas absurdas. Temos
que esquecer o superego. Ficamos muito tempo na
questão formal de como representar os gêmeos:
se seria com dois atores ou não. Nessa época,
a Adriana trouxe a história de uma concordata,
e começamos a fazer cenas em que tudo se
baseava em fatos reais: os empregados da firma que
se juntavam e ofereciam o FGTS para salvar a empresa,
os empregados que se juntavam para reclamar e o
patrão dava um saco de arroz e feijão,
etc. Os diálogos com os alunos da oficina
foi importante para os atores. Porque eles também
realizavam cenas ligadas ao tema do trabalho, e
assim nós tínhamos um espelhamento.
Sobre o modo de criação de cenas,
no começo existiram dois processos: no primeiro
os diretores sugeriam um tema e nós nos juntávamos
para fazer uma cena coletiva. Depois, buscou-se
um outro sistema: cada ator, a partir de uma fonte
ou sugestão, elaborava uma cena sozinho e
depois ensaiava com as outras pessoas, que acabavam
interferindo, dando palpite e modificando a cena,
mas a partir de uma base mais concreta.
MÁRCIO - Queríamos representar
forças coletivas e, ao mesmo tempo, destinos
individuais. Durante muito tempo, isto foi discutido
na sala de ensaio com os atores. É evidente
que, a opção pelo gênero cômico
faz com que, nas improvisações, apareça
o tipo em primeiro lugar. O tipo tem certa autonomia
em relação à história,
ele se define por uma mecanização
do comportamento, pela repetição de
uma obsessão. Isto facilitou o trabalho de
improvisação dos atores porque eles
não precisavam ter tanta clareza sobre a
trajetória destas personagens. O problema
surgia quando queríamos dar conta do destino
individual, representar o indivíduo no recorte
desta tipificação. Era difícil
dar credibilidade a estas trajetórias. Por
outro lado, trabalhar com o gênero cômico
tornou tudo muito mais despojado. Isto deu aos atores
autonomia para buscar soluções sem
compromisso durante o processo de improvisação.
Se o ator precisava fazer duas personagens ao mesmo
tempo, fazia sem o menor constrangimento porque
até o gênero cômico e a narrativa
épica permitem isso. Desde os primeiros ensaios,
os atores evitavam improvisar num registro naturalista.
Dificilmente, viam-se cenas com começo, meio
e fim de uma situação cotidiana. Os
atores improvisavam fazendo o recorte do que era
realmente necessário, eliminando as arestas
do que é circunstancial, com o cuidado de
amplificar a forma.
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MEDINA - Devido à necessidade das
trocas serem muito rápidas, os adereços
é que dão o código das personagens.
Isso determinou, no figurino, muitos bolsos, zíperes,
aberturas, enfim diferentes possibilidades para
o ator ter uma base de trabalhador e conter todos
as outras personagens nele mesmo.
ALESSANDRA - Desde o começo, estabelecemos
que trabalharíamos com tipos. Eu, particularmente,
resolvi carregar muito na tinta desses tipos para
poder diferenciar, porque eu teria que fazer muitas
personagens e depois, se fosse necessário,
humanizaria, tiraria os exageros.
ADRIANA - No início das montagens,
cada um foi para área que tinha proximidade.
Fomos para a rua, entrevistamos pessoas, pesquisamos
em livros e jornais e assistimos ao material gerado
pela oficina de vídeo-documentário.
As personagens nasceram dessa pesquisa.
HEITOR - Eu fui para rua, fiz uma observação
no Largo 13 de Maio, para ver como aquilo funciona,
ver aquela realidade que é diferente para
mim. Lá, você vê o sujeito trabalhando,
as relações de trabalho acontecendo,
o patronato no cotidiano das pessoas. Eu levei máquina
fotográfica, gravador para tentar registrar.
Essa observação ficou, ela veio para
as cenas. Outra que eu fui fazer, uma pesquisinha
minha, é que eu fui tentar o emprego de engenheiro
civil --eu sou formado em engenharia-- para rever
como é essa experiência de procurar
um emprego.
MARIA - A Liu-Liu é uma mistura de
um monte de coisas. Principalmente das idéias
idiotas do Domenico de Masi. Estávamos tão
voltados para a elaboração dramatúrgica
que a construção dela ficou atrelada
à própria dramaturgia. Isso é
interessante, pois se trata do trabalho épico
e da composição do gestus, que são
as ações das personagens, mais importantes
no contexto geral do que no delas próprias.
NEY - Em relação às
personagens dos proprietários, havia no começo
uma dificuldade vocabular muito grande. Quando íamos
improvisar, faltava vocabulário. Falava-se
em reengenharia , em terceirização
genericamente, não sabíamos quais
eram as matrizes desses termos. Desde a entrevista
com o João Sayad, depois com o Bresser, com
o Haddad e com o material bibliográfico sobre
gerenciamento, começou a aparecer um vocabulário
mais concreto. A entrevista com meu irmão,
que também é empresário, foi
muito importante. Nós estávamos construindo
uma cena um dia, e eu resgatei todo o vocabulário
desta entrevista: "não produzir, apenas
intermediar, terceirizar, sejamos futuristas, sejamos
vanguardistas, o próximo passo é ser
virtual não ter patrimônio físico".
No caso das personagens populares, a tendência
dos atores é fazer clichê. Nós
fazemos personagens da classe alta e da classe média,
mas quando é de classe baixa, não
sabemos fazer. Fazemos uma coisa estereotipada,
falsa, que o público não aceita. Por
isso, foi importante a captação direta
que tivemos no material da Oficina de Vídeo
e nas nossas observações de rua. Uma
personagem quando ela quer alguma coisa, ela não
vai dizer o que quer, talvez ela vá dizer
o contrário. Mas a forma como ela está
dizendo explicitará o que ela deseja.
SÉRGIO - Nosso maior problema foi
com as personagens dos trabalhadores e dos excluídos.
Isso já ocorreu nos outros espetáculos
porque a dificuldade das representações
de forças populares não é só
do palco, mas da sociedade atual. Pelo menos conseguimos
pôr em cena a discussão sobre o antagonismo
de classes de uma forma realista em relação
aos dias de hoje. Não é a forma clássica
do operariado contra os capitalistas, mas conseguimos
não ser negativistas nem mistificadores,
sem deixar de mostrar nossa convicção
numa potência revolucionária ainda
existente no conflito entre ricos e pobres. É
no que se refere à formalização
cênica disso que essa peça é
avançada na história da Companhia
do Latão e nos joga para a frente. Um outro
plano importante é a das personagens-atores.
De novo assumimos no prólogo e em diversos
apartes que tudo não passa de teatro, porque
o que interessa está para além do
teatro. Isso foi feito para afastar qualquer chance
de confusão entre ficção e
realidade e para mostrar que a história da
peça foi construída, e que seus construtores
estão ali presentes. É aquela confiança
antiga no prazer da produtividade. Está meio
fora de moda falar nisso, mas eu acho que é
preciso elogiar a produtividade bem aventurada da
não-alienação. Essa atitude
construtiva dos atores fala tanto ou mais do que
os próprios enunciados do espetáculo.
O público respeita essa atitude. Não
existe prazer isolado no ato da construção
do espetáculo. Os atores são também
trabalhadores. E são trabalhadores que podem
confundir o espectador, porque como artistas estão
expostos em alto grau ao mundo da mercadoria e impregnados
de uma relação de culto, de uma projeção
mistificadora. Então as personagens-atores
teriam que fazer a crítica de si próprias
e se apresentar como um trabalhador tão comum
como um serralheiro, um médico, e ao mesmo
tempo incomum, não pela aura de artista,
mas pelo fato de ter conquistado o direito de ser
responsável pela produção de
sua própria história.
MÁRCIO - O caráter da personagem
só interessa na medida em que se revela em
uma determinada situação, porque assim
você tem como extrair um julgamento que leve
em conta o confronto de visões e as contradições
de classe. O principal não é dizer
que a sua personagem é uma personagem circunspecta,
melancólica, isto é bobagem. É
preciso colocar um problema em cena que permita
ver homens tentando resolvê-lo. É a
partir da ação que a personagem mostra
quem de fato é. É importante abordar
as personagens em suas várias faces, nas
suas contradições. Isto não
tem nada a ver com incoerência. Ela pode até
agir de uma forma em uma cena e agir de forma contrária
na cena seguinte. É preciso deixar claro
que a situação impunha um determinado
comportamento e ela, consciente ou inconscientemente,
agiu de determinado modo. Acaba sendo um marco,
quando o ator começa a pensar como apresentar
esta personagem de forma dialética, contraditória.
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REPRESENTAÇÃO DE COLETIVOS
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NEY - Quanto a representação
de classes sociais, o espetáculo tem uma
grande influência do Brecht, um grande aprendizado
com Santa Joana do Matadouros. Percebemos que, quando
ele põe em cena os miseráveis, os
operários ou o lúmpen, ele nunca coloca
uma personagem sendo auto-comiserativa. Brecht sempre
mostra uma contradição muito forte.
A Alessandra Fernandez resolveu a formalização
das cenas de coletivo. Ela propôs este formato
quadrangular de deslocamento. Bando de desempregados
para cá, bando de num sei quê para
lá, foi ela que formalizou isso. Chegou um
momento em que os atores, mal ou bem, chegaram a
um denominador comum. A Alessandra veio com essa
possibilidade de formalização muito
importante para a peça, porque possibilitava
a gente virar de costas e dar um recadinho, diretamente
para o público. Deslocar-se do coletivo e
criar o individual.
ADRIANA - Nas improvisações,
tentamos captar o pensamento geral do grupo representado,
por meio de músicas ou coros. Nas cenas de
coletivo, quando alguém se dirige à
platéia, transforma-se em indivíduo,
depois vira e volta para o grupo. É uma tentativa
de se estabelecer um jogo de transição
entre o pensamento individual e o coletivo.
ALESSANDRA - Em alguns momentos, representamos
os coletivos com o som ou os atores se organizam
em bloco. Por exemplo, nas multidões que
olham para cima, usamos coros formais, musicados
mesmo. Existe uma sonoridade para esses grupos que
também são anunciados na narrativa.
SÉRGIO - Eu acho que a representação
de coletivos exige um olhar coreográfico,
embora isso tenha que ser submetido à crítica,
porque a formalização coreográfica
pode chamar a atenção do espectador
para uma organização exterior à
cena e prejudicar a compreensão do que é
vivo na história. Um antídoto para
isso é a impureza que mostra que os atores
construíram as coreografias com base em necessidades
coletivas e individuais. Falar em coro, por exemplo,
dá um trabalho danado porque você tem
que marcar as mesmas tônicas, seguir a mesma
respiração. Mas de um modo geral acho
excelente o fato de nós usarmos procedimentos
como coros, apartes, interrupções,
parábases, todos os recursos do teatro clássico.
MÁRCIO - Nosso maior desafio foi
representar forças coletivas sem desviar
a atenção do público do conteúdo
da cena para seu caráter meramente formal.
Caracterizar coletivos como uma massa de desempregados,
por exemplo, com apenas cinco atores impunha a formalização.
O recurso a alguma convenção. A questão
era encontrar a justa medida para que os coros e
sua movimentação não impedissem
a construção do sentido da cena.
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WALTER - A falta de padrão do espetáculo
se deve ao caráter coletivizado da composição
musical. Os diferentes gêneros musicais da
peça vão muito em função
do que sugeriam as cenas. Eu acho que a música
do espetáculo radicaliza a idéia do
trabalho coletivo na Companhia. Nesta peça,
estamos conseguindo despersonalizar a música.
A música popular sempre parte deste comportamento.
Daí, vem a idéia dos vários
gêneros musicais no decorrer da peça.
Afinal, a história se passa em um universo
fragmentado, a cidade, que não tem uma cara
só. Os sons são vários e representativos
das situações apresentadas pelo espetáculo.
LINCOLN - A idéia inicial é
que não teria um região e nem um espaço
pré-determinado como em O Nome do Sujeito.
O que, de certa maneira dificultou a pesquisa. Passamos
a trabalhar com os atores e o material era desenvolvido
por eles a partir de propostas e discussões.
O processo foi simples, de experimentação.
No Latão, eu tenho procurado trabalhar com
o mínimo de elementos possíveis nos
arranjos. A música não é isolada
e, com isso, eu tento potencializar a cena, o assunto.
MÁRCIO - A música, assim como
o espetáculo, não tem uma cara muito
definível. Nos outros trabalhos da Companhia,
a pesquisa era mais orientada. Em O Nome do Sujeito,
por exemplo, nós tínhamos referências
históricas e fontes musicais para a criação
e transformação da cena. Em A Comédia
do Trabalho, o pessoal da música, cogitou
o uso dos cantos de trabalho, porque nascem de uma
necessidade coletiva. Mas é um tipo de expressão
muito localizada. Pensamos, então, nos sambas
que faziam apologia do trabalho na época
de Getúlio Vargas. Os músicos trouxeram
alguns para nos familiarizarmos com aquela sonoridade,
principalmente com a sua forma quase falada de cantar.
De algum modo, isto aparece espetáculo, mas
não era suficiente para definir um padrão.
A música foi criada a partir da necessidade
da narrativa, como forma de organização
da cena. Como não tínhamos clareza
sobre a forma do espetáculo, a música,
por um lado se ressentiu disso. Por outro, deu maior
liberdade para os atores comporem. O desejo de estabelecer
um padrão angustiou durante um tempo. Depois,
percebemos que isso não era tão necessário
assim.
ADRIANA - Achamos que quanto mais líricas
as músicas, mais operísticas, melhores.
Isso por causa das contradições com
as cenas esdrúxulas e absurdas da peça.
Esse foi o caminho.
SÉRGIO - A canção dos
mendigos e pedintes é letra da Maria e melodia
da Adriana. O hino de Tropélia e a Liu-liu
song são letra e música saídas
da mente perversa de Maria Tendlau. A canção
da Mamata é música da Alessandra e
de novo letra da Maria. A da telefonista é
letra e música da Alessandra. A canção
do sentido da vida é minha, letra que escrevi,
inspirada num verso de Brecht, e melodia de minha
primeira lavra. Todos as arranjos e aprimoramentos
musicais foram feitos pelo Walter e pelo Lincoln.
A Sandra foi quem ajudou na colocação
das vozes.
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CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO FICCIONAL
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NEY - A criação do espaço
ficcional é uma dificuldade muito prazerosa
de se resolver. Aliás, eu e a Maria estamos
especialistas em criar cenas de tentativa de suicídio
no palco. Porque em O Nome do Sujeito também
tem uma. Ela tenta se jogar de uma ponte e eu a
pego por trás. Alguém me perguntou:
por que você não faz essa cena em cima
das caixas? Porque preferimos criar uma convenção
com o público, um código. Estamos
no nível do palco e o público é
quem imagina a altura.
ALESSANDRA - Enquanto elaborávamos
as cenas, tínhamos que pensar em tudo e criar
o espaço imaginário. Muitas vezes,
usávamos a narração. As caixas
apareceram na segunda parte do processo. O espaço
era criado pelos nossos gestos, pelo olhar, através
do som, como por exemplo nas multidões das
cenas de rua.
SÉRGIO - O que fazemos é uma
exposição dos procedimentos do palco,
uma explicitação das regras do jogo
cênico. A cenografia também se comporta
assim.
PAULO - A luz acesa na platéia tem
o intuito de não individualizar o espectador.
Ela afasta deliberadamente o conforto da imersão,
lembra que existe um conjunto de espectadores, um
público na platéia. Quanto à
iluminação das cenas, o fundamental
é ajudar o ator a contar a história
com clareza. Se a luz também narra, é
sempre a partir do trabalho dos atores.
MEDINA - Começamos pensando no desemprego
e na atual situação do trabalho. Pensamos
em mercadorias, nas pessoas como mercadorias, e
a partir desses conceitos procuramos coisas palpáveis.
Daí a idéia da caixa de papelão.
A construção do espaço ficcional
na Companhia tem muito a ver com a abertura de espaços
que façam o espectador imaginar. Dificilmente
nós damos uma forma pronta para o espectador.
É uma linguagem do Latão com que eu
concordo absolutamente. Dar a imagem pronta ao espectador
é terrível. Aí, é melhor
o cinema ou a televisão.
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